Cedendo a Palavra 28/01/2019

Trabalhando demais? Como você tem gastado seu tempo?

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O trabalho já deixou de ser mera atividade para garantir o sustento. Hoje, é parte fundamental da formação da identidade das pessoas e quase um troféu — que parece ficar mais ou menos brilhante conforme o tamanho da lista de tarefas de cada um. E todos competimos para ver quem tem menos tempo. Essa é a percepção de Brigid Schulte, jornalista americana do periódico The Washington Post e autora do livro “Overwhelmed: Work, Love, and Play When No One Has the Time” (“Sobrecarregados: trabalho, amor e diversão quando ninguém tem tempo”, numa tradução livre, ainda sem edição no Brasil). Em entrevista à VOCÊ S/A, ela discute por que o ócio é malvisto e diz que as pessoas se sentem mais ocupadas do que realmente são:

Brigid Schulte afirma que ser muito ocupado é uma maneira de mostrar status e é visto como algo tão valioso que as pessoas são realmente mais felizes quando estão cheias de coisas para fazer. Quando passam por períodos de ociosidade, tendem a ficar entediadas. Há um curioso estudo de Ann Burnett, professora de sociologia na Universidade Estadual de Dakota do Norte, que mostra como a valorização da sobrecarga de trabalho aumentou ao longo dos anos. Ela analisou as mensagens de cartões de Natal enviados nos Estados Unidos dos anos 60 até hoje e notou que o tom dos recados mudou. Antes, as pessoas comentavam sobre a vida familiar e desejavam felicidades. Agora reclamam de como são ocupadas. Nós competimos para ver quem é mais ocupado. A impressão é que só vive uma vida digna quem tem muito que fazer. 

A sensação de que o ócio é ruim

Mesmo inconscientemente, muitos acham que não merecem descansar. Em um contexto de crise econômica, em que existe um volume grande de trabalho, há preocupação em não perder o emprego. Consequentemente, os profissionais se sobrecarregam. Mas, mesmo nas piores crises, é importante ter algum tempo livre. Não precisa ser férias, pode ser um momento para caminhar ou meditar. Esses períodos são fundamentais para pensar sobre o que importa para você e como está gastando seu tempo. Trabalhar em fluxos de 90 minutos e fazer intervalos é uma técnica que ajuda a incluir o descanso na rotina. Outra estratégia é colocar as atividades de lazer na agenda de trabalho até que isso se torne algo natural. 

 Mudar hábitos para ter mais tempo

Brigid também relata que evita ao máximo ser multitarefa. As pesquisas já mostraram que a maioria das pessoas só faz direito uma coisa de cada vez. Não se pode controlar o tempo, mas que é possível controlar as prioridades e as expectativas. Esse processo de aprendizagem requer trabalho — é preciso criar uma rotina para mapear o que você considera importante até que esses tópicos passem a ser parte de sua vida.  

A culpa da tecnologia na sobrecarga

A tecnologia tem grande papel nisso. Por um lado, aumenta nossa liberdade. Ao mesmo tempo, ficamos tanto tempo conectados que não paramos de trabalhar. Cada um precisa dar um jeito de não ficar grudado no smartphone. Quem não larga o celular nunca está totalmente presente, pois está sempre distraído.

O que é lazer e o que é obrigação?

O pesquisador John P. Robinson, que estuda gestão do tempo na Universidade de Maryland nos Estados Unidos, diz que as mulheres não são tão ocupadas hoje como eram nos anos 50. Surpreendente? Convida a refletir.

Existe uma categorização do tempo que nem sempre capta a realidade. O mais importante não é entender o que uma pessoa faz com o tempo, e sim como ela se sente em relação às suas atividades.

Você pode estar estudando e considerar isso um momento de lazer. Ou estar descansando, mas tão preocupado com as tarefas que esse momento não é sentido como lazer. Alguns pesquisadores chamam isso de “tempo contaminado”, quando a pessoa tem muitas coisas na cabeça e não consegue estar presente de maneira plena em suas atividades. Cada um precisa manejar o tempo e as atividades para ter a sensação de que está fazendo aquilo porque quer fazer, e encontrar a serenidade do tempo!

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Referências

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