Psicanálise 23/03/2019

História da Psicanálise: Quem foi Anna O.?

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Quem foi Anna O.?

“Anna O.” é o nome fictício dado a Bertha Pappenheim pelo médico Josef Breuer para proteger a identidade ao publicar seu caso no livro escrito em parceria com Sigmund Freud,Estudos sobre a Histeria”(1). Bertha (1859-1936) foi acompanhada por ele entre os anos de 1880 a 1882, tinha, então, 21 anos. Este caso é considerado um marco 0 para a Psicanálise, ou seja, seu primeiro caso e, este livro, considerado o primeiro trabalho de repercussão da Psicanálise.

Bertha era religiosa, recatada e tímida, a típica mulher europeia do século 19. Essa jovem aristocrata de Viena, sofria com o extremo controle dos pais, queria dançar, escrever, ir a bailes e sair de casa, mas seus pais a impediam. Por volta dos seus vinte anos de idade, uma doença terminal acamou seu pai, do qual se tornou cuidadora. 

Anna O.

O adoecimento do pai, juntamente com outras tensões, promoveram o desencadeamento de seu quadro marcado por um conjunto de sintomas estranhos. Por exemplo, alucinações, impossibilidade de beber líquidos, perda da capacidade de falar alemão (passando a falar apenas inglês), dores pelo corpo, paralisias, perturbações visuais, dentre outros, que a deixavam praticamente inválida. Foi um caso com muitos sintomas, o que era uma das características desafiadoras da Histeria na época, como foi diagnosticada.

Sobre a histeria

Quem começou a se interessar pelas histéricas foi o médico francês Jean-Martin Charcot, ainda no século 19, de quem Freud era discípulo. Charcot buscava a cura da Histeria pela hipnose e nessa busca encontrou homens histéricos, dando mais passos para quebrar a associação de “histeria” como uma “doença do útero”. Antes disso, a histeria era entendida como um fingimento e, geralmente, ignorada pelos médicos ou tratada com métodos questionáveis, como eletroterapia, hidroterapia, massagens e repouso. Em muitos casos, essas mulheres eram esquecidas em manicômios.

Este não foi o caso de Bertha, que teve acompanhamento médico atencioso e curioso, sendo submetida à sessões de hipnose. Ela teve um papel muito importante no desenvolvimento do método que Breuer denominou catarsis (Método catártico) e que seria o fundamento para um futuro tratamento psicanalítico. Nesse momento, Freud foi o que chamamos de ‘supervisor de caso’, ou seja, escutava e discutia o caso, mas era o próprio Breuer quem visitava Bertha e a submetia às tais sessões de hipnose.

Da hipnose à cura pela fala

A proposta da hipnose era fazer a paciente se lembrar de experiências específicas que pudessem ter originado alguns sintomas e, se lembrar de tais recordações, fazia com que se sentisse melhor e os sintomas desaparecessem. Ao longo do acompanhamento, Breuer percebeu que dialogando com Bertha podia levá-la a relatar traumas de infância, assim como fazia sob hipnose. A própria Bertha chamou o tratamento de “talking cure (cura pela fala) e o humorístico ‘chimney sweeping’ (limpeza da chaminé). (FREUD, 1985, pág. 53).

O ‘caso Anna O.’ é apresentado como um caso de cura pelo método catártico e hipnótico, mas há estudos que dizem que Bertha não melhorou tanto assim. Posteriormente, ela adquiriu a prática de escrita (2), publicou livros e dedicou sua vida a uma função importante em instituição que acolhia jovens grávidas abandonadas pela família e parceiros, e que ficaram relegadas a uma condição subalterna.

O caso, no entanto, mostrou que havia uma reversibilidade dos sintomas e como esses mesmos sintomas têm a ver com cenas originárias e com determinados afetos e reações que não podiam aparecer, mas deveriam permanecer ‘escondidos’. Os sintomas, então, mostraram sua relação com uma dissociação entre o que se pensa e sente, e o que se quer fazer e o que realmente se faz.

Alguns estudiosos também afirmam que foi nesse caso que Freud teve material necessário para suas primeiras teorias da vida mental inconsciente, repressão e conversão, além de material bruto para suas teorias sobre o complexo de Édipo, identificação, transferência, contratransferência, compulsão à repetição e atuação (3). É importante lembrar que os conceitos e textos base da psicanálise do século 19, deram um caminho para a prática atual, servem apenas como um ponto de partida para a clínica(4).

Quem foi Bertha Pappenheim?
Bertha Pappenheim

Bertha, uma judia austro-alemã, não foi apenas uma histérica que serviu como objeto de uma ciência. Ela teve uma vida ativa e interessante. Foi assistente social, escritora e líder do movimento feminista.

Em 1890, publicou o livro de contos “Na loja De Segunda Mão”, sob o pseudônimo de Paul Berthold. Em 1899 escreveu a peça de teatro “Direitos Da Mulher” e traduziu para o alemão o livro da feminista Mary Wollstonecrafts, “A Vindication of the Rights of Woman”. Uma de suas publicações mais conhecidas é “Sisyphus-Arbeit” (O trabalho de Sísifo), em alusão ao trabalho incansável do herói grego Sísifo, que persistentemente empurrava uma pedra para o alto da montanha, quantas vezes essa voltasse a rolar montanha abaixo.

Fundou em 1902 e dirigiu por 29 anos, a Weibliche Fürsorge (Assistência da Mulher), uma Instituição destinada a colocar órfãs em lares adotivos, a educar mães sobre o cuidado com seus bebês, e a dar orientação vocacional e oportunidades de emprego para moças. Foi o primeiro abrigo e lar coletivo para mães solteiras e seus filhos, para crianças e meninas retiradas da prostituição.

Em 1904, fundou a “Liga das Mulheres Judias“, a primeira organização judaica a lutar pelos direitos civis e religiosos da mulher judia, da qual foi a Presidente por vinte anos.

Em 1910, Bertha publicou “O Problema Judeu Na Galícia” e “Sobre A Condição Da População Judia Na Galícia”, sobre a relação entre o baixo nível de educação e a pobreza entre as meninas judias. No mesmo ano traduziu as “Memórias de Gluekl von Hameln” (a primeira autobiografia de uma mulher na Alemanha). Em 1913, publicou a peça teatral “Momentos Trágicos”.

Após deixar a presidência da Liga das Mulheres, traduziu o “Maaseh Buch”, uma coleção de narrativas judaicas tradicionais; o “Ze’enah u-Re’enah”, uma bíblia seiscentista da mulher, de Isaac Ashkenazi; os cinco “Megillot”, que são o Livro de Ester, o Livro de Rute, o Cântico dos Cânticos, o Eclesiastes e o Lamentações; e o “Haftarot”, uma seleção de textos dos profetas, lidos em ocasiões especiais.

Referência Bibliográfica:

  1. FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria (1893 – 1895). Companhia das Letras, 2016.
  2. Notórios da Psicanálise: Anna O.“, por Corpo editorial. Dezembro, 2010: Revista Vórtice –> Leia aqui.
  3. BRITTON, R. “Anna O: primeiro caso, revisitado e revisado.” in “FREUD: UMA LEITURA ATUAL”.
  4. Debater misoginia na psicanálise evita ‘má interpretação’ de Freud, dizem psicanalistas“, por Helô D’Angelo. Agosto, 2017: Revista Cult –> Leia aqui
  5. JONES, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud. Zahar, 1970.

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Julia Maria AlvesWhatsApp
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