Psicoterapia e Comportamento

Deixe as lágrimas rolarem: Chorar é tão importante quanto sorrir

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Chorar.  ~Tempo de leitura: 5 min~

Por: Bob Livingstone

ACREDITAVA QUE ESTAVA TUDO BEM

Há muito tempo eu acreditava que seria impossível sofrer se conseguisse evitar experimentar a minha própria dor. E, se você não sentir sua própria dor, será quase impossível sentir a dor causada por outras pessoas. Você pode criar paredes psicológicas projetadas para mantê-lo protegido de ser ferido e de ser abandonado. Você pode evitar sentir o que seria uma dor implacável e incurável. Você pode caminhar através da vida em um estado de dormência, ignorando a emoção e a tristeza que a vida oferece.

Porém, muito provavelmente, não valeu a pena gastar toda essa energia de alta potência para evitar a dor, por vários motivos diferentes: Esse bloqueio que acreditava me proteger da dor, pode dificultar a formação de relações mais íntimas, estreitas e especiais. Também, pode afetar negativamente nossos julgamentos. Andar em torno de um estado de dormência pode exacerbar a depressão e a ansiedade. E muitos outros motivos, mas o principal, citando Freud: “Em última análise, precisamos amar para não adoecer” (Freud, em 1914, “Introdução ao Narcisismo”). 

Quem não sente nada, também não ama! E eu adoeci!

 

HOMEM NÃO CHORA!

Meu pai morreu quando eu tinha 15 anos e eu pensava que estava “tudo bem” – exceto que não estava. Demorou cerca de 25 anos para realmente chorar sua morte. Parte do problema era que eu tinha dificuldade para sair de um lugar de descrença. Como que você começa a questionar e entender sobre a morte de um de seus pais enquanto você é apenas um adolescente? Eu vivia camadas e camadas de dormência emocional promovida por fuga das emoções, drogas e distrações insalubres que me impediam de relembrar as memórias de meu pai morrendo, do hospital, do funeral e da solidão rígida que se seguiu.

Não sabia que eu era um mestre em me distrair de todos os sentimentos ruins que habitavam minha mente e coração. Fomos ensinados enquanto meninos, que homens de verdade não choram e esta foi uma parte importante da minha identidade. Eu era “o homem da casa” e não importava o inferno que estava dentro de mim. A mim foi atribuído este papel, mas nunca tive nenhuma ideia do que eu deveria dizer ou fazer. Então trabalhava, mas não tinha dinheiro suficiente para pagar a hipoteca. A única forma que eu me relacionava a este papel era me manter fora da raiva intensa.

Quando eu fiz 40 anos, o padrão de “tapar os buracos, evitar e distrair” já não estava funcionando para mim. Não que ele realmente tenha “funcionado” antes. O que aconteceu foi que aprendi a experimentar minha própria dor, chorando. Tudo começou quando tive uma crise de saúde onde meu coração temporariamente parou de funcionar e eu, verdadeiramente, quase morri.

 

CHORAR E ME CONFRONTAR COM MINHA DOR

Estava correndo em um ritmo rápido e o sol estava esgueirando-se através das árvores quando a voz soul de Leela fluiu em meus ouvidos. Olhei para a grama e me lembro de desmaiar quase naquele minuto exato. Eu senti essa sensação intensa no meu estômago, que causou uma dor de garganta e, em seguida, as lágrimas começaram a derramar. Me lembro como minha vida foi terrível depois desse momento. Não sabia se ia morrer ou não.

Nesse dia, fui capaz de retornar para casa e fui trabalhar, mas me senti como se estivesse tendo um colapso cada vez que me levantava. Não disse a ninguém por uma semana porque eu estava em negação e aprendi que é vergonhoso ter uma doença grave em nosso país. Fui ao hospital e me disseram para ir para casa e, essencialmente, esperar que minha condição piorasse.

As lágrimas escorriam dos meus olhos e meus pés batiam no chão enquanto eu continuava a reviver este capítulo da minha vida. Eu estava com tanto medo e não sabia se ia morrer ou não ser capaz de funcionar bem. Senti-me tão sozinho e assustado. Monitorava mentalmente e continuamente o meu corpo. Toda dor e aflição significavam que a catástrofe estava a caminho. Às vezes eu questionava se essas dores no corpo eram reais ou imaginárias. Passei tanto tempo preso nesse estado – de três a quatro anos. Cada passo tornou-se demais. Não podia subir degraus. Minha esposa, Gail, olhava para mim com terror em seus olhos.

Na semana seguinte, Gail me levou para a sala de emergência.

Quando eles tentaram medir a minha frequência cardíaca, não conseguiram obter uma leitura. A enfermeira achava que o equipamento estava com defeito. Finalmente, obtiveram uma leitura de 24. A frequência cardíaca normal é de 80 a 100 batimentos por minuto. O cardiologista me disse que o fato de eu ser um corredor me manteve vivo. A maioria das pessoas não podia tolerar uma frequência cardíaca de 24. Estariam mortos e talvez eu estava horas de ser um cadáver. Em Maio de 2009, um pacemaker cardíaco foi instalado no meu peito.

 

EU QUERO SABER O QUE É O AMOR

Enfrentar minha própria morte se aproximando era muito difícil e às vezes aquela dormência emocional retornava. Mas, queria entender como ‘quase morrer’ me afetou emocionalmente e existencialmente. Em todo “aniversário de minha quase-morte”, duplicava a mesma distância que corria quando meu coração parou, ouvindo a mesma música (“I want to Know what Love is”- a versão Leela James – letra e música ao final do texto), enquanto corria pelo mesmo gramado onde caí, mas dessa vez, me permitia chorar.

Estava exausto de chorar depois que terminei a corrida. Lembrei-me de como era quase morrer. Era surreal, aterrorizante e eu tinha um profundo sentimento de que não era hora de ir. Havia muito o que queria realizar. Eu queria rir com meus amigos. Ter conversas profundas com minha família. Olhar nos olhos castanhos sorridentes de minha esposa. Escrever, tocar bateria, aprender a tocar violão, ir para a França, lutar contra a injustiça e ser capaz de descansar sem se preocupar.

As lágrimas desgarradoras voltavam. Agora, já não escaneava meu corpo constantemente. Já não temia que fosse desmaiar e morrer 20 vezes por dia. Já não passava a maior parte do meu dia imerso no medo. Respiro fundo enquanto reflito sobre essas mudanças incríveis. Eu me permito sentir, chorar e sofrer pelo que perdi, ou vivi. Talvez uma de nossas principais tarefas na vida seja aprender a sofrer. Experimentar minha própria dor enquanto chorava, me ajudou a entender o que eu passei.

Talvez uma de nossas principais tarefas na vida seja aprender a sofrer.

Traduzido e adaptado de Mental Help
Música e link para a letra com tradução

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