Cultura e sociedade 01/10/2020

A violência em nós, uma reflexão a partir do filme“Funny games”

 Tempo de leitura ~5 min~

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“Acredito na inteligência do espectador e tento dar a ele liberdade de compreensão. Nenhuma interpretação é ruim. Há tantos filmes quantos espectadores houver. Espero desencadear um processo de reflexão. Um filme só se conclui de fato na cabeça deles”. Haneke2

Analiso o filme “Funny Games1 (1997), em português traduzido para “Violência gratuita”, um suspense dirigido e roteirizado por Michael Haneke. Escolhi este longa, primeiramente, por ser um dos meus filmes preferidos, pois trabalha de maneira inteligente a quebra da ‘quarta parede’ – como é nomeada no teatro a barreira imaginária que separa as personagens do público – mas, também, por trazer luz à violência e ao prazer voyeurístico de consumir violência como um ‘estranho familiar’, como discorrerei mais adiante. Imagino que, por ser um filme tão estimado, será uma análise muito pessoal, partindo, principalmente, das minhas percepções e reflexões ao assisti-lo. Sigo tranquila uma vez que autorizada pelo próprio Haneke2 a construir minhas interpretações. Selecionei duas cenas do filme para ilustrar as minhas análises, a cena de abertura e a cena do controle remoto, então, vai conter spoiler, cabe avisar. 

Os jogos ‘engraçadinhos’

Do início ao fim, começando pela primeira cena, o filme provoca um estranhamento. Começa com uma família burguesa – o pai Georg, a mãe Anna e o filho Georgie – indo para sua casa à beira de um lago passar férias. Neste primeiro momento, a família está no carro fazendo um jogo que parece ser algo comum a eles, tentar adivinhar o nome da música e de seu compositor, para isso colocam uma sequência de músicas clássicas. A cena é muito intimista, eles seguem por uma bela estrada, tranquila e bucólica, repleta de verde e calmaria, onde esse jogo segue divertindo a família e introduzindo a ideia de uma viagem prazerosa para relaxar. Num segundo momento, a música “Bonehead” (tradução, “cabeça oca” ou “idiota”), da banda Naked city, irrompe violentamente marcando a cena e contrapondo a música melódica, os risos e o pacato jogo, com sons de gritos e do heavy metal. Essa contraposição é o primeiro momento de estranhamento, um prelúdio do que está por vir, colorindo a ingenuidade de quem será a vítima do desejo por violência do outro.

A cena de abertura marca claramente o lugar das ‘inocentes vítimas’ que seguem se divertindo no carro e, também, do primeiro agressor, que somos nós, espectadores, voyeuristas e consumidores ávidos por violência. A música que rasga a cena antecipa uma expectativa de violência no público e denuncia uma emoção que nasce a partir da ideia do que está por vir, seja de ansiedade ou até mesmo de prazer. Este é o primeiro convite ao espectador para participar do filme quebrando a quarta barreira. Essa cena é espetacular, pois resume exatamente a ideia da ambiguidade e da estranheza que marca todo o filme. A fissura promovida pela música revela algo em nós mesmos que, ao mesmo tempo em que é muito íntimo, secreto, e em alguma medida desconhecido, é também inegável. A emoção que a música causa acusa certa atração pela violência e uma expectativa para que ela comece, denunciando o espectador em sua própria selvageria e seu voyeurismo. Voltemos nisso mais adiante.

A família segue pela estrada e, antes de chegarem à casa, passam pela casa dos vizinhos para confirmar o jogo de golfe combinado para o final de semana e perceberam a presença de dois jovens desconhecidos, Peter e Paul. O vizinho os apresenta como filhos de um amigo e pouco depois, os jovens, sempre educados, chegam a casa solicitando ovos emprestados a pedido dessa vizinha. Peter, que parece ser um jovem desastrado, quebra os ovos repetidas vezes e faz cair o único celular da família na pia. Essa sequência de acidentes inocentes provoca a irritação da mãe, que pede ao marido que expulse os jovens. Este se mostra confuso com a fereza do pedido da esposa e ainda tenta negociar, deixando-a ainda mais furiosa. A cena se desenrola até que a irritação do casal é colocada como justificativa por Paul para agredir George, denunciando suas reais intenções.

A partir desse momento acontece uma série de jogos sádicos que a dupla engaja para causar sofrimento à família, fazendo jus ao nome do filme “Funny Games” ou em português, jogos divertidos ou “engraçadinhos”, atribuindo um tom mais debochado característico do filme. A violência dos jovens tem uma nuança inesperada e debochada, constantemente zombando da situação e das expectativas sociais do que seria destinado a uma “pessoa violenta”, ao apresentá-los em situações rotineiras da ‘boa vizinhança’, passando inclusive pelos seus nomes bastante comuns, Peter e Paul (Pedro e Paulo), denunciando que a violência está bem perto de nós. Ambos são retratados como belos, louros, educados, se vestem de roupas brancas e representativas de um esporte caro (golfe). Ao serem questionados sobre o porquê daquela violência, respondem com um aflitivo “por que não?”.

