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Infância 13/07/2015

Pai Criativo: Uma série de textos sobre dinâmicas familiares

Apresento o Pai Criativo, personagem fictício que vai encenar essa série de textos sobre dinâmicas familiares. Embora tenha sido inspirado em uma pessoa, tive a satisfação de observá-lo em ações de vários outros pais, constituindo-se, portanto, um personagem universal.

O que faz de um pai, um criativo?

O Pai Criativo está, ao mesmo tempo, além e aquém de expectativas. E, independente de sua habilidade, nem sempre atenderá aos desejos de seus filhos. A sua maior virtude é ser capaz de encarar o penoso desafio de educar, principalmente quando precisa se impor aos desejos de quem, acima de qualquer coisa, ele quer que o ame.

Ele é de uma família de classe média baixa, que recorrentemente falava do desejo de poder ter tudo o que acreditavam ter uma família “normal”. Suas principais queixas denunciavam uma frustração crônica, de uns para com os outros, que se instalou promovendo um afastamento entre eles. Sempre me inquietou o padrão de normalidade imaginado pela família em questão. Todas as vezes que o pai era questionado para ir mais fundo na discussão sobre esse protótipo fantasiado, esbarrava no descompasso entre os limitados recursos da casa e o padrão de vida almejado por seus membros.

Isso começou a mudar quando veio à cena o relato de um programa em família. Pai, mãe e irmãos desejavam ir ao cinema. O pai descobriu que havia um horário promocional, dentro de seu alcance financeiro e, assim, acordou com a família de irem no próximo fim de semana. Quando, enfim, chegou o dia do programa, descobre-se que aqueles preços não se aplicavam aos fins de semana, único período em que poderiam ir juntos. Mas recusando-se a recuar, ele tomou um desvio. Foi à loja de conveniência, e junto da esposa e dos filhos escolheu dois DVDs, compraram algumas guloseimas não muito saudáveis e, a despeito dos protestos ouvidos por abortar a ideia do cinema, surgiu um novo hábito familiar que lhes permitiu um momento só deles. A partir de então, semanalmente, passaram a se reunir para ver filmes e comer algo diferente.

[teaser] Leia mais: Consumismo e infância [/teaser]

 

mašinkaOs padrões de consumo, inspirados pelo american way of life, procuram ditar nossos modos de vida. Embora já seja desafiador resistir a todo poder de sedução desse estilo de vida, há também uma armadilha muito utilizada pelos publicitários e marketeiros, dirigir os seus produtos às crianças, sendo elas mais vulneráveis às mensagens publicitárias. Enquanto os pais, por sua vez, estão mais vulneráveis aos desejos dos filhos, a quem eles almejam proteger das frustrações, tristezas e angústias. Para se ter ideia do poder de persuasão das crianças, quando o assunto é comprar, um estudo realizado em 2003 pela Inter Sience revelou que 80% das crianças brasileiras influenciam nas compras de produtos. É de se imaginar que após 12 anos esse número provavelmente cresceu ainda mais, com a ampliação dos recursos midiáticos e diversificação das estratégias publicitárias.

Pensando nesses dados e na queixa de frustração crônica entre eles, encontramos um problema central. Aquele pai não podia atender plenamente aos desejos instalados por um padrão de vida que, apesar de almejado, não era o deles. Assim, a menos que tivesse uma rápida e significativa ascensão social – aliás, muito provavelmente, nem assim – ele jamais atenderia às expectativas. O que, embora não signifique haver uma conformação com o status quo, a partir de uma alternativa que deu certo, já que permitiu à família estabelecer um ponto de aproximação entre eles.

Claro que isso não significou uma mudança imediata naquela família, e nem tampouco solucionou todos os seus problemas. Mas é fato que, desse momento em diante, as relações entre eles ganharam novos contornos e novas cores. E se, por um lado, as ações de marketing e publicidade, sofisticadamente, os seduzem, o pai, criativamente, educa.

 

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22 Comentários

  • Responder Diálogo – Espaço de Psicologia – O Pai Criativo: se fazendo presente 25/03/2015 às 07:41

    […] fazer para qualificar a relação com os filhos, por que não? Foi exatamente o que se perguntou o Pai Criativo, nosso personagem […]

  • Responder Karina Friaça 19/03/2015 às 21:36

    Gostei muito da forma como abordou a situação, Pablo. Concordo que há várias maneiras de aproximação e não necessariamente está vinculada à praça de alimentação de um shopping. Não tenho filhos mas já trabalhei muito com monitoria em festa infantil e via crianças inteligentes e bem cuidadas mas longe afetivamente dos pais. A aparências eram intactas com as roupas e sapatos da moda e muitas vezes celulares mais modernos que o meu que sou adulta, mas o único contato próximo eram quando deixavam as crianças nos brinquedos e na hora de buscá-los deixando claro que esses pais estavam na mesma festa. Essa ideia de consumismo desenfreado é comum também dentro de casa onde podem estar todos reunidos no mesmo cômodo mas cada um entretido com suas ferramentas tecnológicas preferidas.
    Parabéns pela abordagem e a forma como a fez.

