Psicanálise 31/08/2020

Amor nos tempos do Cólera, digo, da Covid

 Tempo de leitura ~4 min~

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“Felipe” nunca se esqueceu de “Fernanda”, seu primeiro amor. Ele esperou quase a vida toda por ela, que havia se casado com outro homem. Agora, muitos anos depois, ele finalmente tem uma chance de reconquistá-la. – Este poderia facilmente ser o enredo de uma novela ou a história de muitas pessoas na vida real. Na verdade, estamos falando de Florentino e Fermina, personagens do livro “O Amor nos Tempos do Cólera” de Gabriel García Marquéz.

Quando pensamos nessa história, estamos falando sobre relações humanas, sobre o amor e suas impossibilidades, encontros e desencontros e, especialmente, sobre o tempo e os ciclos na vida.

Tomo emprestado o título e a história dessa lindíssima obra para introduzir um comparativo com o que vivenciamos hoje, as impossibilidades do amor e especialmente, o amor em tempos de Covid.

Então, vamos falar de amor.

Nunca dizemos tudo sobre o amor. E, se tentarmos, ainda assim teremos que nos defrontar com a ampliação cada vez maior do tema, em vez de um fechamento. Tentemos responder o que é o amor. E não teremos resposta. Ou melhor, teremos várias respostas, cada vez mais complexas e paradoxais. Como salienta Lacan, o “amor é uma metáfora” que estamos a todo o momento tentando desdobrar.” Luísa Puricelli Pires

O que é o amor?

Antes de tudo, é o amor que nos constitui como sujeitos, é pelo amor da mãe (ou qualquer um que faça a função materna) que adentramos no mundo. Pelo embalo carinhoso que cura qualquer dor e pelo ouvido atento que traduz os primeiros balbucios e choros em demandas. Também, é por amor que renunciamos ou adiamos os prazeres individuais para entrarmos na cultura, nos submetendo às suas regras.

Não é possível prescindir do outro, não é possível falar de amor sozinho, precisamos uns dos outros, seja para existir, seja para amar. Como bem disse Lacan, amar é confessar a sua falta. Confessar que algo lhe falta e que aquele outro possui algo precioso dentro de si que poderia ser aquilo que me interessa ou me falta. Pensar no amor como a confissão de que algo me falta chega a ser contraditório quando pensamos no amor como uma ideia de completude ou felicidade plena, como se fosse possível, pelo amor, não mais faltar-nos nada. Essa ilusão de completude que sustenta muitas relações amorosas, acreditando que se um amor fosse verdadeiro e bom transformaria os sujeitos em seres plenamente felizes.

Nos dias atuais, a felicidade está muito ligada à ideia de consumo, ao ter e, se eu “tenho”, nada me falta. Quando colocamos o amor nessa lógica, “ter” alguém para amar traria a recompensa da felicidade. É um grande engodo. Esta é uma cena pronta para a frustração, primeiro porque amor não nos completa, somos seres faltantes e continuaremos sendo, mesmo amando continuaremos buscando ‘aquilo que não sei bem o que é, mas me falta’.

Além do que, ninguém é nossa propriedade exclusiva, podemos estar em uma relação, mas certamente não nos tonamos mestres do outro, ele ainda fará suas escolhas diferentes das minhas, terá desejos diferentes dos meus, etc.. Ou seja, nessa lógica, o amor passa a ser um objeto para meu consumo, que está na gigantesca fila da promessa de felicidade plena, bem ao lado do celular novo ou do procedimento estético da moda.

O amor é um impossível, aquilo que não pode ser, é um desencontro e também, o amor não é domável. Isso me lembra a música “Habanera”, da Ópera Carmen: “O amor é um pássaro rebelde que ninguém consegue domar, e é inútil chamá-lo. (…) O pássaro que você pensou surpreender, bateu as asas e voou. O amor está longe, quando você o espera, e quando menos espera, ele está lá“. (Link para ouvir a música)

Segundo, porque a felicidade não é a recompensa do amor, em uma relação há inúmeros encontros e desencontros, seja pelas contingências da vida ou pelos rumos e escolhas que fazemos, como retrata muito bem Gabriel García Marquéz em seu livro (que fica aqui como sugestão de leitura!). Acima de tudo, há inúmeros momentos de “infelicidade”, pois a vida está ai com suas incertezas, provando que é preciso fazer uma aposta no que se constrói com o outro, pois ama-se ‘apesar de’.

