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Quando o amor nos adoece…

amor que adoece

amor adoece    Tempo de leitura ~2 min~

As relações amorosas são quase sempre temas centrais de intermináveis discussões; livros, filmes, novelas, etc.. E, por conta disso, é propício colocarmos o assunto em discussão e passear pelo imaginário das pessoas. É interessante suscitar questões sobre a possibilidade de descobrir se existe mesmo o amor ideal, a alma gêmea, a “cara metade”, o final feliz… Porém, muito pouco ou quase nada falamos do amor que adoece, ou seja, o amor que nos faz adoecer ou adoecer ao outro, ou ainda, o amor que parece estar doente, caminhando para a finitude. Penso que seja impossível chegar a um consenso e resposta definitiva para tantos questionamentos e anseios particulares.

Existe amor perfeito?

Façamos uma reflexão sobre o que nos move nessa procura de amor perfeito, nessa busca incansável de um amor que perdure para sempre. Que dá a sensação de que somos eternos tanto quanto o amor e por isso precisamos nos certificar de que ele nunca irá se acabar! Parece que por receio de nos depararmos com nossa própria fragilidade, projetamos no amor algo que possa ilusoriamente nos dar a felicidade que almejamos, a segurança que constantemente buscamos, desde a primeira infância.

Assim, com esse olhar dependente, desenvolvemos o amor que é capaz de nos adoecer. Pois ele parece ter a força do oxigênio que necessitamos para viver,. sendo alvo de intenso sofrimento e dor se o que buscamos não é correspondido.

Carl R. Rogers, em “Um Jeito de Ser” (1983, pag. 27), brilhantemente nos presenteia com um pouco de sua intimidade. Fala que aprendeu que, num relacionamento, as expectativas podem facilmente se transformar em exigências. É bem mais fácil gostar de uma pessoa pelo que se pensa que ela é,. ou se desejaria que fosse, ou se acha que deveria ser! Ainda, segundo ele, gostar da pessoa pelo jeito que ela é, sem a contínua necessidade de adaptá-la às nossas exigências. é uma maneira mais difícil, porém mais enriquecedora de vivenciar uma relação amorosa satisfatória.

O amor adoece e também aprisiona

amor que adoeceO amor que adoece também aprisiona, tanto quem ama, quanto quem é amado assim, adoece e faz adoecer. O ser-no-mundo torna-se amargurado, em constante medo de ser abandonado e jogado à própria sorte, se sentindo incapaz de dar conta de uma possível dor provocada pela separação que, se vier a acontecer, pode ser plenamente suportável se houver um luto bem elaborado.

O terror do abandono pelo ser amado parece ser foco principal das intermináveis discussões sobre o que se esperava da outra pessoa quando se uniu a ela. Por outro lado, há a outra pessoa que, por algum motivo, “procurou” a união com alguém que a idealize tanto, que a queira tão intensamente a ponto de sentir-se incompleta por estar longe… Assim, construímos relações longe de se alcançar a complementaridade, a cumplicidade e a união permeada de alegrias e satisfações que um relacionamento pode propiciar, trazendo a força propulsora capaz de nos ajudar a sair dos momentos de crise tão comuns que acometem qualquer relação. amor adoece

O caminho para uma relação mais saudável

Creio não ser possível encontrar alguém que esteja no mundo apenas esperando para atender nossas expectativas! Viveremos melhores se dermos conta de que as pessoas não irão satisfazer nossas vontades plenamente, cada um dá o que tem.

Compartilhar bons momentos e procurar encontrar o que seja capaz de criar bem estar mútuo, esse seria um bom objetivo no caminho de uma relação saudável.

Para elaborar um mundo comum, um casal precisará fazer contínuas negociações, levando em conta os interesses comuns acima dos individuais. Para isso os parceiros precisarão se modificar e reorganizar internamente, criando uma identidade de casal, onde possam se estabilizar emocionalmente e readaptar as regras anteriormente estabelecidas sobre sexo, dinheiro, segredos, etc.

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Responsabilizar o outro pela sua felicidade

A integração dos sistemas afetivos como apego, cuidado, romantismo, sexualidade e amizade podem favorecer ao relacionamento amoroso a complementaridade para a criação de um vínculo mais duradouro, onde haja a manutenção do interesse renovado e a cumplicidade que uma relação saudável pode trazer.