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 20/03/2015 às 10:31

      Prezada Karina,

      Muito obrigado por participar! Essa discussão acerca da tecnologia é, de fato, muito interessante e importante que se discuta. Creio que, em breve, traremos essa discussão com um foco maior sobre ela.

      Mais uma vez, obrigado por dialogar conosco! Seja sempre bem vinda. 🙂

      Abraços

  • Responder raildes 19/03/2015 às 13:12

    Ola eu estou querendo desabafar sou casada 13descobri q meu marido me trai e a nossa era uma mentira mas eu amo muito ele,nao sei o q fazer.

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 19/03/2015 às 16:27

      Olá Raildes,

      Com o intuito de garantir a sua privacidade, respondi seu comentário por e-mail.

      Bem vinda à Diálogo e obrigado por participar.

      Abraços,

      Pablo

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 19/03/2015 às 17:03

      Olá Raildes,

      O e-mail para o qual enviei a minha resposta está voltando. Sugiro que me envie um e-mail para o endereço pablo@dialogopsi.com.br e então lhe responderei diretamente por lá.

      Abraços

  • Responder marina 17/03/2015 às 22:18

    excelente abordagem do tema em questão. porque realmente educar nos dias de hoje – controlado pelo consumismo desenfreado- tem que ser muito criativo. Adorei o texto. parabéns pelo profissional de visão educativa e social que você é. Deus continue te dando o dom da palavra. Porque esse é um dom que realmente muito poucos dominam com tanta propriedade.

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 17/03/2015 às 23:19

      Olá Marina, obrigado por partilhar sua impressão e por suas palavras tão gentis! Um grande abraço!

  • Responder Thiago Guedes 17/03/2015 às 19:26

    Excelente texto Pablo! Soma-se a tudo que você falou, o excesso de tempo despendido pelos pais modernos ao trabalho e a redução da interação social dos filhos, que preferem ficar presos ao mundo virtual em detrimento da convivência social. Parabéns e abraços meu amigo!

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 17/03/2015 às 23:15

      Caro Thiago, obrigado pela avaliação generosa e obrigado pela complementação! A presença e dedicação dos pais é, de fato, um assunto muito relevante, na próxima semana publicaremos um texto que falará sobre isso! Espero que possa contribuir novamente para qualificar o diálogo! Quanto à questão da interação social e o mundo virtual é terreno fértil, também, para discussões futuras, muito bem lembrado! Grande abraço!

  • Responder Raquel 16/03/2015 às 16:06

    Oi Pablo, muito bom seu texto! Tema importante! Abraços!

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 17/03/2015 às 11:16

      Olá Raquel! Fico feliz que tenha gostado! Sinta-se à vontade para sugerir novos temas, sempre que desejar.

      Abraços

  • Responder Gustavo Filardi 13/03/2015 às 17:34

    teste

  • Responder PATRICIA GARCEZ 12/03/2015 às 09:04

    Olá Pablo,
    Muito interessante seu texto!
    Parabéns!
    Abçs

    Patrícia

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 12/03/2015 às 10:49

      Olá Patrícia,

      Muito obrigado pelas palavras gentis! Espero que volte outras vezes!!

      Abraços

  • Responder Nad San 11/03/2015 às 18:27

    Muito bem elaborado e completo! Amei o texto!

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 12/03/2015 às 00:24

      Que bom que gostou, Nad! Outros mais virão! Caso queira sugerir outros temas, sinta-se à vontade!!

  • Responder Virginia 03/03/2015 às 23:43

    Vivi na pele uma experiência muito semelhante. Restava-me de lazer os DVDs da banca de promoção do Wal Mart. Então por um período os sábados da minha família eram assim como o do texto. Tenho saudade dessa fase onde ausentava dinheiro e sobrava a certeza de pertença e união…

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 12/03/2015 às 00:27

      Olá Virgínia! Muito obrigado por partilhar a sua experiência! É sempre confortante saber que momentos de adversidade podem se transformar em boas lembranças, não é mesmo? Caso queira enviar sugestões, sinta-se sempre à vontade! Grande abraço!

  • Responder Kalyne 02/03/2015 às 14:42

    Muito pertinente o tema, a sociedade de consumo está gritando tão alto quanto nossas crianças sem limites gritam! E gritam pra elas, compre, compre, isso é legal, você precisa ter pra ser igual a todos na escola! Precisamos mesmo de pais criativos que busquem trazer seus valores pros filhos refletirem, se flexibilizarem e conseguirem se adaptar a realidade social dos pais, sendo felizes com eles!!!!!! Adoro conversar com você, grande colega de profissão e amigo pra todo sempre!!!! Estarei acompanhando seus passos!!!!!!! Bjs, kalyne

    • Responder Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 12/03/2015 às 00:31

      Oi Kalyne!! Muito obrigado por seu carinho e proximidade! Me alegra muito saber que posso sempre contar com suas contribuições, sempre tão sensíveis e relevantes! 🙂

    Qual sua opinião?