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Psicanálise 16/03/2020

O sujeito contemporâneo e a demanda de cura para a psicanálise

 Tempo de leitura ~2 min~

Nada mais atual que o filme “Tempos modernos” de Charles Chaplin, que em seu ‘silêncio’ foi capaz de interrogar a dinâmica industrial das esteiras de produção, da mecanização dos sujeitos e da eliminação de subjetividades em prol de um resultado ‘eficiente e harmônico’. Dinâmica tal que extrapolou as paredes da indústria e se encontra generalizada em todos os ambientes do homem contemporâneo: em sua rotina diária, vive com pressa; em suas relações, ama fluidamente; e diante de seus adoecimentos, espera que lhe entorpeçam ou lhe curem rapidamente.

Diagnósticos e terapias à serviço das esteiras de produção

Diante da demanda de uma produção cada vez maior no menor tempo possível, os diagnósticos não mais orientam o pensar sobre um caso, mas servem de etiquetas tatuadas na pele para nortear quais medicamentos serão capazes de tamponar ou apaziguar o desconforto do sintoma. Bem como as terapias breves e focais, que promovem uma rápida modificação de comportamentos, atendendo muito bem à necessidade de ‘apertar parafusos’ para devolver as ‘máquinas orgânicas’ às suas esteiras. E os protocolos, frios, objetivos e compartimentados, que ocupam o lugar da investigação, do qualitativo e do subjetivo, pois estes tomam tempo demais.

O DSM é um reflexo desta realidade ao delimitar um “comportamento normal”, sendo que, para além ou aquém dele, adentramos no campo do patológico que deve ser curado e extirpado! Não há mais espaço para ouvir o sintoma, este é indesejado. A única doença possível é certa ‘normose’; onde o sujeito normal é alto, magro, alegre, sociável, bem-sucedido, dono de telas de última geração e faz uso de um psicotrópico qualquer, porque ninguém é de ferro, não é mesmo?

Psicanálise na contramão da lógica capitalista

Ao pensarmos na realidade descrita anteriormente, a Psicanálise deve (para existir) persistir em sua contramão e este também seria um posto do psicanalista; garantir que a Psicanálise permaneça falhando em atender a esta demanda moderna de “cura” como extirpação ou tamponamento, pois o sintoma é uma solução e não um problema. Analisemos adiante para justificar essa lógica, dois pontos: a função do sintoma e a cura para a Psicanálise.

Inicialmente, todo caso tem algo de singular, mas para que isso apareça, é preciso que todo o sentido do ‘diagnóstico tatuado na pele’ caia para que se possa inventar algo novo. Não se investiga a partir de um caso modelo ou um protocolo, pois, ante ao paciente o psicanalista nada sabe, é o paciente quem detém o saber sobre si. Isso é uma inversão essencial de Lacan, que retoma o que foi fundamental em Freud, e que possibilitou alcançar as pacientes histéricas, ao não se colocar no lugar de mestre, ou seja, daquele que detém o saber sobre elas, ocupa-se o lugar daquele que tem que escutar. Solicita-se ao ‘paciente’ que seja paciente e aceite sair da lógica capitalista, do aceleramento, do mundo online e fale! Esse é o método psicanalítico: acreditar que essa fala vai permitir algo do sujeito aparecer.

O sintoma em si não é a ‘doença’

Souto (1) define que aquele que procura análise para curar o problema do sintoma nutre a crença de que há um sentido que pode ser decifrado e, logo que se decifre, o sintoma desapareceria – como defendido inicialmente por Freud. Entretanto, algo do sintoma sempre resiste, tem algo que se repete e que demonstra um modo de gozo, ou seja, uma forma de satisfação própria a cada um. O que era um ‘problema’ é, na realidade, uma solução única de cada sujeito para lidar com o real. O sintoma em si não é a ‘doença’, é uma tentativa de solução mal arranjada e incômoda para lidar com o insuportável, com a falta de sentido. E, justamente por ser a solução para lidar com o real, tem algo de incurável, pois dele não podemos prescindir.

O sintoma é a particularidade de cada sujeito que a modernidade tenta eliminar. Como define Sauvagnat, o sintoma é a “escrita secreta da pessoa”2 que, pode mudar dentro de um processo analítico – e este seria o sentido da cura na Psicanálise – contudo, muda preservando algo do criativo daquela pessoa.

O caminho difícil é o paciente enxergar o seu próprio gozo, e o psicanalista para tal acontecer, se propõe a incomodar. A posição do analista incomoda as defesas, não está ai para ajudar o paciente a eliminar o sintoma, mas para incomodá-lo ao ponto de fazê-lo mudar. Seja com as intervenções, seja com seu silêncio, seja com o pagamento. Por isso não funcionamos na lógica da empatia, “eu te entendo, vai ficar tudo bem”, mas funciona da lógica contrária, “Eu não te entendo, fale-me mais”.

“Em quê eu tenho a ver com meu sofrimento?”

A partir dai o paciente consegue elaborar uma nova questão, que passa de “Porque comigo?” para “Em quê eu tenho a ver com meu sofrimento?”. Muda seu posicionamento sobre o sintoma e ele pode aparecer como sujeito. Existe uma responsabilidade em ser sujeito. Um sujeito tem o seu gozo, ou seja, obtém sua satisfação disso que ele se queixa. Quando o paciente sai do discurso de “O mundo me odeia”, é ai que a análise começa a caminhar no sentido da cura psicanalítica.

O sentido da cura para a Psicanálise não é, portanto, lobotomizar o paciente, não há nada a se extirpar do psíquico. Também não se busca ‘apertar parafusos’ e fazer funcionar numa lógica utilitarista, mas sim “escutar a novidade do sintoma, a solução que o sintoma traz e qual pode ser a sua invenção”1 para assim, inventar um jeito melhor de não funcionar ou suportar o que não funciona, para tentar fracassar de um jeito melhor.

Referência Bibliográfica:
1. SOUTO, S.O., “Como a psicanálise cura”.
2. SAUVAGNAT, F., Conferência “A prática clínica na atualidade”.

A imagem da capa é uma obra de CHAD KNIGHT. Veja mais em: @chadknight

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