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Nem toda distração é TDAH
Esquecer compromissos, perder o foco ou adiar tarefas pode acontecer com qualquer pessoa. Uma fase de estresse ou excesso de demandas também pode dificultar a concentração. Por isso, episódios de distração — mesmo que persistentes e incômodos — não bastam para indicar Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
Sono insuficiente, estresse prolongado, ansiedade, depressão, luto, uso de substâncias, condições médicas e dificuldades de aprendizagem podem afetar a atenção ou simular sinais parecidos ao TDAH por longos períodos. Essas possibilidades precisam ser investigadas sem presumir que uma exclui a outra.
E isso vai depender da avaliação conjunta do quadro: quando os sinais começaram, com que frequência aparecem, em quais situações ocorrem e quanto interferem na vida. É importante uma avaliação profissional para esclarecer se as dificuldades são compatíveis com TDAH ou se há outra explicação.
O que diferencia o TDAH?
De forma geral, para considerar o diagnóstico, o profissional investiga os sintomas observando critérios como:
- Início na infância: Vários sintomas já estavam presentes antes dos 12 anos, ainda que o diagnóstico seja feito mais tarde na vida.
- Número de sintomas: existe um número mínimo de sintomas de desatenção e/ou hiperatividade impulsividade, conforme a idade e que são inadequados para o nível de desenvolvimento;
- Persistência: Eles duram ao longo do tempo, por pelo menos seis meses e não aparecem apenas durante uma fase difícil ou passageira.
- Presença em vários ambientes e impacto real: Eles ocorrem em mais de um contexto (como no trabalho, em casa ou na vida social) e trazem prejuízos reais para a vida e a funcionalidade da pessoa.
- Outras explicações: é preciso avaliar se outra condição ou circunstância explica melhor os sinais. Também pode haver mais de uma condição ao mesmo tempo.
O que é o TDAH?
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, associado a um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade, que afeta de 5% a 8% das crianças em todo o mundo (Santos, 2025). Isso significa que ele tem origem na forma como o cérebro funciona e se desenvolve desde a infância, contando com uma forte influência genética (herdabilidade).
O transtorno impacta principalmente a atenção, o controle dos impulsos e as funções executivas (que são as capacidades que usamos para planejar, organizar, iniciar e concluir uma tarefa). Como se dão cada um desses impactos na prática?

- Desatenção: Pode se manifestar por meio de esquecimentos, facilidade para se distrair, perda de objetos, desorganização, falta de concentração e desatenção aos detalhes. Vale ressaltar que esses sintomas não podem ser explicados por comportamento opositor ou falta de compreensão.
- Hiperatividade: Envolve excesso de atividade motora e inquietação constante, além de dificuldade no controle dos impulsos motores.
- Impulsividade: Aparece, por exemplo, na dificuldade de esperar a própria vez, em respostas precipitadas, intromissões e interrupções frequentes nas atividades dos outros.
Agora, para o diagnóstico, esses sintomas devem respeitar aqueles critérios que citei logo acima. Ou seja, eles devem estar presentes em mais de um ambiente, interferir no funcionamento acadêmico, profissional, social e atividades da vida diária, ter início na infância, persistência e impacto real.
Em até 70% dos casos, os sintomas continuam na vida adulta (Costa, 2014) e revisões de estudos estimam que cerca de 2,5% a 5% dos adultos tenham TDAH (Santos, 2025).
O critério diagnóstico exige a persistência do padrão sintomático por pelo menos seis meses, mas os sintomas e o prejuízo podem mudar de forma ao longo do desenvolvimento e da vida dessas pessoas. Em muitos adultos, a hiperatividade motora fica menos evidente com a idade, enquanto dificuldades de atenção e organização podem continuar. Isso não significa que toda dificuldade adulta persistente de organização seja TDAH: a história desde a infância continua sendo relevante.
O diagnóstico
Como os sintomas do TDAH se sobrepõem a várias outras condições médicas, psiquiátricas, emocionais, psicossociais e ambientais, a avaliação de quem tem suspeita do transtorno deve ser ampla, envolvendo as áreas médica, educacional e psicológica. Embora a avaliação neuropsicológica não seja obrigatória, ela é extremamente valiosa para:
- Planejar intervenções no ambiente e no comportamento;
- Acompanhar a evolução e eficácia do tratamento;
- Auxiliar no diagnóstico diferencial para outras condições.
A neuropsicologia do TDAH
Nas últimas décadas, diversos estudos neurobiológicos foram realizados, incluindo pesquisas em neuropsicologia e exames de imagem cerebral. Embora, nenhum desses exames substitua o diagnóstico clínico, o avanço dessas técnicas representou um grande progresso para a área.
No próximo texto, abordaremos a neuropsicologia do TDAH.
NOTA CLÍNICA E EDITORIAL
Este texto possui caráter exclusivamente educativo e informativo. E não substitui uma avaliação psicológica, neuropsicológica ou médica formal, tampouco serve como instrumento para autodiagnóstico. Caso a condição persista ou comece a interferir na sua rotina e saúde, procure um profissional habilitado.
Créditos e Referências bibliográficas
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. ed., texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2023.
COSTA D.S., MEDEIROS D.G.M.S., ALVIM-SOARES A. e MIRANDA D.M. Neuropsicologia do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e outros transtornos externalizantes. In: Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2014.
SANTOS, D. F., MARIZ, H. D. S., HENRIQUES, H. B. C., CARVALHO, L. S. DE, SANTOS, S. S. DOS, & ANDRADE, M. I. DE. Análise da Prevalência e impactos do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) na população brasileira. In: Interference: A journal of audio culture, 2025.
MALLOY-DINIZ, L. F. et al. (org.). TDAH: aspectos neuropsicológicos e de neuroimagem e sua relação com a vida real. In: Neuropsicologia do desenvolvimento. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
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