Psicoterapia 20/01/2020

O que Jogos de tabuleiro tem a ver com Psicologia?

Quando pensamos em boardgames (jogos de tabuleiro), logo associamos a uma prática de lazer, com amigos reunidos e a promessa de um bom momento compartilhado. Os jogos de tabuleiro têm, como uma de suas grandes capacidades, o poder de reunir diferentes pessoas em momentos de interação permeadas por uma multiplicidade de sentimentos. Mas, a potencialidade dos jogos está longe de terminar aí. De forma semelhante, os jogos podem permear práticas profissionais, oferecendo ferramentas únicas e inaugurando novas formas de significar o ambiente de trabalho.

A Forbes, em julho de 2019, divulgou dados da Pesquisa Game Brasil, que aponta um crescimento de 7,5% do mercado de jogos de tabuleiro, que chegou a faturar quase 7 bilhões no ano. Segundo dados da pesquisa, em todo o mundo, foram lançados 4000 jogos de tabuleiro, somente em 2018. Paralelamente, também cresceram as categorias de jogos, os modos de jogar e os usos a eles atribuídos, que para nós, psicólogos, são compreendidos também como potentes instrumentos de trabalho. Foi assim que se deu a aproximação entre a Diálogo Psi – Espaço de Psicologia e o Clube Nerd e, juntos, decidimos contar um pouco sobre a importância dos jogos, e como eles atravessam a prática clínica da Psicologia.

Alguns preconceitos…

Antes de adentrarmos mais no assunto, temos dois tabus a quebrar.

A respeito do primeiro tabu, partimos do pressuposto que se liga a um duplo estigma, um em relação à loucura e outro em relação à psicologia. Sobre a Psicologia, é importante ressaltar que antes de uma proposta interventiva para lidar com algum tipo de sofrimento, ela pode ser apropriada para lidar com angústias e incômodos, evitando que atinjam proporções graves na vida do sujeito. Temos ouvido com frequência a frase “não há ninguém que não se beneficie em fazer psicoterapia” e é verdade! A psicoterapia vai muito além do autoconhecimento, ajudando a lidar com padrões disfuncionais desde muito antes de quaisquer processos de adoecimento.

    O segundo tabu, do qual falamos, diz respeito à uma compreensão restrita dos jogos como instrumentos de entretenimento. Numa perspectiva antropológica, poderíamos defender o jogo como um fenômeno cultural, desde os primórdios da humanidade. Há, inclusive, estudos que defendem que os jogos precedem à própria cultura, possuindo ela mesma um caráter lúdico.

É possível observar elementos do jogar em condições mais rudimentares como, por exemplo, entre animais que brincam entre si, mediante um ritual de atitudes e gestos, mas respeitando regras, tais como não morder, pelo menos não com violência. De igual maneira, o jogo também se situa em contextos de alta complexidade, como na Ciência Política que estuda a teoria dos jogos, para compreender a dinâmica de disputas e negociações entre grupos e partidos políticos, conforme as regras estabelecidas na legislação e comportamento eleitoral, ou nos regimentos que regem as instituições.

E o que isso tem a ver com a Psicologia?

    Até o momento, apresentamos tudo isso para reforçar a importância de entender o jogo como um elemento da cultura, mas o que isso tem a ver com a Psicologia?

A Psicologia entende que o humano é, a grosso modo, resultado da interação entre as dimensões biológica, psíquica, social e cultural. Sendo assim, o jogar enquanto elemento da cultura é parte que não se separa da nossa existência. Partindo disso, tem sido possível fazer intervenções das mais diversas possíveis em consultórios de psicologia e até mesmo fora deles, por exemplo em escolas, empresas e outras organizações.

A partir das diversas possibilidades de abordagens que as modalidades de jogos de tabuleiro viabilizam, desdobram-se proposições de intervenções com crianças, jovens e adultos. No consultório, já utilizamos jogos para trabalhar elementos de comunicação entre casais, ou para auxiliar crianças e adolescentes a entrarem em contato com sentimentos difíceis de descrever. Os jogos nos têm permitido alcançar elementos de sociabilidade, afetivos e cognitivos. É importante ressaltar que a escolha pelo jogo a ser utilizado parte de uma reflexão que combina o conhecimento do profissional com a finalidade para a qual o jogo foi criado, de modo que as intervenções sejam eficazes e responsáveis.

Neste sentido, conforme cresce esse mercado, também aumentam as possibilidades de usos para a Psicologia, que por sua vez pode – arriscaríamos dizer que precisa – se apropriar mais e melhor dessa ferramenta. Sabemos que há tempos já existe um mercado de jogos desenvolvidos especificamente para o trabalho psicoterapêutico e, no nosso entendimento, as opções não são excludentes, mas se somam.

Cabe ressaltar que o trabalho com jogos de tabuleiro não é, de modo algum, um impedimento para o seu uso como entretenimento para o profissional. Psicólogos que têm os boardgames como hobby levam um bônus! Recorrendo à célebre máxima de Confúcio: “escolha um trabalho que você ama e não terás que trabalhar um único dia em sua vida”. Em uma sociedade que tem adoecido cada vez mais, submersa pela exigência constante de alto desempenho, claramente essa se faz uma saída terapêutica.

Autores: Pablo Ferreira Bastos Ribeiro e Luiz Paulo Rocha Vinhal

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1 Comentário

  • Responder SEO Referral Program 23/01/2020 às 07:29

    Awesome post! Keep up the great work! 🙂

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