Psicologia Infantil

Armas de brinquedo: O que representam as brincadeiras violentas?

Em anúncios luminosos,  lâminas de barbear. Armas de brinquedo, medo de brincar. A violência travestida faz seu trottoirEngenheiros do Hawai

 

15 de abril é o dia do desarmamento infantil. Aproveito a ocasião para lhe questionar: quais perguntas passam por sua cabeça quando descobre que foi criado um dia para promover o desarmamento infantil?

Que tal se perguntar mais?

Um dos mais importantes processos para a criação de um filho é a substituição dos “juízos de valor” pelo “senso crítico”. Então, por gentileza, se questione! A minha intenção é que você exercite suas dúvidas. Pergunte-se mais a respeito – “quais são as questões essenciais sobre esse assunto?”, “o que me levou a formular minha opinião?”.

A propósito, existem alguns hábitos da infância que jamais deveríamos abandonar. Um deles, talvez o mais importante, é a velha mania de procurar entender melhor as coisas, especialmente via formulação de perguntas. “Por que tal pessoa não apresentou os sintomas daquela doença?”, “por que a maçã cai para baixo?”, “Por que determinadas pessoas agem dessa maneira?” – foi a partir de perguntas, como essas, que a humanidade fez os seus mais importantes progressos.

Proponho que faça perguntas a si mesmo,sem economizar:

  • As armas de brinquedo podem seduzir as crianças para o mundo da violência?
  • As armas de brinquedo podem causar algum tipo mal?
  • O que é violência?
  • Por qual razão é necessário destinar um dia para o desarmamento infantil?”
  • Que tipos de armas as crianças utilizam?
  • Como a violência se faz presente na minha família?
  • Quando eu reproduzo a violência?

E, às respostas que conseguir elaborar, não se poupe do bom e velho “por quê?”.

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Menor-Infrator1-300x198Como lidar com as armas de brinquedo e as brincadeiras violentas?

Lembro-me de um pai, que certa vez, ao ser abordado por seu filho de 3 anos segurando uma espada de brinquedo e lhe dizendo “papai, me dá um real? Eu tô brincando de assalto…”. Pensou rápido o suficiente para “resistir ao assalto” e refutar, sem alarde, a brincadeira.

Em casos semelhantes, é importante que se compreenda o sentido de algumas brincadeiras. Levando-se em conta o seu contexto simbólico.

O Pai Criativo atentou-se para dois fatores muito importantes. O primeiro foi não ignorar a representação daquela brincadeira para seu filho. Procurando compreender o que a criança estava manifestando naquele gesto.

O segundo foi investigar a origem da brincadeira, vindo a descobrir que não partiu de seu filho. O que, além de trazer alívio, lhe permitiu tomar ciência de que não passava da inocente tentativa de estabelecer vínculo com um novo amigo.

Retomando a importância de perguntar-se. Note que o pai se fez ao menos, três questionamentos, sendo eles: “meu filho está me ‘assaltando’, o que faço?”, “o que ele está representando?” e “de onde vem essa brincadeira?”. Nessas circunstâncias as atitudes acabam sendo tomadas impulsivamente e perde-se a oportunidade de ensinar a criança a problematizar suas representações.

É fato que a criança, em brincadeiras semelhantes à relatada, além de expressar sua agressividade, que representa uma identificação com o papel de agente da violência simulada, dá vazão às angústias provocadas por situações em que costuma se sentir impotente.

Há também ocasiões em que essas crianças estão representando, ou reproduzindo, um modelo que exerce alguma influência sobre ela. Tal modelo pode ser o pai, a mãe, algum amigo ou colega, um filme ou desenho que viu, dentre outros elementos que povoam o seu dia a dia. Nesse sentido, é válido lembrar que, conforme explica o professor  da USP, Tizuko Kishimoto, ao brincar a criança ocupa um papel de poder no qual ela pode dominar os vilões ou as situações que lhe provocariam medo ou que a fariam sentir-se vulnerável e insegura.

