“Pai não é coadjuvante da mãe, é seu complementar. Paternidade é a atitude de estar pronto a atender seus filhos, sem esperar que a mãe peça.” Içami Tiba.

Eu tive um pai ausente

Essa não é uma história incomum nem pertence apenas ao passado de uma geração que já chegou à vida adulta. Ainda hoje, pais ausentes são o presente de muitas crianças. E que presente! É quase como ganhar um par de meias no Natal. Felizmente, há muitos pais efetivamente presentes na vida dos filhos. Mas esse papo fica para a coluna “Pai Criativo”. Por ora, vamos nos ater aos ausentes, e essas relações se dão de muitas maneiras.

Há aqueles “pais fantasmas”. Ninguém sabe dizer exatamente como são ou onde estão. Existem apenas como vultos na história das crianças. Deles, talvez tenha restado uma narrativa assustadora, com direito à trilha sonora de uma porta rangendo. Não podemos esquecer dos “pais de Instagram” ou dos “pais a cada 15 dias”. Pois, eles até estão presentes de corpo físico, mas ausentes de afeto. Podemos pensar que isso já é uma evolução? Talvez. Afinal, ali já existe um recipiente — ainda que vazio.

Por fim, há os chamados “pais provedores”. Pode-se dizer que eles estão de corpo e, em alguns momentos, até participam da vida dos filhos, mas costumam restringir sua atuação ao sustento material. Concedo a esses dois últimos grupos o benefício da dúvida: muitos pais podem amar os próprios filhos, mas nem sempre conseguem transformar esse sentimento em presença afetiva e responsabilidade cotidiana. Alguns não conversam, não dividem responsabilidades, não acolhem as dores, não participam dos cuidados cotidianos, não incentivam nem celebram as conquistas dos filhos. Estão ali, mas nem sempre se fazem presentes.

De maneira geral, essa ausência deixa suas marcas.

“A vida é preferível, com suas feridas e dores, a esta morte do coração que se chama indiferença.” Balzac

Como a ausência pode ser vivida pela criança

Lopes (2012) indica que o “afeto proveniente da presença dos pais é o que permite à criança construir e ocupar imaginariamente um lugar privilegiado no desejo do Outro. A privação precoce dessa experiência retorna sob a forma de uma diversidade de sintomas, na medida em que prejudica ou até mesmo impede a construção deste lugar libidinal imaginário necessário ao desenvolvimento da vida social como um todo“.

Sentir-se amado e cuidado contribui para o desenvolvimento psíquico da criança. No entanto, o afeto precisa se expressar em ações concretas, como escuta, proteção, disponibilidade e responsabilidade. Quando um adulto importante não responde às necessidades da criança, ela pode sentir tristeza, rejeição, raiva, insegurança ou confusão. Além disso, também podem imaginar que causaram o afastamento ou concluir que não são amadas.

A ausência crônica ou o baixo envolvimento de um cuidador pode estar associado, em alguns casos, a dificuldades emocionais, comportamentais e relacionais. A frequência da convivência, também, não revela sozinha a qualidade do vínculo. Alguém pode estar longe e participar ativamente, enquanto outro pode estar perto e permanecer emocionalmente distante.

Entretanto, todos esses efeitos variam conforme o contexto e não determinam o desenvolvimento ou a vida adulta. A qualidade de outras relações, a estabilidade da rotina e a rede de apoio também fazem diferença. Por isso, os adultos cuidadores podem oferecer explicações honestas e adequadas à idade, garantindo que a criança não é responsável pelas escolhas dos adultos ausentes.

Dessa forma, a criança pode encontrar nos adultos cuidadores figuras importantes de proteção e segurança. Logo, a ausência de um pai não determina sozinha o desenvolvimento. A qualidade de outras relações, a estabilidade da rotina, as condições de vida e a rede de apoio também influenciam a forma como cada criança atravessa essa experiência.

“Como pai, tenho que intervir. Mesmo que erre a medida e seja chato.” Fabrício Carpinejar

Como exercer uma paternidade mais presente?

É preciso que os pais se comprometam, que se façam presentes. Participar da vida dos filhos envolve acompanhar, escutar, cuidar, dividir responsabilidades, reconhecer limites e demonstrar afeto de maneira consistente. Também envolve interessar-se pela escola, pela saúde, pelas brincadeiras, pelas amizades e pelas experiências emocionais da criança.

Portanto, pai, aproveite [de verdade] o tempo com seus filhos, sem distrações. Crie um ambiente familiar de ternura e apoio. Providencie tempo dedicado à eles. Não deixe de investir amor, atenção e educação em seus pequenos.

Quando a convivência direta não é possível, o adulto pode buscar formas responsáveis de manter contato, sempre respeitando a segurança e as necessidades da criança. Em algumas situações, entretanto, o afastamento protege a criança de violência, negligência ou conflitos graves. Nesses casos, a organização do contato deve considerar a orientação de profissionais e das autoridades responsáveis.

Referência:

LOPES, R. G. De que sofrem os filhos de pais separados? Revista aSEPHallu, Rio de Janeiro, vol. VII, n. 13, nov. 2011 a abr. 2012. Disponível em www.isepol.com/asephallus

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Autor(a)

Julia Maria Alves

Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

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Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

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Comentários

  1. Rita de Cassia Leopoldo 11/08/2016 at 08:20 - Reply

    Tive um pai ausente, a história da minha vida. Ameeei! ???
    Vi o texto pelo Instagram, como faço para receber pelo email?