O envelhecimento dos pais

Por muito tempo em minha vida, eu enxergava meus pais como pessoas jovens, saudáveis e prontas para qualquer adversidade que a vida estivesse disposta a apresentar. Não que eles fossem imunes às contingências da vida e, como super-heróis, evitassem o fim do mundo. Não. Apenas pensava que não era o momento de ter a preocupação que carrego hoje.

Não sei quando começou, mas hoje percebo que aqueles pais que resolviam tudo sem quase nenhuma intervenção minha estão, a cada dia, se apagando. Tento me consolar dizendo para mim mesmo que a mudança de ritmo se deve ao fato de eles estarem aposentados e não precisarem mais digladiar contra os infernais boletos que se apresentam com a mesma força de antes, ou até mais fortes. Mas eu sei que não é isso.

Uma sociedade envelhecida

Procuro por dados e constato que não estou sozinho. A cada nova pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a imagem de um país cada vez mais velho se consolida. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), publicados em 2023, revelam que a população com 60 anos ou mais já representa 15,6% do total, superando a marca de 32 milhões de pessoas. Mas não é isso também.

Conheço histórias de muitas pessoas que, diferentemente de mim, não passam por essa preocupação. Amigos que perderam seus pais ou as figuras que assumiram a parentalidade muito cedo ou no meio do caminho. Eu via nessas pessoas a dor, mas não conseguia senti-la. Acompanhei e acompanho os lutos delas, muitos que perduram até hoje. Do amigo que queria muito que os seus filhos tivessem a presença dos avós. Da filha que desejava ter entrado, durante o seu casamento, ao lado do pai, no caminho do altar na igreja. Das palmas que não estavam lá quando o mestrado foi concluído com todos os méritos. De uma palavra quando tudo parecia desabar. Enfim, são inúmeros os exemplos vivos da falta.

Entretanto, só posso falar por mim e da minha preocupação que se resume num apagamento mais lento, de uma falta mais vagarosa do par mãe e pai. Sim, talvez seja isso: a falta.

O confronto com a finitude

Imediatamente, vem à minha memória um filme maravilhoso de proporção igualmente angustiante, do italiano Ettore Scola. O filme de 1987 em questão é “A Família“. Assisti a essa obra de arte quando morava fora do país, numa escolha infeliz, já que não via meus pais há um ano e meio. Não preciso dizer que, se a saudade e a angústia já estavam batendo na porta do meu modesto quartinho, depois de conhecer a história contada por Scola, a porta, o quartinho e o hostel desintegraram de vez.

Falando um pouco do filme, ele se desenrola inteiramente dentro das paredes de um apartamento em Roma do pós-guerra. De início, a efervescência de uma família numerosa: nascimentos, casamentos, banquetes ruidosos e discussões apaixonadas que preenchem cada cômodo. Mas aí o estômago faminto da falta começa a roncar. Aos poucos, quase imperceptivelmente, a vida pulsa com menos vigor. Os filhos partem, os pais envelhecem, os espaços outrora cheios de vozes tornam-se eco de memórias. A casa, que antes parecia um conjunto de vidas e histórias, começa a se apagar junto com seus habitantes. Cada partida, cada ausência, cada objeto esquecido é um lembrete sutil da passagem implacável do tempo.

A casa se fecha. A falta se completa. O filme “A Família” é, portanto, um tributo comovente à memória. É um lamento universal sobre a finitude. Está aí: talvez seja possível que a minha preocupação seja a tal finitude, que agora não se resume exclusivamente aos meus pais, mas à minha também.

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Autor(a)

Fábio Saldanha Peixoto

Psicólogo (CRP 04/82914) pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Psicanalista. Produtor editorial e jornalista (PUC MG).

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