Assim, o amor que adoece parece trazer junto consigo a prática de responsabilizar o outro pela sua felicidade, por suas escolhas e também por suas derrotas, o que favorece a dinâmica de que não nos compete escrever nossa própria história, pois o outro se encarregará disso, como num movimento de “deixa a vida nos levar”…

Quando partimos do ponto de que somos responsáveis por nós mesmos, de que o outro faz somente o que deixamos que ele faça, saímos da posição de vítimas do destino.

amor que adoeceParece um bom caminho poder amadurecer a ideia de que é mais fácil o convívio entre duas unidades do que duas metades, pois quando procuramos e pensamos numa “cara metade”, logo imaginamos que encontraremos no outro o que nos falta, o que não dispomos. Já se pensarmos em alguém como sendo um indivíduo inteiro, uma unidade, respeitando sua individualidade, deixaremos de procurar alguém tão idealizado e sim, mais humanizado. Sintetizando, dois parceiros jamais corresponderão ou irão satisfazer inteiramente um ao outro, é desafio permanente dos parceiros a construção de uma harmonia suficiente para a sobrevivência, mesmo que de forma diferente, mas que seja compatível. Diferente deste olhar estará o amor patológico, o que faz sofrer, o amor que é condicional.

O amor que adoece parece ser permeado de cobranças, de juras infundadas, de promessas que jamais poderão ser cumpridas, de uma necessidade severa e até perversa de manter o outro como um ser aprisionado pela sua dependência e vontade. O outro, que se deixa adoecer, fica limitado aos caprichos e devaneios de um amor que seja eterno enquanto estejamos vivos!

Seria então, o desamor a razão do adoecimento?

Crescemos ouvindo que se torna necessário amar para ser amado. Então é a premissa para alcançarmos o amor saudável? Como seria o amor saudável, somos capazes de senti-lo? Só o amor traz a almejada felicidade? Quantas questões trazemos em nosso íntimo com relação ao sentimento que nos move na busca do sonhado amor perfeito, amor ideal… Mas será que ele existe, além dos finais felizes nos contos infantis? Acredito que cabe a cada um de nós a busca pelas respostas, respeitando nossas limitações e nossos anseios.

Penso que o desamor a si mesmo, a ditadura do ser-perfeito, física e psicologicamente, podem acometer ao indivíduo um sentimento de pouca valia, de necessitar do outro para ser alguém de fato.

 

Dr. Marco A. Dias da Silva, em “Quem ama não adoece”, (2006, pag. 411), traz a seguinte elucidação:

“A capacidade de sonhar, enfim, parece também essencial para a saúde. Quem consegue verdadeiramente sonhar, abstrair-se do puramente objetivo, tende a crer naquilo que não existe como algo palpável. Mas, que está apenas no imaginário humano: o amor, a justiça, a generosidade, a honestidade, a dignidade.”

Então, ouso dizer que para alcançarmos a forma saudável de relacionar-se,. necessitamos do amor próprio tanto quanto do amor ao outro. Havendo com isso um equilíbrio interior na forma de amar e demonstrar o afeto. Pois, só assim poderemos vivenciar com plenitude o sentimento nobre do amor,. vindo como conseqüência a boa manutenção da nossa estrutura psíquica, com respeito também ao bem estar do outro.

Penso que o desamor à nossa figura, ao nosso modo de ser e agir no mundo,. nos traz a sensação de necessitar do outro para nossa própria afirmação,. numa tentativa gritante e talvez inútil de acabar com a busca pela felicidade,. que acredito ser a razão maior de nossa existência. Mas, que é também precursora da contradição do medo de alcançá-la,. pois tememos ter e depois perder, sem saber como lidar com essa perda. Muitas vezes não nos julgamos merecedores de tal felicidade. Então não conseguimos vivenciá-la sem o sentimento de culpa, o que impossibilita a vivência plena do momento feliz. amor adoece

Sobre o autor:


Andreia Rodrigues | Psicóloga | CRP 06-85.683 |  

Psicóloga Clínica – Psicoterapia individual adolescente e adulto  ou casal. Terapia do Luto. Pesquisadora USP, formada em Tanatologia (lutos e perdas). Curso de Extensão na PUC -SP em Psicologia e Informática, abordando diversos temas como Relacionamentos Virtuais, Games, entre outros. Capacitada em Neurobiologia da Ansiedade, Terapia de Casais, Sexualidade Normal e Patológica, Transtornos de Personalidade, Grafologia, Saúde Mental da Mulher, entre outros. Coautora do livro “Tanatologia – Temas Impertinentes”, Org. Aroldo Escudeiro, LG Edit. e Gráfica – 2011 “, com o tema “Quando o amor adoece“. Acompanhamento terapêutico individual ou em grupo para pessoas com Medo de Dirigir, com Instrutor Credenciado para Aulas Práticas em veículo adaptado, somente para Habilitados.

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