Qual a relação do estresse repentino com os infartos?

O estresse faz parte da vida. Diante de uma ameaça, uma cobrança ou uma mudança importante, o organismo aumenta o estado de alerta para responder à situação. Essa reação pode ser útil por um período curto. O problema aparece quando o estresse é muito intenso, frequente ou prolongado e não há tempo suficiente para recuperação.

A relação entre estresse e coração é real, mas precisa ser explicada com cuidado. Um momento de raiva, medo, luto ou tensão intensa pode funcionar como gatilho de um evento cardiovascular em algumas pessoas, especialmente quando já existem fatores de risco ou doença cardíaca. Isso não significa que todo episódio de estresse provoque infarto, nem que o infarto seja causado exclusivamente por emoções.[2]

O que acontece no corpo durante o estresse?

Quando o cérebro interpreta uma situação como ameaçadora, o organismo ativa respostas do sistema nervoso autônomo e libera substâncias como adrenalina e noradrenalina. Elas podem aumentar temporariamente a frequência cardíaca, a pressão arterial e a força de contração do coração. Também podem alterar o calibre dos vasos sanguíneos e aumentar a demanda de oxigênio do músculo cardíaco.

Essas mudanças fazem parte de uma resposta de adaptação. Em geral, diminuem quando a situação passa. Porém, exposições repetidas ou cumulativas ao estresse podem afetar o sono, o humor, a alimentação, a atividade física, o uso de álcool ou tabaco e a adesão a tratamentos. Esses caminhos comportamentais e fisiológicos podem contribuir para o risco cardiovascular, embora a intensidade desse efeito varie de pessoa para pessoa.[3]

A pesquisa mais recente indica que estresse agudo e estresse crônico não são a mesma coisa. Um evento breve e muito intenso pode precipitar sintomas ou eventos em pessoas vulneráveis. Já o estresse persistente pode se relacionar a alterações repetidas nos sistemas nervoso, vascular, imunológico e metabólico. Ainda assim, os estudos apresentam diferenças na forma de medir o estresse, e os mecanismos causais continuam sendo investigados.[3]

Estresse repentino pode causar um infarto?

Pode atuar como gatilho, mas a resposta exige contexto. O infarto agudo do miocárdio geralmente ocorre quando o fluxo de sangue para uma parte do coração é reduzido ou interrompido, muitas vezes em razão de doença nas artérias coronárias. Um episódio intenso de estresse pode aumentar a pressão, a frequência cardíaca e a necessidade de oxigênio do coração. Em determinadas circunstâncias, também pode favorecer alterações vasculares e a ruptura de uma placa de aterosclerose já existente.[2] [4]

Também existe uma condição chamada síndrome de Takotsubo, conhecida popularmente como síndrome do coração partido. Ela pode surgir após estresse emocional ou físico intenso e provocar alterações temporárias na função do coração. Apesar de se parecer com um infarto, não é a mesma condição e exige avaliação médica, exames e acompanhamento.[5]

O estresse crônico aumenta o risco cardiovascular?

A evidência indica uma associação entre estresse psicológico e maior risco de doenças cardiovasculares, mas o efeito não é igual para todas as pessoas. O risco depende de fatores como duração e intensidade do estresse, vulnerabilidade individual, condições socioeconômicas, histórico familiar, pressão arterial, colesterol, diabetes, tabagismo, sono e acesso ao cuidado de saúde.[3]

Além disso, estresse e saúde mental se influenciam. Ansiedade, depressão, trauma, isolamento social e insônia podem dificultar o autocuidado e o acompanhamento médico. Ao mesmo tempo, viver com uma doença cardíaca pode aumentar o medo, a tristeza e a preocupação. Esse ciclo merece atenção integral, sem reduzir a pessoa ao coração. Nem responsabilizá-la individualmente por condições que também são influenciadas pelo ambiente e pelas desigualdades sociais.

O cuidado psicológico pode ser uma parte importante desse processo, mas não substitui cardiologista, exames, medicação ou mudanças indicadas pela equipe de saúde. A psicoterapia pode ajudar na identificação de padrões de estresse, na regulação emocional, na elaboração de perdas, na adesão possível ao tratamento e na construção de hábitos compatíveis com a realidade da pessoa.

