Psicanálise 18/02/2019

Nascimento da Psicanálise: O inconsciente

 Tempo de leitura ~2 min~

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O contexto do surgimento da psicanálise é a partir disso que Freud inventa e nomeia de “Inconsciente”. Logo, para falar da história da psicanálise é preciso falar da história de Freud (leia esse texto aqui) e de como ele entendeu a psicanálise. A história da psicanálise é, nesse sentido, a escuta e a formalização do inconsciente. No primeiro tempo, a formalização do inconsciente em Freud e no segundo tempo, o inconsciente estruturado como uma linguagem, na concepção do retorno à Freud, proposto por Lacan, mas não vamos entrar disso hoje.

A escuta do inconsciente

Esse termo “inconsciente” já era um termo conhecido da filosofia. A ideia de “algo que não está na consciência” não era algo desconhecido no mundo. A princípio, a gente poderia traduzir o inconsciente como ‘aquilo que não está consciente’ ou que ‘não está na consciência naquele momento’. Em outras palavras, o fato de não darmos atenção à algo, naquele momento, faz disso ‘não consciente’. Freud estabelece algo diferente disso, ele diz que uma coisa é o “estado da não consciência”, por exemplo, o que a gente tem na memória, mas isso não equivale ao inconsciente como um sistema, tal qual Freud concebe.

Freud pega esse significante já conhecido (inconsciente) e conceitua de outra forma, dá para ele um novo estatuto, com novas funções e novas características. E passa a distinguir que o sujeito é dividido, entre algo que faz parte, que é a Consciência e outro sistema diferente, com leis próprias, que é o Inconsciente.

O inconsciente e o recalcado

Esse Inconsciente, que é diferente da memória (que você faz um esforço e se lembra), você até pode fazer um esforço, mas isso não se torna consciente, ou ‘lembrado’, porque ele contém algo de insuportável, algo que foi reprimido ou ‘esquecido’, em outras palavras, tem no Inconsciente algo de que não quero saber. Então que Freud designa um novo nome para esse dispositivo, para essa defesa psíquica, o Recalque.

Freud concebe essa saída porque, nesse momento, está trabalhando com as histéricas (acompanhe a história de Freud nesse outro texto aqui), que estavam completamente (especialmente naquela época) em conflito por um desejo, uma satisfação que era proibida. Não sabe se vai para um lado ou se vai para o outro e ficam completamente divididas diante desse conflito. Não se consegue resolver nem satisfazendo e nem abrindo mão, a saída por excelência, é recalcar. Ou seja, diante disso que se dá a clivagem, essa divisão no eu. Algum conteúdo conflitante, portante, seria recalcado.

Já temos a primeira definição do inconsciente tal qual Freud começa a considerá-lo e construí-lo, ou seja, é o inconsciente recalcado. É um inconsciente que sinaliza essa estrutura da neurose e faz com que o sujeito, quando está diante de algo que lhe causa o conflito, arruma uma saída, em outras palavras, aquilo “desaparece” na consciência, vamos dizer assim, mas continua existindo como um desejo inconsciente.

Só que isso não fica quietinho lá no Inconsciente, inclusive, seria ‘ótimo’ se tivesse um dispositivo que eliminasse completamente essa divisão que ficamos com relação ao conflito, não temos como saber. O que sabemos é que aquele desejo que foi recalcado, retorna. Há um retorno do recalcado e se dá através das manifestações inconscientes que a gente reconhece como os sintomas, os sonhos, os atos falhos, chistes, etc.

Vou colocar um pequeno texto que ilustra de maneira bem lúdica e transparente os conceitos que discutimos. E, no próximo texto sobre o nascimento da Psicanálise, continuaremos discutindo outro importante conceito, a Associação Livre.


O INCONSCIENTE

Autoria: Ana Suy

Quando a gente começa a aprender sobre o inconsciente, acha que o inconsciente é uma parte obscura nossa. Aí vêm os professores e fazem aquele famoso desenho no quadro, dizendo que o ego é a ponta do iceberg, bem pequenininha, e que o inconsciente é enoooorme e que está escondido.

O interessante é que quando a gente aprende sobre o próprio inconsciente – em análise – percebe que o inconsciente não é tão discreto assim. A gente acha que o inconsciente é a nossa parte obscura, mas percebe que o inconsciente é a parte mais óbvia de nós mesmos.

O inconsciente não está escondido, pelo contrário, está escancarado.
Tanto é que se vamos comentar com alguém algo que aprendemos em nossa análise, e se esse alguém é uma pessoa de nosso longo convívio, é comum escutarmos da pessoa que ela já sabia daquilo – ou mais, que ela já tinha nos dito tal coisa antes, mas que não pudemos escutar.
Então, o fantástico disso não é o poder do inconsciente, mas é a força do recalque.

O recalque faz com que a nossa parte mais óbvia para os outros, fique obscura para nós mesmos. Nos leva a não perceber o que nos salva e a esquecer coisas absolutamente inesquecíveis. As coisas mais óbvias são também as mais difíceis de serem percebidas.”


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Este texto faz parte de uma sequência de outros sobre o nascimento da psicanálise, para acompanhar a ordem dos textos, visite esse Link.

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Imagem da capa: Artista Giulia Rosa disponível em @giuliajrosa

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