Alimentando representações sadias

Aquela situação ocupou os pensamentos do Pai por semanas, dando origem a muitas dúvidas e novas perguntas. Ele procurou por respostas em muitos outros lugares, além de sua própria cabeça. Visitou blogs, sites especializados, leu livros e notou quantas possibilidades surgiam diante de si à medida que dava a devida atenção às suas interrogativas. Especialmente àquela que latejava “se por um lado a espada garantiria ao filho um lugar de poder para enfrentar os vilões e situações que lhe faziam sentir-se inseguro, os livros não poderiam fazê-lo ir além?

Na tentativa de compreender o sentido das brincadeiras com armas de brinquedo, o Pai sentiu o peso do desafio de criar alguém no complexo emaranhado da vida. Que, basicamente, se compõe da harmonização entre a individualidade e a civilidade. Ele procurou compreender como se formulam as representações do imaginário infantil e concluiu que lhe parecia mais adequado dar ao filho, ao invés de novas espadas, velhos livros que guardara desde a sua infância e novos também.

Seu objetivo ainda era que o filho pudesse ocupar o papel de enfrentar aquilo que lhe causasse insegurança, mas com mais poderes do que lhe garantiria a sua espada. E assim, a criança conheceria outra infinidade de possibilidades para expressar as suas angústias e se posicionar diante delas. Melhor que isso! A partir do contato com a literatura, ela poderia construir um lugar para si, além de obter grandes contribuições para se questionar qual papel teria na tão antiga brincadeira de ser alguém no mundo.

pais e filhos leituraDia Nacional da Literatura Infantil

  “Se criança governasse o mundo, as guerras, se existissem, não teriam tiros nem bombas.
Terminariam sempre bem, com amigos e inimigos guardados juntos na caixa da paz.”
Marcelo Xavier

 O trecho acima, da obra “Se Criança Governasse o Mundo”, escrita pelo autor e artista plástico Marcelo Xavier, é justamente um convite a mudarmos a perspectiva da nossa visão de mundo, sempre tão definidora, intransigente e, por isso, causadora de conflitos inférteis.

Ele nos revela, com brilhante astúcia e beleza, algo que geralmente nos escapa, a universalização do bem. Todas as situações cotidianas apresentadas em seu livro – desde o jornal “DE VEZ EM QUANDO” (que “publicaria recados, retratos, curiosidades, convites, jogos, perguntas e ideias…”) até as duras sentenças para brigas e desavenças – nos revelam simpáticas estratégias para enfrentar problemas complexos, tendo sempre como sustentação um pensamento simples e altruísta.

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6 Comentários

  • Responder Virginia 15/04/2015 às 18:16

    Adorei o texto e a sensibilidade do pai criativo!

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 16/04/2015 às 10:28

      Olá Virginia!! Fico feliz que tenha gostado! Agradeço muito por estar sempre por aqui! Um enorme abraço!!!

  • Responder Denise 15/04/2015 às 11:42

    Excelente texto! Muito boa a ideia de trocar armas de brinquedos por livros. Parabéns pela iniciativa!

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 16/04/2015 às 10:28

      Fico muito feliz que tenha gostado, minha leitora especial!! Beijos e muito obrigado por todo o seu apoio de sempre!!!

  • Responder Kalyne 13/04/2015 às 22:31

    Que bom que o pai criativo se dedica a estudar e a refletir as situações cotidianas de seus filhos. Que bom que ele sabe a importância do brincar e o vê como instrumento de construção de subjetivação! O pai criativo fica atento também as novas tecnologias, jogos eletrônicos e brinquedos munidos de valores violentos e individualistas! Amigo querido, espero que seus textos ricos em conscientização chegue a muitos pais em nossa corrente em prol da mudança!! Deixo aqui registrado meu pedido para um texto sobre o pai criativo preparando seus filhos para lidar com as crises econômicas e ingresso na vida adulta, com todas as responsabilidades e dificuldades! Um pai criativo lidando com adolescentes! Adoro te ler, me faz crescer!

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 16/04/2015 às 10:26

      Querida Kalyne, sempre me alegram muito os seus comentários e a sua presença! Obrigado por sempre ter uma bela contribuição e saiba que você também nos faz crescer, a todos com quem compartilha suas palavras! Um grande abraço!

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