Ansiedade e crise de pânico podem parecer um problema cardíaco?

A ansiedade intensa e crises de pânico podem causar palpitações, tremores, falta de ar, suor, tontura, aperto no peito e sensação de perigo. No entanto, esses sintomas também podem aparecer em problemas cardíacos e outras condições médicas. Não é seguro concluir, sem avaliação, que “é apenas ansiedade”.

Por outro lado, sentir sintomas físicos durante uma crise de ansiedade não significa que a pessoa esteja inventando ou exagerando. O corpo realmente entra em estado de alerta. A avaliação profissional ajuda a investigar causas médicas e psicológicas, reduzindo tanto o risco de negligenciar um problema cardíaco quanto o de manter medo e preocupação sem cuidado adequado.

Como cuidar da saúde emocional e do coração?

Não existe uma técnica capaz de “blindar” o coração contra todas as dificuldades. Há, porém, medidas que podem favorecer a saúde global quando adaptadas à situação de cada pessoa.

Comece observando quando o estresse aparece, quais pensamentos o acompanham e como ele afeta o sono, a alimentação, os relacionamentos e o corpo. Se for possível, organize pausas, mantenha algum movimento físico conforme orientação profissional, proteja o sono, reduza o uso de tabaco e evite o consumo excessivo de álcool. O acompanhamento clínico é especialmente importante quando já existem hipertensão, diabetes, colesterol elevado, doença cardíaca ou histórico familiar relevante.

Também vale construir espaços de recuperação: conversar com pessoas de confiança, realizar atividades prazerosas, cultivar hobbies, praticar uma técnica de respiração ou relaxamento e estabelecer limites para situações que mantêm o organismo em alerta. Essas estratégias não precisam ser perfeitas nem realizadas todos os dias para terem valor.

Quando a principal fonte de estresse é o trabalho, a violência, a insegurança financeira, o cuidado de familiares ou outro problema estrutural, a solução não depende apenas de “pensar positivo”. Pode ser necessário buscar apoio social, negociar responsabilidades, acessar serviços públicos, conversar com a organização ou procurar orientação profissional. A saúde emocional não deve ser tratada como responsabilidade exclusivamente individual.

A psicoterapia

O papel da psicoterapia é cuidar dos aspectos psicológicos que podem acompanhar o estresse e a doença: medo, ansiedade, tristeza, irritabilidade, culpa, dificuldades de adaptação, luto, mudanças de identidade e receio de uma nova crise. Em conjunto com o cuidado médico, o acompanhamento psicológico pode ajudar a compreender a relação entre pensamentos, emoções, comportamentos e contexto de vida. A meta não é eliminar todas as emoções difíceis, mas desenvolver maneiras mais flexíveis e sustentáveis de lidar com elas, respeitando os limites e as necessidades de cada pessoa.

Cuidar da saúde emocional não significa ignorar sintomas físicos. Significa olhar para a pessoa inteira e integrar, quando necessário, o cuidado psicológico ao acompanhamento médico.

Referências bibliográficas

[1]: “Ministério da Saúde. SAMU 192.”
[2]: “Vaccarino V, Bremner JD. Stress and cardiovascular disease: an update. Nature Reviews Cardiology. 2024;21:603–616.”
[3]: “Vaccarino V, Bremner JD. Stress and cardiovascular disease: an update. Nature Reviews Cardiology. 2024;21:603–616.”
[4]: “Mostofsky E, Penner EA, Mittleman MA. Outbursts of anger as a trigger of acute cardiovascular events: a systematic review and meta-analysis. European Heart Journal. 2014;35(21 ):1404–1410.”
[6]: “American Heart Association. Warning signs of a heart attack.”

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Equipe DiálogoPsi

Somos uma equipe de psicólogos em Belo Horizonte dedicada a promover saúde mental e bem-estar. Oferecemos um espaço seguro de escuta através da Psicoterapia, além de suporte especializado em Orientação Profissional e Avaliação Neuropsicológica.

RT - Júlia Maria Alves CRP04/30.828

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Comentários

  1. Adriana Paula vitorini 23/10/2015 at 10:52 - Reply

    Nossaaa, verdade! Adorei o blog