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Homoparentalidade: se ter uma mãe já é muito bom, imagine duas!

Sortudas são as crianças que, no dia das crianças, puderam expressar seu amor por sua mãe e privilegiadas aquelas que puderam expressar em dobro. Parece matemática da mais trivial, mas assim como com a matemática, a homoparentalidade causa resistência em muita gente e, por essa razão, pretendo colocar essa palavra, desconhecida para alguns, em perspectiva.

Homoparentalidade é o termo utilizado para definir uma das novas configurações familiares, a qual é composta por duas mães, ou dois pais, que têm uma relação afetiva e seus filhos. Trata-se, obviamente, de um tema complexo, não por seus próprios méritos, mas pela necessidade de desconstruir uma ideia que há tempos habita o imaginário das pessoas, as quais acabam fantasiando o status quo como um modelo a ser preservado, ao invés de superado.

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É um novo posicionamento feminino em que essas mulheres se percebem como mulheres-sujeitos de suas trajetórias de vida e assim, saem em busca de suas realizações.
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Superação ou preservação do status quo?

Quem faz, ou fez, psicoterapia provavelmente já se surpreendeu com momentos em que, para superar suas maiores angústias e medos, se fez necessário enfrentar modelos e ideias que há muito encontram-se instaladas em nossa visão de mundo. Esse é um exercício que nos desafia cotidianamente, para que possamos nos tornar melhores pessoas para o mundo e, consequentemente, tornar o mundo melhor para as pessoas e para nós.

A partir dessa ideia, proponho uma retomada histórica que nos permita observar momentos em que a sociedade, ao superar o status quo, passou por significativos avanços, especialmente no que diz respeito à família. Para resgatar um exemplo que ilustra bem esse fato, não precisamos ir longe. Basta lembrar que no fim da década de 70, há mais ou menos 40 anos atrás, apesar da grande resistência apresentada pela sociedade, o divórcio foi regulamentado. Seus principais resultados só vieram a se destacar na década de 90, quando 47% das famílias passaram a se organizar com a presença de somente um dos pais. Visto isso, chamo a atenção para um fato de extrema importância. Quando se observa um dado como esse, é importante que nos esforcemos para ir além do que a informação aponta. Por exemplo, quando vemos que quase metade dos casais se separou na década de 90, há quem se preocupe com a menor dificuldade em se divorciar, mas e a dificuldade de viverem juntos?

Quantos casos já se soube de mulheres submetidas à constante violência (física ou psicológica) que encontraram, precisamente no divórcio, uma saída para um estado de total anulação e profundo sofrimento? Ou seja, ao superar o tabu de que os laços matrimoniais seriam irrevogáveis, pessoas que não vislumbravam mais a possibilidade de dar continuidade ao casamento, tiveram a oportunidade de reformular seu projeto de vida e seguir em busca da felicidade almejada.

queer-family  A possibilidade de um avanço irreversível

Embora hoje os ventos não sejam dos mais favoráveis, no contexto político, me parece irreversível o avanço que nossa sociedade tem feito na discussão do conceito de família. Permitindo que os vínculos familiares se pautem mais pelo afeto e menos pela genética, embora não desqualifique o último. Tal como a questão do divórcio, é preciso que se enxergue com olhos críticos esse avanço, buscando-se que as vistas alcancem aquilo que está para além dos conceitos até então enraizados em nossas origens. Quando se caminha nessa direção, emerge muito mais do que o tema da adoção de crianças por casais homoafetivos, sendo possível repensar, também, os modelos tradicionais, nos quais, por muito tempo, os laços sanguíneos se sobrevaleram em relação aos afetivos. Pensando de forma bem prática, esse pode ser um passo importantíssimo, inclusive, para a longevidade das relações.

Se ainda assim estiver difícil colocar a questão em perspectiva, faça o seguinte exercício: pense em uma criança nascida em um ciclo de violência e negligência. Essa criança é abandonada por seus pais, que não têm quaisquer condições de criá-la. Em seguida, lembre-se de que há 8 mil crianças e adolescentes, em geral nascidas nessas condições, à espera de adoção, geralmente sendo priorizadas pelos casais que adotam as crianças mais novas e brancas. Reflita agora sobre o futuro que aguarda aquelas que chegarão à idade adulta sem terem sido adotadas.

Frente a tudo isso, resta a pergunta: é possível não admirar mães e pais que empreendem uma gigante batalha para garantir a essas crianças, e mesmo a outras que não sejam adotivas, um lar onde elas possam desfrutar do mesmo amor e afeto que você desejaria aos seus próprios filhos? Pois, felizmente, mais duas mães criativas foram capazes de fazer isso e, assim, garantir às suas crianças uma educação de qualidade, um lar seguro e, sobretudo, amor.

Por fim, temos um fato diante de nós: a sociedade está evoluindo, a despeito de toda tensão produzida por quem se opõe à adoção homoparental, sustentados por princípios que rara vez se fundam no desejo de uma sociedade mais justa e fraterna. Assim, poucos dias após o Dia das Mães e próximo ao Dia Internacional da Família, comemorado no dia 15 de maio, saúdo a tod@s cujos laços familiares pautam-se mais pelo afeto do que por qualquer outro elemento. Afinal, é isso que os manterá unidos e felizes.

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1 Comentário

  • Responder Kalyne 12/05/2015 às 22:50

    Um tema muito pertinente nos dias de hoje, onde já há leis contra preconceito mais ainda há muito e de modo mascarado! Bonito é quem se dá uma chance, dá oportunidade ao outro, quem faz escolhas criativas como esta de ter a família que se quer ter, construir a felicidade delineada por si, longe de tradicionalismo, próximo da sensibilidade e da afetividade sonhada. Parabéns mais uma vez grande amigo, por mais um texto lindo, continuo seguindo seus passos!

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