Cultura 02/03/2020

Educação, a escadaria que (des)conecta as classes em ‘Parasita’

Hoje me dediquei a refletir sobre um tema que aparece no filme ‘Parasita’ de Bong Joon Ho, ganhador do Oscar de “Melhor Filme” deste ano (Veja o trailer). O filme transita entre vários gêneros, mas não é difícil perceber nele uma crítica inteligente e ácida sobre desigualdades sociais e o funcionamento da sociedade. Para quem ainda não o viu, sugiro cuidado aqui, pois o texto contém alguns spoilers.

Sobre o filme: as classes sociais

O desenrolar do filme é sobre os entrelaces da história de duas famílias com a mesma constituição (pai, mãe, filha e filho), ambas partindo de uma descrição comicamente grotesca e representativa de duas classes sociais muito distintas e antagônicas.

Os Ki-taek são uma família pobre, de desempregados fazendo bicos e vivendo em um porão sujo e apertado. Seus membros estão constantemente sujos, trombando entre si pelos cômodos pequenos e disfuncionais enquanto tentam roubar wi-fi. O filme começa, justamente, mostrando meias penduradas na estreita janela ao nível do chão da rua, cuja vista dá para uma lixeira, onde um morador de rua bêbado costuma urinar.

Do lado oposto, como em um reflexo invertido em um espelho, os Park. Uma família bastante rica, moradora de uma mansão espaçosa feita por um arquiteto famoso, a qual tem vários níveis, jardins e empregados. Os membros pouco interagem, pois vivem espalhados pelos inúmeros cômodos ou entretidos com toda a tecnologia à disposição. E, pela gigantesca parede de vidro que serve de moldura para um lindo jardim, assistem o filho pequeno satisfazer seus caprichos.

Em entrevistas, Bong Joon Ho, diz que “Parasita é um filme de escadarias”, seja no sobe e desce das nossas percepções e expectativas durante o filme, seja no sobe e desce desesperado das personagens pelas escadas, ou na representação simbólica das escadas enquanto um acesso social. Se por um lado a família pobre vive em um nível abaixo da rua, por outro, a casa da família rica está a três andares acima.

Sobre a educação: Possibilidade de ascensão

A única ligação entre as famílias é o professor de inglês da menina Park, que também é amigo do filho Ki-taek. Este rapaz (o elo), um estudante universitário, pede ao amigo que ocupe seu lugar e dê aulas de inglês à garota, abrindo portas para que essa conexão aconteça. A família Ki-taek abraça essa oportunidade de alívio social para sair do buraco no qual vivia.

A escada que permitiu o acesso dos Ki-taek à casa rica foi, justamente, a educação que eles fingiram possuir. O início do filme é bastante marcado pelo desejo do filho Ki-taek de voltar a estudar e, assim como o amigo, ter um diploma universitário. Realidade que não está nem perto de se concretizar, pois a educação é, na nossa sociedade, um artigo de luxo quando não se tem o mínimo necessário para sobreviver.

A trama arquiteta uma bomba-relógio, um inevitável clímax de luta de classes que tem suas raízes em todas as diferenças e injustiças sociais mostradas ao longo do filme. Entretanto, o ponto que me interessa demarcar é a educação, marcar esse elo (universidade e a educação) como a escadaria que separa os níveis sociais, mas que também permite ascender de um andar para o outro.

Ao fim (não vou contar o final, não se preocupe) o filho Ki-taek, numa tentativa de ajustar contas com aquela classe, promete buscar a educação, se formar, enriquecer, ‘crescer na vida’, para enfim poder comprar aquela mesma casa e resgatar o pai do porão, da miséria, da pobreza. Evidenciando assim a educação como a única escada possível para uma vida melhor.

Educação, artigo de luxo

É através da educação que se edifica um indivíduo e o torna apto para exercer sua cidadania. A educação é um direito fundamental que também é determinante para o crescimento do país ao colocar no mercado mão de obra qualificada e pensante. É importante frisar que mão de obra qualificada não é aquela que é eficaz apenas tecnicamente, mas também é composta de sujeitos com papéis decisivos na história, questionadores e proativos, capazes de promover mudanças na sociedade.

O desenvolvimento de uma sociedade está diretamente ligado à educação, principalmente por seu papel na transmissão de sua herança cultural, moral e, também, pela integração com o futuro.

Apesar de seu papel fundamental (e, no caso do Brasil, apesar de gratuita) a escola pública não consegue ser atrativa, com poucos investimentos governamentais (para não dizer negligência), baixa segurança e pouco diálogo com o mundo atual e dos jovens, a escola não cabe na vida.

Uma das consequências são as altas taxas de reprovação e abandono escolar. Isso faz com que boa parte dos jovens não atenda as demandas do mercado, ficando limitados a atividades operacionais e com remuneração baixa. A falta de qualificação é um freio para a mobilidade social.

Do outro lado, como bem retratado no filme, quem pode acessar a educação privada, tem ingresso aos mais variados métodos educacionais, professores atualizados e todas as firulas para compor um currículo espetacular – que vão desde cursos de línguas, expressões artísticas, reforço, intercâmbios, estágios, etc.. Com melhores empregos e salários, esses indivíduos podem consumir e investir, reduzindo drasticamente a dependência em relação à políticas públicas.

A Educação é fator essencial para o bem-estar social e através dela é possível progredir, adquirir melhores condições, construir seu patrimônio, planejar seu futuro e realizar sonhos. Ou seja, percebemos que o investimento em educação é um fator essencial para proporcionar mobilidade social e diminuir a desigualdade.

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2 Comentários

  • Responder Pedro Santana Freitas 08/03/2020 às 22:10

    Interessante reflexão, não tinha entendido dessa maneira mas foi uma boa sacada. curti

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