Em outras palavras, é o próprio amor que nos compromete com a felicidade e não o contrário, nos compromete com uma aposta na felicidade. E é preciso apostar de fato, pois o real está aí provando que não se controla (nem o outro e nem a vida). E é sobre isso que vamos dialogar, como fica o amor nos tempos de Covid? Esse real tão cru que se colocou para todos nós.

Como a pandemia afeta o amor?

Não pretendo esgotar o tema, pois podemos pensá-lo sobre muitos ângulos diferentes. Mas, vamos tentar levantar algumas formas de como a pandemia afetou o amor.

Sobre o amor e suas impossibilidades, dentre elas, a nossa finitude. A pandemia nos escancara a percepção do quão frágil é a vida e como é difícil amar algo que também é frágil e pode morrer a qualquer momento. O desamparo que aparece da possibilidade da nossa morte e a do outro e, também, o desespero de que uma parte de mim pode ir embora ao perde-lo, toca um ponto do nosso desamparo essencial. Para quem pode trabalhar de casa, isso já gera um impacto, mas e para aqueles que precisam sair para trabalhar? Se, ao se exporem, talvez exponham os outros da casa. Com o isolamento e o novo contexto social e econômico, as fissuras ficaram mais evidentes.

Um segundo ponto, o confinamento modificou as relações entre as pessoas, seja pelo excesso de convivência dentro de casa, seja pelo isolamento social. Se antes, ao viver com uma pessoa, apenas conviveriam algumas horas no dia, agora, no isolamento, tem-se que conviver o tempo todo. Isso leva as pessoas a terem que apostar novamente no amor, apostar que é possível dialogar, negociar os conflitos e encontrar saídas.

Por outro lado, o isolamento físico também se apresenta como dificultador ao amor enquanto toque, abraço e carinho, pois a regra colocada foi clara: “mantenham distância física!”. No entanto, a própria regra também apresentou uma solução, “mantenham distância física!”. O amor ultrapassa os limites do corpo, amor também é palavra. E assim muitos reinventaram o amor e apostaram, se apropriando das alternativas virtuais como solução. Uma maneira que colocamos para continuar nos relacionando, seja com amigos, familiares ou para encontrar um novo relacionamento. Esse pássaro rebelde que é o amor, encontra suas formas de aparecer quando menos se espera. O Amor supera a pandemia e, talvez, seja o amor que nos salve dela.

Como o Amor afeta a Pandemia?

A pandemia afeta o amor e as relações, mas ele sobrevive, escapa como água pelos dedos que o aprisiona e se coloca novamente em movimento.

García Marquéz escreve exatamente sobre o que compõe a vida, que nem sempre é justa aos nossos olhos, nem sempre romântica, nem sempre “feliz para sempre”, mas imprevisível, contingente, autêntica, ou seja, a vida real. Enquanto alguns podem ver uma história trágica, também é possível ver uma aposta.

O Covid-19 colocou a distância física do outro, a possibilidade do outro desaparecer ou a gente desaparecer e, também, escancarou as relações como são, apostas. Escancarou também como nós dependemos uns dos outros e não temos como prescindir da presença do outro na nossa vida. E é essa necessidade do encontro que nos levou a reinventar possibilidades, a se posicionar mais uma vez ‘apesar de’ os desencontros e apostar. E pode nos levar, também, a questionar o que antes havia enfraquecido o amor, a ideia liberal do consumo desenfreado, da satisfação e da felicidade plena. Talvez, seja o momento de retornar a outra posição, de buscar o outro, que pode ser mais do que uma procura sensual, mas um retorno a um ponto do amor, de fazer laços.

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Imagem da capa: obra de
Sara Shakeel.
Veja mais em: @sarashakeel

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2 Comentários

  • Responder Paulo A. 14/09/2020 às 13:03

    Interessante pensamento, concordo que o amor que vai nos salvar dessa pandemia.

  • Responder Adrielle Bastos 13/09/2020 às 13:34

    Ah meu deus, pura verdade, oxa!

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    Julia Maria AlvesWhatsApp
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