Cedendo a Palavra 24/10/2020

Relacionamentos abusivos: o papel da psicoterapia

 Tempo de leitura ~2 min~

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Uma das pautas muito discutidas atualmente nas redes sociais e em diversos outros contextos é o debate sobre relacionamentos abusivos, conhecidos também como relacionamentos “tóxicos”. Esse tipo de relacionamento pode ser marcado por diferentes formas de abusos: físicos, emocionais, morais, financeiros, sexuais, entre outros. Nesse momento, iremos ressaltar a existência dos abusos emocionais e psicológicos, que muitas vezes são negligenciados.

O que são abusos emocionais ou psicológicos?

Há relacionamentos que, muitas vezes, podem não vir acompanhados de violência física ou sexual, mas que de alguma forma podem ser prejudiciais por serem marcados por abusos psicológicos ou emocionais.

A violência psicológica pode ser entendida como a forma mais subjetiva de violência e inclui toda ação ou omissão que causa ou visa a causar dano à identidade, à autoestima, ou ao desenvolvimento da pessoa através de intimidação, humilhação e  menosprezo constantes¹. Parceiros que, através de críticas, comentários grosseiros e proibitivos, silêncios constantes ou olhares julgadores, podem trazer imenso sofrimento ao companheiro². Tais atitudes podem não serem vistas como abusivas, porém podem causar diversos danos à vítima: sentimento de medo, ansiedade, depressão, ideação suicida, cognição alterada e transtornos psiquiátricos¹.

Além disso, nesse tipo de relação, pode haver uma auto culpabilização por parte da vítima pelas atitudes do companheiro. Por vezes percebe-se um comportamento, por parte da vítima, de compreender as atitudes do agressor através dos próprios comportamentos, como se o motivo de tudo estar acontecendo fosse dela própria. E muitas posturas, gestos e palavras do parceiro agressivo podem acabar reforçando essas ideias. Por esse motivo, pode haver um assujeitamento, perda dos próprios desejos, objetivos e anseios. Todos esses elementos combinados podem contribuir para que o sujeito viva em função do outro em um ciclo, muitas vezes, vicioso.

Como a psicoterapia pode contribuir?

Compreender a necessidade de buscar ajuda é uma etapa muito importante para a atenuação do sofrimento, seja ele qual for. O ato de reconhecer que seja necessária alguma ajuda é o primeiro passo nessa caminhada em busca do bem-estar emocional e psicológico. O sujeito que se encontra nessa situação pode encontrar uma saída ou alívio através da intervenção de um psicólogo. A psicoterapia pode auxiliar esse indivíduo a se reencontrar, a clarear seus objetivos e traçar o seus próprios caminhos e possibilidades. Em uma situação real, um psicólogo poderia auxiliar nesse autocuidado ao contribuir com ampliação da visão e compreensão de mundo do sujeito: auxiliar a pessoa a sair do processo de culpa e estagnação nos possíveis erros cometidos e fazê-la compreender que os comportamentos do parceiro não são resposta aos próprios comportamentos ou decisões, a pessoa abusiva age dessa forma pelos próprios motivos. Precisamos romper com todos os tipos de preconceitos e reconhecer que o psicólogo está disposto a escutar, acolher e colaborar com a saúde e bem-estar de uma forma completa.

            É preciso ressaltar, porém, que o psicólogo não é o único ponto de sustentação em situações de vulnerabilidade. É de grande importância a construção e manutenção de uma rede de apoio que poderá fornecer mais segurança através dos vínculos e laços. A presença de familiares, amigos ou grupos de conversa pode contribuir para que esta pessoa se sinta acolhida e respeitada, e, até mesmo para que ela se perceba presente em um relacionamento abusivo, uma vez que este processo pode ser, muitas vezes, anterior à busca por profissionais.

Dessa forma, a união entre acolhimento, escuta qualificada e busca pelo sentido da própria vida, poderia impulsionar o sujeito a tomar atitudes realmente desejadas – por ele próprio e não motivado por uma outra pessoa-, e a conseguir se libertar desse invisível aprisionamento.

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Referências

¹ DAY, Vivian Peres et al. Violência doméstica e suas diferentes manifestações. Revista de psiquiatria do Rio Grande do Sul, v. 25, p. 9-21, 2003.

² CRUZ, Juliana Maria et al. Relacionamento abusivo: o silêncio dentro do lar. Anais do EVINCI-UniBrasil, v. 4, n. 2, p. 434-446, 2018.

Comp[ART]ilhe arte e cultura:
Imagem da capa: Marcos Guinoza
disponível em @marcosguinoza

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