Psicanálise 25/05/2020

Um país adoecido

Tempo de leitura ~3 min~

Trouxe para vocês um recorte traduzido do texto de Daniela Boianovsky, "A sickened country", disponível em "Psychoanalysis Today". Vale a pena ler o texto completo aqui:  Link

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Tristeza, perplexidade, impotência. Sentimentos que nos acompanham quando testemunhamos a fenda que se abre em nosso país, resultante de uma intensa polarização que vem marcando nossas discussões no campo político, social e ideológico. Relatos sobre discussões apaixonadas, atravessadas, muitas vezes, pelo ódio àquele que se encontra no polo oposto, trazem histórias de rupturas dolorosas ou conduzem o interlocutor a optar pelo não dito, a silenciar sobre suas diferenças em nome da sobrevivência de alguns de seus investimentos afetivos ou até mesmo, em situações extremas, da preservação de sua integridade física. Uma cisão que desnuda o adoecimento de nosso país, que nos desafia, em nossa perplexidade, a pensar alguns fios da trama que nos trouxeram até aqui. Muitas são as pontas para se puxar desse novelo.

Das dificuldades vividas pelo país às narrativas cindidas

Atravessados pela subjetividade de cada um, os acontecimentos que vêm mobilizando a nossa população são revestidos de narrativas diversas, verdadeiras realidades paralelas, que carregam o caráter intangível do fato e os desejos que nele são investidos. Nas dificuldades vividas pelo país, no desamparo sofrido por uma sociedade marcada por intensa desigualdade no exercício de sua cidadania e acesso à saúde, educação, moradia e emprego, o fosso crescente entre as diferentes parcelas de nossa população é parte integrante de nossa história, desde os seus primórdios colonialistas, e a faz vulnerável e suscetível à construção de novos campos de conflito e polarizações. Numa estrutura escravocrata formadora de uma elite que cunhou sua identidade através de privilégios, políticas públicas inclusivas que visam maior distribuição de renda e serviços provocam ressentimento e resistência nos grupos detentores do poder econômico, político e social.

Em meio a grave crise econômica, denúncias e condenações por corrupção, à crescente violência urbana e elevada taxa de desemprego, a procura por inimigos que possam ser responsabilizados pelas frustrações e assim ‘organizar’ um mundo que se apresenta hostil, por um lado, e a articulação de parte significativa de nosso sistema jurídico, parlamentar e midiático pela disputa do poder, por outro, trazem o ambiente para mais uma vez manifestarmos a realidade – interna e externa – cindida entre o bom e o mau, entre o bandido e o herói.

Divididos entre o amor e o ódio cegos

Nossa sociedade comporta-se, em sua maioria, conforme a descrição trazida por Freud (1921) em seu estudo sobre a psicologia das massas: adere ao grupo com o qual se identifica, fortalece ali seus laços libidinais e sua necessidade de pertencimento, e faz do pensamento adverso alvo de ódio e intolerância. Uma polarização extremada é forjada por aqueles que visam a aniquilação do outro quando buscam, por exemplo, deslegitimar o confronto de ideias ao tratá-las, indiscriminadamente, como expressão de uma radicalização ideológica odiosa do ‘campo oposto’, especialmente quando este é considerado porta-voz do espectro progressista.

Cisão e fragmentação invadem nosso tecido social e colocam em risco um jogo político que até então vinha conseguindo conter e negociar as diferenças, esgarçando, assim, a costura do laço democrático. O exercício de uma reflexão dialética forma ilhas de resistência entre aqueles que lutam pela sustentação da própria democracia.

A atuação do ódio e da destrutividade passam a ter livre trânsito no país, estimuladas e autorizadas por uma liderança perversa que emerge, em meio a esta polarização radical, com a promessa de representar a mudança na configuração político-econômica que muitos anseiam: num jogo de identificações e comunicação direta através de suas redes sociais, contracena com seus seguidores, compartilha o afrouxamento de suas inibições e o ataque constante às nossas instituições.

Dos porões de nossa mente, surgem atuações que revelam um funcionamento que faz do ódio força propulsora e unificadora de um grupo que foi determinante na escolha, pelo voto, desta mesma liderança como governante do país, um líder autoritário, incapaz de lidar com a pluralidade e o contraditório, que manifesta seu desejo de excluir aquele que se interponha às suas demandas narcísicas. A fantasia do pai onipotente que observamos na infância, ou mesmo na horda primeva, ronda as nossas esquinas.

Leia mais: O sujeito contemporâneo e a demanda de cura
Uma constante e difícil elaboração

São muitas as feridas que encapsulamos nestes quinhentos anos de Brasil, e que ecoam na intensa desigualdade e sofrimento que encontramos em nossas ruas. Nossa luta pela democracia é antiga e ainda está em curso. Diante do recrudescimento de todo tipo de intolerância que observamos aqui e em outros lugares do mundo, da atuação ruidosa da pulsão de morte que testemunhamos nos transbordamentos de destruição e ódio.

A construção de caminhos que nos resgate do lugar paralisante e estéril que é o da cisão é tarefa árdua para cada um de nós. Frente à ameaça do autoritarismo que pulsa em nosso país, é necessário que possamos transformar a atual polarização em um confronto funcional e criativo, capaz de tolerar as diferenças, de frear o ataque ao pensamento e defender o exercício pleno do Estado de Direito.

Precisamos abrir mão de nossas defesas onipotentes e lidar com o mal-estar da condição humana, com as fendas e o desamparo que nos constitui; nos ‘conciliar’ com a existência incômoda de nossos sintomas e insatisfações, com as instituições que a nossa cultura produziu para regular nossas relações e nos conter e proteger, através da lei, de nossa própria potência destrutiva. Mesmo que estas instituições pareçam, por um momento, ter desistido de nós, é imprescindível que jamais desistamos delas, ou passaremos, do mal-estar na civilização, ao terror da barbárie.

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Imagem da capa: Artista Koketit – Shira Barzilay disponível em @koketit

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5 Comentários

  • Responder Lanni Edan Weathers 23/08/2020 às 17:33

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