fbpx
LGBTQI+ 11/05/2020

Homoparentalidade: novas configurações familiares

 Tempo de leitura ~3 min~

. . .

Se ter uma mãe já é muito bom, imagine duas!

Sortudas são as crianças que, no dia das mães, puderam expressar seu amor por sua mãe e mais privilegiadas são aquelas que puderam expressar em dobro. Duas mães; parece matemática da mais trivial, mas assim como com a matemática, a homoparentalidade causa resistência em muita gente e, por essa razão, pretendo colocar essa palavra, desconhecida para alguns, em perspectiva.

Homoparentalidade é o termo utilizado para definir uma das novas configurações familiares, a qual é composta por duas mães, ou dois pais, que têm uma relação afetiva e seus filhos. Trata-se, obviamente, de um tema complexo, não por seus próprios méritos, mas pela necessidade de desconstruir uma ideia que há tempos habita o imaginário das pessoas, as quais acabam fantasiando o status quo como um modelo a ser preservado, ao invés de superado.

Quem faz ou fez psicoterapia, provavelmente, já se surpreendeu com momentos em que, para superar suas maiores angústias e medos, se fez necessário enfrentar modelos e ideias que há muito encontram-se instaladas em nossa visão de mundo. Esse é um exercício que nos desafia cotidianamente, para que possamos nos tornar melhores pessoas para o mundo e, consequentemente, tornar o mundo melhor para as pessoas e para nós.

Mudar e superar tabus é importante!

A partir dessa ideia, proponho uma retomada histórica que nos permita observar momentos em que a sociedade, ao superar o status quo, passou por significativos avanços, especialmente no que diz respeito à família. Para resgatar um exemplo que ilustra bem esse fato, não precisamos ir longe. Basta lembrar que no fim da década de 70, há mais ou menos 50 anos atrás, apesar da grande resistência apresentada pela sociedade, o divórcio foi regulamentado. Seus principais resultados só vieram a se destacar na década de 90, quando 47% das famílias passaram a se organizar com a presença de somente um dos pais. Chamo a atenção para um fato, quando se observa um dado como esse, é importante que nos esforcemos para ir além do que a informação aponta. Por exemplo, quando vemos que quase metade dos casais se separou na década de 90, há quem se preocupe com a menor dificuldade em se divorciar, mas e a dificuldade de viverem juntos?

Quantos casos já se soube de mulheres submetidas a repetidos episódios de violências (físicas ou psicológicas) e que encontram, no divórcio, uma saída para o que até então se definia como uma existência marcada pela anulação e pelo sofrimento? Ou seja, ao superar o tabu de que os laços matrimoniais seriam irrevogáveis, pessoas que não vislumbravam mais a possibilidade de dar continuidade ao casamento, tiveram a oportunidade de reformular seu projeto de vida e seguir em busca da felicidade almejada.

Um avanço irreversível no conceito de família

Embora os ventos não sejam dos mais favoráveis no contexto político, me parece irreversível o avanço que nossa sociedade tem feito na discussão do conceito de família. Permitindo que os vínculos familiares se pautem mais pelo afeto e menos pela genética, embora o primeiro não desqualifique o último.

Assim como o tema do divórcio, é preciso que se enxergue com olhos críticos esse avanço, buscando-se que as vistas alcancem aquilo que está para além dos conceitos até então enraizados em nossas origens. Quando se caminha nessa direção, emerge muito mais do que o assunto da parentalidade entre casais homoafetivos. Sendo possível repensar, também, os modelos tradicionais, nos quais, por muito tempo, os laços sanguíneos se sobrevaleram em relação aos afetivos. Pensando de forma bem prática, esse pode ser um passo importantíssimo, inclusive, para a longevidade das relações.

Laços familiares pautam-se mais pelo afeto que pela genética

Caso seja difícil para você aceitar como legítima a homoparentalidade, recomendo um exercício de empatia. É necessário que estejamos genuinamente dispostos a compreender o amor que se pode ter por uma mãe, um pai, ou uma filha, ou um filho. Não é pela grandeza de assumir filhos “rejeitados” por casais heteronormativos, nem por garantir uma vida de menos privações, quando a homoparentalidade se dá pela via da adoção. Trata-se, exclusivamente, de reconhecer a potência do amor que esta configuração (a parentalidade) tão antiga quanto a humanidade nos permite permite viver.

Pois, felizmente, mais duas mães criativas foram capazes de fazer isso e, assim, garantir às suas crianças uma educação de qualidade, um lar seguro e, sobretudo, amor.

Temos um fato diante de nós: a sociedade está evoluindo, a despeito de toda tensão produzida por quem se opõe à adoção homoparental, sustentados por princípios que rara vez se fundam no desejo de uma sociedade mais justa e fraterna. Assim, após o Dia das Mães e próximo ao Dia Internacional da Família, comemorado no dia 15 de maio, saúdo a tod@s cujos laços familiares pautam-se mais pelo afeto do que por qualquer outro elemento. Afinal, é isso que os manterá unidos e felizes.

Não podemos deixar de falar sobre o valor da adoção. Há muitas crianças prontas para amar e serem amadas e que, nem sempre, encontram pessoas dispostas a vivenciar esse amor. Como já dissemos anteriormente, o vínculo biológico não supera o vínculo afetivo. A ausência de afeto pode ser encontrada em relações parentais onde está presente o vínculo biológico, o que acaba se caracterizando como uma relação extremamente frágil. A propósito, não é incomum que isso aconteça na contemporaneidade. Sendo assim, são claramente muito mais fortes os vínculos que se fundam pelo afeto, a despeito do compartilhamento de códigos genéticos ou fenótipos, onde está presente o compromisso de cuidar e amar.

. . .

Comp[ART]ilhe arte e cultura:
Imagem da capa: Artista Koketit – Shira Barzilay disponível em @koketit

You Might Also Like

2 Comentários

  • Responder Gabriel Troskini 10/05/2020 às 14:22

    Excelente textoPodiam escrever mais sobre o tema.

  • Responder Kalyne 12/05/2015 às 22:50

    Um tema muito pertinente nos dias de hoje, onde já há leis contra preconceito mais ainda há muito e de modo mascarado! Bonito é quem se dá uma chance, dá oportunidade ao outro, quem faz escolhas criativas como esta de ter a família que se quer ter, construir a felicidade delineada por si, longe de tradicionalismo, próximo da sensibilidade e da afetividade sonhada. Parabéns mais uma vez grande amigo, por mais um texto lindo, continuo seguindo seus passos!

  • Qual sua opinião?