O filme trata da violência e dos jogos perversos, causando um desconforto constante não só pelo tema em si, mas especialmente pelos jogos cinematográficos do próprio diretor (os ‘funny games do diretor) para denunciar nossa conivência e até nosso desejo por violência. Não sem propósito, a maior parte dos atos violentos cometidos durante o filme não aparece para o espectador e há apenas uma sugestão da violência pela narrativa, pelos sons e silêncios, mas não se assiste ao “espetáculo” da violência. O filme traz desconforto porque nos obriga a pensar sobre esses pontos e a reconhecer a violência em nós, mas não a explora. Retomemos então a questão do espectador. O significado de espectador é “aquele que presencia um fato, que testemunha, que está presente”, mas também, “é aquele que assiste a um espetáculo”, que o financia, anseia e vibra com ele. Se na primeira cena do filme Haneke denuncia nossa expectativa pela violência, ao longo do filme frustra esse desejo não a mostrando. Ela está lá, presente, mas não alimenta o olhar voyeurístico do público e, em seu lugar, aparece uma denúncia desse espectador como conivente e de consumidor da violência como entretenimento. O diretor usa da  quebra da quarta parede neste momento nos puxando para dentro do filme. Em vários momentos Paul se dirige a câmera e conversa com o espectador, criando uma relação direta. Isto é feito de maneira tão sutil e brilhante que, por vezes, é percebido apenas através de uma piscadela para a câmera, envolvimento que vai se tornando extremamente perturbador. Ao se dirigir ao público e falar como se nós estivéssemos presente na cena, como se fossemos o terceiro sádico cruel ou um voyeur que tem prazer na sua cumplicidade, gera estranhamento, angústia e culpa. Os sentimentos de cumplicidade e impunidade vão crescendo exponencialmente na medida em que as tentativas de fugas e negociações vão sendo frustradas, e todos esses sentimentos desembocam na maravilhosa cena do controle remoto.

Anna já está totalmente entregue aos jogos dos dois (ou três) sádicos, não coloca mais nenhuma resistência. Assim como o espectador já está totalmente tomado pelas emoções geradas nessa posição de cúmplice. Eis que, por um descuido de Paul, Anna consegue tomar a escopeta e assassina Peter. Essa cena é, talvez, a única cena de violência propriamente dita mostrada no filme e, possivelmente, a mais desejada pelo espectador. É completamente inesperada e aparece como um conforto para o espectador culpado, que vibra aliviado com esse giro na narrativa e pelo aparecimento do “herói”, que usa a violência para o “bem”. Nesse momento, Paul toma a escopeta, dá uma coronhada em Anna e começa a procurar desesperadamente pelo controle remoto. Ao o encontrar, rebobina a cena para começar novamente, impedindo a tomada da arma por Anna e apontando a impossibilidade de qualquer fim hollywoodiano. Com essa cena, Haneke sustenta sua crítica sobre a nossa estranha relação (extremamente íntima) com a violência, convidando ao confronto com nossos desejos mais violentos, inclusive a um desejo de justiça “custe o que custar”, que também é, em si, violento. A cena do controle remoto também é seguida pelo diálogo despretensioso entre Paul e Peter, marcando novamente como a violência dos filmes está a serviço do nosso prazer e entretenimento, mas não deixa de ser violência. Ou seja, apontando para a realidade do nosso desejo por violência, de dirigir o olhar para ela, mesmo que virtual.

- Mas a ficção não é real?
- Por quê?
- No filme vê-se, não vê?
- Claro que sim.
- Então, é tão real como a realidade, porque também se vê, certo?

Das Unheimliche, o infamiliar

“(...), pois esse estranho não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido, e que somente se alienou desta vez do processo de recalque” Freud3

Freud no texto “Das Unheimlich3 examina a palavra heimlich (doméstico, familiar, íntimo) e tenta encontrar seu conceito e suas oposições, unheimlich (selvagem, infamiliar, estranho). Percebe que sempre localiza um termo que se aproxima do seu oposto, de tal maneira que não compõe uma oposição simples e se confundem. Isso o leva a desenvolver uma proximidade desses conceitos, caracteriza o estranho como algo do íntimo que deveria ter permanecido oculto, em segredo, mas veio à tona causando um estranhamento e essa sensação estaria ligada a fantasias referentes ao retorno do recalcado.

A comunicação visual, no caso o cinema, utiliza e explora do prazer de olhar, quer seja de forma criativa, seja potencializando aspectos perversos. É isso que Haneke denuncia em seu filme com seus jogos divertidos de mostrar e esconder a violência e, assim, desvelando nossos desejos e culpa, como analisado nas cenas acima. Os olhos, as “janelas da alma” podem ser vias de um “olhar de compaixão” ou “olhar de ingenuidade”, mas também podem falar dos desejos ocultos que não podem ser falados. O olhar do voyeur pode conter um desejo sádico de destruir o objeto e, ao mesmo tempo, a negação desse desejo, ou seja, “só olhei, não toquei e não destruí”, “só assisti a um filme de extrema violência e crueldade e senti prazer nisso, mas não tenho essa violência em mim”. Haneke, assim como Freud em “Das Unheimlich”, escancara essas ambiguidades.

"Funny Games era um tapa na cara de cineastas que nos forçam a consumir violência, sem se preocupar com isso. Mas eu queria sacudir os espectadores. O espectador é falsamente ingênuo. Aceita ser "violentado" por filmes que acha inofensivos, mas que acabam por fazê-lo esquecer o que é a verdadeira violência”. Haneke2

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Referências

1 – “Funny Games”, disponível neste link
2 – Haneke, M. (2010). Entrevista para a Folha de São Paulo.
3 – Freud, S. “Das Unheimlich

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Imagem da capa: Emilio Villalba
disponível em @emilio_villalba

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