Psicoterapia Vocação e Carreira 02/07/2016

Microagressão: Como funciona a discriminação sutil?

A microagressão

Muitas pessoas sequer percebem que estão discriminando outras com base na cor de sua pele ou em seu gênero. Eles não vão acreditar que suas ações inconscientes têm consequências até verem evidências científicas. Pois então, aqui estão.

Nosso país tem leis que proíbem a discriminação por razões de etnia, religião, sexualidade ou sexo. Percorremos um longo caminho desde os dias em que o inverso era verdade: Quando a homossexualidade era ilegal, por exemplo, ou quando as mulheres foram impedidas de votar. Mas, isso não significa que o preconceito já acabou.

Hoje em dia temos de nos preocupar tanto com as raízes sutis do preconceito, quanto com o racismo e o sexismo gritantes que nos fazem ter vergonha do passado. O preconceito sutil está no domínio das “suposições injustificadas”, das “não-intensões”, das “piadinhas” e da insuficiência em fazer um esforço para incluir as pessoas que são diferentes de nós, ou que não se encaixam as nossas expectativas.

 

MICROAGRESSÃO

Uma palavra para as expressões de preconceito sutil é microagressão. São coisas “pequenas”, tais como a repetição de um estereótipo impensado ou ignorar o ponto de vista de alguém repetidamente – ações que podem parecer tão simplórias e indignas de um comentário, mas podem, no entanto, marginalizar um indivíduo. As pessoas que cometem estas microagressões podem fazê-las de maneira completamente inconsciente de que possuem uma visão preconceituosa.

A psicologia distingue nossas atitudes explícitas (crenças e sentimentos que admito) das nossas atitudes implícitas (crenças e sentimentos reveladas por nossas ações). Assim, por exemplo, você pode dizer que não é machista, pode até dizer que é antissexista, mas se você interromper mais mulheres do que homens em reuniões, estaria exibindo uma atitude implícita sexista – que é muito diferente da atitude explícita não sexista que você professa.

 

“CULTURA DA VÍTIMA”

alzheimerA problema sobre o preconceito sutil é que ele é, por definição, sutil. São pequenas diferenças na forma como as pessoas são tratadas, pequenas exclusões, pequenas piadas, diferenças ambíguas na forma como tratamos uma pessoa em relação a outra. Isto torna mais difícil de medir e difícil de tratar, e – para algumas pessoas – difícil levar a sério.

Esta é a linha de pensamento: Quando as pessoas reclamam de serem tratados de forma diferente, em pequenas coisas, são acusadas de serem excessivamente sensíveis, tentando reivindicar uma cultura de vitimização. Afinal, pequenas diferenças são apenas isso – pequenas. Elas não têm grandes influências sobre os resultados da vida e não é onde devemos concentrar a nossa atenção.

 

MICROAGRESSÕES: UM MILHÃO DE PEQUENOS CORTES SE SOMAM EM UMA GRANDE FERIDA

No início dos anos 1970, uma equipe liderada por Carl Word na Universidade de Princeton (Leia aquiconvidou recrutadores inexperientes de pele branca para uma experiência de seleção de emprego de candidatos brancos e negros. A experiência foi realmente sobre como eles trataram os supostos candidatos a emprego, e se isso seria diferente de acordo com a cor da sua pele.

Apesar de acreditar que sua tarefa era encontrar o melhor candidato, os recrutadores trataram de forma diferente os candidatos – sentando-se mais longe do candidatos negros e exibindo menos sinais de engajamento, como, por exemplo, fazer contato visual ou inclinar-se durante a conversa. Uma atualização recente desse estudo mostrou que isso ainda é verdade e que estes sinais não-verbais de simpatia, que não estavam relacionados com as atitudes explícitas, operam de forma independente das crenças confessas dos participantes sobre raça e racismo.

A experiência de Princeton, entretanto, não nos explica sobre a dor de ter sido tratado de forma diferente por causa da cor de sua pele. Os candidatos negros neste experimento foram tratados de maneira bem inferior aos candidatos brancos, não apenas nos sinais não-verbais dos entrevistadores, mas eles receberam 25% menos tempo nas entrevistas, em média. Isso por si só já seria uma injustiça, mas quais as consequências e desvantagens de ser tratado dessa forma?

 

QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS PARA QUEM SOFRE MICROAGRESSÕES?

egg-583163_1920No segundo experimento do Dr. Word, depois de recolher as medições de comportamento não-verbal, Word recrutou alguns novos voluntários e os treinou a reagir da mesma maneira que os sujeitos experimentais originais. Ou seja, eles foram treinados para tratar os candidatos na entrevista como os participantes iniciais tinham tratado os candidatos brancos: fazer contato visual, sorrindo, sentado mais perto, permitindo-lhes falar por mais tempo. E também foram treinados para produzir o mesmo tratamento do experimento aos candidatos negros: menos contato com os olhos, menos sorrisos e assim por diante.

Todos os candidatos deveriam ser tratados de forma educada e justa, apenas divergindo nos sinais não-verbais.

Em seguida, os pesquisadores recrutaram novos alunos de graduação de Princeton para candidatos a emprego, e eles foram distribuídos aleatoriamente para ser não-verbalmente tratados como os candidatos brancos ou negros no primeiro experimento.

 

OS RESULTADOS

Os resultados nos permitem ver a profecia auto-realizável de discriminação. Candidatos que receberam os sinais não-verbais “para negros” tiveram um desempenho pior na entrevista. Eles tiveram muito mais erros de fala, na forma de hesitações, gagueja, erros e frases incompletas. Também escolheram se sentar mais longe do entrevistador.

Não é difícil ver que em uma situação de “o vencedor leva tudo” como em uma entrevista de emprego, tais divergências podem ser o suficiente para que alguém perca uma oportunidade de trabalho. O que é notável é que o desempenho dos participantes havia sido prejudicado por diferenças não-verbais, do tipo que muitos de nós pode produzir sem querer ou perceber. Além disso, o efeito foi observado em estudantes da Universidade de Princeton, uma das universidades de elite do mundo. Se até mesmo um sujeito pertencente a uma elite privilegiada, sofre sob este tipo de tratamento, poderíamos esperar efeitos ainda maiores para pessoas que não tem essas vantagens.

 

CONCLUSÃO

Experiências como estas não proporcionam toda a verdade sobre discriminação. Problemas como o racismo são modelados por muito mais do que atitudes individuais! E, muitas parte das vezes, apoiados por preconceitos explícitos e não apenas sutis. Racismo afetará os candidatos antes, durante e após as entrevistas de emprego em muitas mais maneiras do que eu descrevi. Mesmo com boas intenções, as reações das pessoas diante de grupos minoritários podem ter efeitos poderosos.

Traduzido e adaptado de Tom Stafford (10 June 2016)
Texto original: The true impact of tiny microaggressions
Fonte: WORD, O. C. “Nonverbal mediation of self-fulfilling prophesies in interracial interaction” Journal of Experimental Social Psychology 10(2):109-120 · February 1974 DOI: 10.1016/0022-1031(74)90059-6

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2 Comentários

  • Responder Joana Silva Bsb 02/07/2016 às 17:04

    Legal !!!

    Qual sua opinião?