Como lidar com o luto? Como atravessar a dor de perder alguém que amamos? Essas perguntas voltam com força em datas como o Dia de Finados — mas atravessam, na verdade, a vida inteira.

A vida é feita de perdas, grandes e pequenas. Existem lutos por mortes e separações, por expectativas que não se realizaram, pela infância que passou, pelo filho que cresceu e nos obriga a nos reinventar como pais, pelo emprego que buscamos depois de formados, pelo próprio envelhecimento. Cada fase traz consigo mudanças — e mudanças, mesmo as esperadas, também pedem um trabalho de luto.

A animação MovingOn ("Seguindo em Frente", em tradução livre), do premiado Ainslie Henderson, ilustra bem essa experiência: um dos bonecos de lã que protagonizam a história vai se desfazendo, enquanto o outro precisa aprender a lidar com sua ausência. A metáfora mostra, de forma simples, o quanto nos apegamos às pessoas e o quanto é difícil "deixar ir".

O trabalho de luto

Foi Freud quem cunhou a expressão “trabalho de luto”, em seu texto clássico Luto e Melancolia (1917). Para ele, elaborar uma perda exige um processo psíquico ativo: reconhecer a ausência, sentir a dor que ela traz e, aos poucos, redirecionar a energia afetiva que antes estava depositada na pessoa ou na situação perdida. “Seguir em frente” não significa esquecer ou substituir quem se foi — significa encontrar um novo lugar, dentro de si, para essa relação.

O tempo e o caminho da elaboração são diferentes para cada pessoa. E, ao contrário do que muita gente pensa, ir mais fundo na dor — em vez de fugir dela — costuma ser parte necessária do processo. Nem todo mundo consegue, ou se permite, atravessar o luto de frente. Diante da perda, algumas pessoas desenvolvem uma excitação que substitui a tristeza esperada — viagens, festas, gastos, excesso de trabalho ou de lazer, tudo que ajude a não parar e não sentir. É a “volta por cima” a qualquer custo.

O problema é que essas soluções, embora aliviem no curto prazo, não substituem a elaboração de fato. Segundo Klein, é o processo oposto — poder falar, sentir, entristecer-se e, só então, voltar à tona — que permite ao luto cumprir sua função: promover mais integração e amadurecimento psíquico.

Luto normal e luto que se prolonga

É importante distinguir o luto normal, esperado, de um luto que se cronifica. Freud já apontava essa diferença em 1917, mas a ciência avançou bastante desde então: em 2022, o DSM-5-TR (o manual diagnóstico da Associação Americana de Psiquiatria) passou a reconhecer oficialmente o Transtorno do Luto Prolongado como categoria diagnóstica, definindo com mais precisão quando a dor da perda deixa de seguir seu curso esperado e passa a exigir atenção especializada.

Isso não significa que exista um prazo fixo para “superar” uma perda. A pesquisa atual sobre luto (Stroebe & Schut, 1999) mostra que o processo não é linear: as pessoas oscilam entre momentos de confronto direto com a dor e momentos de retomada da vida prática. É essa oscilação — e não uma sequência fixa de etapas — que caracteriza o luto saudável.

O espaço que falta

Vivemos numa sociedade que tolera pouco a tristeza. Há uma cobrança implícita para sermos sempre felizes e produtivos, e o espaço para a fragilidade fica cada vez menor — inclusive dentro da própria psiquiatria: pesquisadores de peso já apontaram os riscos de tratar toda tristeza pós-perda como um transtorno a ser medicado precocemente (Wakefield & First, 2012), sem dar tempo para que o processo natural de elaboração aconteça.

O luto pede o oposto da pressa: um tempo de recolhimento, quase uma convalescença psíquica, até que a pessoa possa retomar, aos poucos, seu investimento no mundo. Quando esse tempo não é respeitado — ou quando o processo se prolonga além do esperado —, o luto pode se cronificar em estados de melancolia, ressentimento ou desvitalização.

Buscar apoio

Além da elaboração individual, o apoio da rede social e certos rituais culturais — velórios, homenagens, datas como o Dia de Finados — cumprem um papel importante na travessia do luto. E, quando a dor parece não encontrar caminho sozinha, o acompanhamento psicoterapêutico pode ajudar a atravessar esse processo com mais recursos e menos solidão.

AAssista a animação e acompanhe a música. Link para letra da música: Clique aqui

Referências

  • Texto atualizado: Jan/2026
  • Freud, S. (1917/1996). Luto e melancolia. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.
  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). Washington, DC.
  • Stroebe, M., & Schut, H. (1999). The dual process model of coping with bereavement: Rationale and description. Death Studies, 23(3), 197–224.
  • Wakefield, J. C., & First, M. B. (2012). Validity of the bereavement exclusion to major depression: does the empirical evidence support the proposal to eliminate the exclusion in DSM-5? World Psychiatry, 11(1), 3–10.

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Autor(a)

Julia Maria Alves

Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

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Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

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Comentários

4 Comentários

  1. Jéssica 11/03/2015 at 09:20 - Reply

    Estava grávida pela segunda vez, já havia perdido a primeira e resolvi guardar segredo, Até que um dia falei para meu esposo, minha mãe e poucos amigos… Era numa segunda.. Dois dias depois, abortei… impossível esquecer… :-(

  2. celia 11/03/2015 at 09:51 - Reply

    PERDIR MEU FILHO,DOR QUE NÃO PASSA QUE A CADA DIA CRESCE DENTRO DE MIM ,MEU FILHO FOI ASSASSINADO E TUDO PARECE QUE FICA NA MINHA CABEÇA COMO NO DIA, TODOS OS DIAS SÃO IGUAIS AO DIA DA SUA MORTE EM MINHA CABECA

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