O silêncio e a saúde mental: quando uma pausa pode ajudar

Vivemos em um ritmo que parece exigir respostas imediatas o tempo todo. Entre notificações, conversas, tarefas, preocupações e o relógio, o silêncio pode aparecer como um momento estranho e, para algumas pessoas, até desconfortável.

Ainda assim, uma pausa silenciosa pode oferecer uma oportunidade de diminuir o ritmo e perceber o que está acontecendo internamente. Isso não significa que o silêncio seja uma solução para todos os problemas, nem que seus efeitos sejam sempre positivos. Seu significado depende da situação, da pessoa, da duração da pausa e do que ela encontra quando os estímulos diminuem. Isso porque, longe de ser vazio, o silêncio é um espaço cheio de coisas.

O que o silêncio pode oferecer?

Silenciar, às vezes, é um gesto de coragem. Em meio a um ritmo que não desacelera e a estímulos que não cessam, fazer uma pausa pode parecer quase um ato de resistência. Mas é justamente nessa pausa que algo se desvela: o silêncio não é necessariamente vazio. Em determinadas circunstâncias, pode criar espaço para se notar sensações, emoções e pensamentos que passariam despercebidos no meio da agitação cotidiana.

Para algumas pessoas, esse intervalo ajuda a organizar uma resposta ou as emoções antes de falar ou agir; para outras, pode trazer inquietação, tristeza ou ansiedade. Por isso, é importante evitar generalizações.

Um estudo que acompanhou 178 adultos durante 21 dias não encontrou uma quantidade ideal de tempo a sós que funcionasse para todas as pessoas. Em alguns dias, mais tempo em solitude esteve associado a mais solidão e menor satisfação; em outros, esteve associado a menos estresse e maior sensação de autonomia. Quando o tempo a sós era escolhido pela própria pessoa, as associações negativas diminuíam ou desapareciam.

Silêncio, tempo a sós, solidão e isolamento: qual é a diferença?

Essas experiências podem aparecer juntas, mas não são sinônimas. A diferença é importante: alguém pode passar um tempo sozinho e sentir-se bem conectado, assim como pode estar cercado de pessoas e sentir-se solitário. Em outras palavras, como disse antes, uma pausa escolhida não é a mesma coisa que afastamento imposto. Ter algum tempo consigo pode ser restaurador, mas isso não significa que seja necessário se isolar, nem que passar mais tempo sozinho sempre faça bem.

O pediatra e psicanalista Donald Winnicott descreveu o que chamou de capacidade de ficar só como um dos sinais mais importantes de maturidade emocional. E, curiosamente, mostrou que essa capacidade nasce de uma experiência que não é solitária: a de estar só na presença de alguém. Na infância, é o bebê que consegue brincar sozinho no mesmo cômodo em que a mãe está por perto, sem precisar de sua atenção constante, que mais tarde consegue ficar bem consigo mesmo. Ou seja: a capacidade adulta de aproveitar o silêncio e o tempo a sós não surge do isolamento, mas é construída a partir de vínculos que sustentaram essa experiência antes.

O silêncio nas relações

Em uma conversa, nem todo silêncio indica falta de interesse. O silêncio dá contorno à palavra. Às vezes, dá o tempo para que a outra pessoa termine de pensar, encontre palavras ou seja ouvida sem precisar preencher imediatamente cada intervalo. Ele também ensina sobre algo essencial: a presença; pois nem tudo precisa ser dito e, muitas vezes, o simples ato de ‘estar presente’ já é suficiente.

É claro que o o silêncio também pode ser entendido como hesitação, desconforto, afastamento ou interrupção. E o sentido não está apenas na duração da pausa, mas na relação entre as pessoas, no momento da conversa, no tom anterior e no que acontece depois. Assim, escutar com atenção não significa permanecer calado a qualquer custo: também envolve estar com o outro e poder perceber quando é necessário perguntar, acolher, esclarecer ou responder.

O silêncio na psicoterapia

Na psicoterapia, o silêncio pode fazer parte do trabalho clínico, mas não é uma técnica neutra e não tem um significado único. Seu sentido é construído na relação terapêutica, levando em conta a história, o momento e a experiência de quem está em atendimento. Ele pode acompanhar um momento de reflexão, permitir que a pessoa desenvolva uma associação ou indicar que algo difícil de nomear está se aproximando da fala. Mas, também pode expressar dúvida, resistência, vergonha, desorganização, desengajamento ou uma dificuldade na própria relação terapêutica.

Wilfred Bion ofereceu um conceito útil para entender por que o silêncio do terapeuta não é passividade: a função de reverie. Ou seja, a capacidade de acolher internamente aquilo que o paciente ainda não consegue elaborar em palavras, devolvendo-o de forma mais organizada. Nessa perspectiva, mesmo quando não fala, o terapeuta está processando ativamente o que se passa entre os dois: o silêncio é parte do trabalho clínico, não ausência dele.

Uma pesquisa sobre silêncios em psicoterapia reforça justamente essa complexidade. Uma revisão integrativa de 33 estudos encontrou associações tanto com processos produtivos, como insight e simbolização, quanto com dificuldades, como desengajamento. Os autores destacam que os resultados tendem a ser melhores quando o psicoterapeuta compreende a função daquele silêncio e responde de maneira responsiva e estratégica.

Por isso, não é adequado imaginar o terapeuta como alguém que deve permanecer calado durante toda a sessão, mas o seu silêncio é importante quando o trabalho clínico exige escuta e presença. Além de ter discernimento para reconhecer quando a pausa favorece a elaboração e quando ela precisa ser acolhida, esclarecida ou interrompida.

O silêncio nas práticas terapêuticas

Práticas de meditação e Mindfulness costumam envolver momentos de silêncio e atenção ao presente, ali ele se torna um aliado gentil. Nos convidando a nos voltar para o agora, sem exigência, sem julgamento. Aos poucos, esse encontro com o presente pode aliviar o peso do estresse, trazer mais clareza para a mente e cultivar um estado interno de maior aceitação.

Esse resultado não significa que qualquer pausa silenciosa produza o mesmo efeito, nem que a meditação substitua psicoterapia, avaliação psicológica ou tratamento médico quando eles são necessários. Especialmente porque, para muitas pessoas, esse silêncio contemplativo não é imediatamente confortável. E, se uma prática silenciosa aumentar de forma importante a ansiedade, a sensação de desorganização ou o sofrimento, não é preciso insistir para “fazer dar certo”. Pode ser mais adequado reduzir o tempo, manter os olhos abertos, escolher uma atividade de atenção ao corpo ou ao ambiente e conversar com um profissional de saúde mental.

Referências

  • Weinstein, N., Nguyen, T. V., & Hansen, H. (2023). Balance between solitude and socializing: everyday solitude time both benefits and harms well-being. Scientific Reports, 13, 21160. https://doi.org/10.1038/s41598-023-44507-7
  • Levitt, H. M., & Morrill, Z. (2023). Silences in psychotherapy: An integrative meta-analytic research review. Psychotherapy, 60(3), 320–341. https://doi.org/10.1037/pst0000480
  • Winnicott, D. W. (1958). The capacity to be alone. International Journal of Psycho-Analysis, 39, 416–420.
  • Bion, W. R. (1962). Learning from Experience. London: Heinemann.

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