Neuropsicologia 10/04/2019

Aprender… tarefa para o cérebro: Parte II

No último texto dessa coluna começamos a tratar de algumas questões que a neurociência, com o seu conhecimento do Sistema Nervoso, pode esclarecer a respeito de como aprender melhor. Inicialmente tratamos das questões basais que, justamente por serem básicas e essenciais, interferem no nível do funcionamento do sistema nervoso, podendo interferir no desempenho do estudo. Agora vamos adentrar um pouco mais na dinâmica da aprendizagem.

Dinâmica da aprendizagem: Sobre a Atenção

Se eu preciso aprender algo e estou com minhas necessidades básicas supridas e em homeostase, o ponto inicial para o êxito é a atenção. É através dessa função que a informação do meio vai começar a ser assimilada. A atenção seleciona informações importantes para o indivíduo. Parece encaixar bem na proposta de estudar, mas não é bem assim. Além dessa atenção que chamamos de Atenção Seletiva, existem outras.

A atenção seletiva é a que mais requisitamos para estudar, pois além de focar um tipo de informação, ela também inibe o acesso de outros estímulos. Porém, para nossa sobrevivência, temos a Atenção Reflexa que direciona atenção para estímulos inesperados ou de muita importância e também a Atenção Flutuante, que é aquela que colhe uma série de informações ao mesmo tempo, muito conhecida como aspecto essencial para ser um bom motorista, principalmente nas cidades grandes.

Então o que pode acontecer é que se o cérebro não reconhece o conteúdo do seu estudo muito importante, você pode ter a sua atenção colocada em modo flutuante: que faz você pensar até na conversa de fora da sala (essa é a razão para se diminuir os estímulos no ambiente de estudo). Essa “distração” é comum nas crianças que ainda não tem seu sistema nervoso todo desenvolvido, porém, no caso dos adultos um primeiro aspecto é que para sustentar a atenção o cérebro precisa reconhecer a importância (motivação) para aquele conhecimento.

Outra questão é que a área frontal do cérebro que é responsável pelo controle executivo da atenção tem um limite, embora existam as diferenças individuais, algumas pesquisas sugerem que o período de concentração dure entre 30 a 40 minutos. Baseado nesse limite é que existem muitas recomendações para que o estudante faça pequenas pausas ao longo do estudo. O importante é dar um descanso! E ele tende a ser mais eficiente se você aproveitar o tempo com atividades bem diferentes da que estava fazendo: mexer o corpo, fazer alongamento, escutar uma música. Não é muito indicado o uso do computador ou da TV.

Uma dica para estudar melhor!

A atenção reflexa ou difusa tende a ser atraída pelo que é novo, pouco usual ou intenso e isso pode ser estratégias para trazer a atenção do estudante de volta. Por exemplo: se você está estudando para vestibular pode ser interessante fazer pequenos turnos de estudo de matérias bem diferentes como trocar de história para matemática, ou se você estiver muito difuso estudar aquela matéria que você gosta mais. Agora se não tiver como trocar o assunto você ainda pode intercalar: 30 minutos de leitura grifando as informações importantes, 10 minutos de pausa, elaborar um esquema ou resumo sobre o tema e depois do segundo intervalo fazer exercícios para testar o conhecimento. Essa última dica é muito válida porque, além de facilitar a atenção, ela já está estimulando a memória que é o segundo aspecto de suma importância nos estudos. É comum que se tenha tido atenção a uma informação, mas que mesmo assim, essa informação não fique registrada para resgate posterior. Isso acontece porque temos alguns sistemas de memória: uma memória operacional ou de trabalho, uma de longa duração e uma de procedimento.

Sobre a Memória

Existe no sistema nervoso uma área central que é chamada hipocampo que é onde são trabalhadas aquelas informações que estão sendo úteis para algo (como por exemplo, quando você está seguindo uma receita no preparo de um prato). Se a informação cumpriu sua função, mas não é mais requisitada ela é descartada, pois o hipocampo também não tem capacidade de manter muitas informações. Mas se a informação é repetida, é muito utilizada ou se associa a algo que é muito importante para o indivíduo, ela é registrada em alguma área cortical que depende do tipo de informação e poderá ser acessada posteriormente. Então muitos esperam que pelo fato de ter assimilado um conhecimento ele necessariamente vai ser registrado, porém é necessária a prática até se conseguir fazer uma receita de memória. A memória tende a ser mais forte quanto mais frequente o conteúdo é utilizado (como alguém que está fazendo a mesma receita há anos); quando foi acessado por vias sensoriais diferentes, por exemplo: a pessoa escuta alguém ensinando a receita, depois vê no YouTube e depois ela mesma faz, colocando aquele conhecimento em prática e quando tem uma valor emocional para a pessoa, por exemplo, quando o prato é receita da avó e remete aquela lembrança da infância.

Então se o que você precisa aprender não é necessariamente uma paixão para você, não vai ser com um estudo na véspera da prova (que você até se saiu bem) que vai garantir o uso posterior da informação. É sempre necessário revisitar esse conhecimento, colocar em prática, exercitar, fazer sínteses e resumos para recorrer posteriormente, associá-lo a outros conhecimentos que você já tenha. Por isso o estudar tem que ser uma prática constante, não necessariamente excessiva, mas bem planejada.

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Imagem da capa: Artista Marcos Guinoza disponível em @marcosguinoza

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