História da psicanálise: de Freud às escolas contemporâneas

Como a psicanálise se espalhou pelo mundo após Freud e deu origem às escolas inglesa, americana e francesa.

Este é o segundo texto sobre a expansão da psicanálise após seu desenvolvimento inicial por Freud. Neste texto, você vai entender como as ideias de Freud saíram de Viena e deram origem a diferentes escolas e linhas teóricas ao redor do mundo: da Inglaterra à França, passando pelos Estados Unidos, até chegar ao Brasil. Além disso, essas novas escolas e linhas teóricas também resultaram de divergências conceituais, institucionais e clínicas. Por isso, nos próximos textos da série, vamos aprofundar essas divergências e compreender como diferentes escolas contribuíram para a constituição da psicanálise contemporânea.

Dando continuidade aos textos sobre a “História da Psicanálise”, o foco de hoje é justamente esse período de expansão. Ao longo desse processo, a psicanálise passou por momentos desafiadores e enriquecedores, construídos a partir das contribuições de profissionais ao redor do mundo. Assim, vamos explorar como a psicanálise se ampliou ao longo do tempo e influenciou diferentes contextos culturais e o campo acadêmico, o que permitiu novas formas de compreender o sujeito, o inconsciente e o sofrimento.

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Timeline história da psicanálise

Primeiros atores na expansão da psicanálise

O nascimento da psicanálise ocorreu em Viena, a partir do trabalho de Sigmund Freud (1856–1939), em um processo que teve um de seus marcos fundamentais na publicação de “A Interpretação dos Sonhos”, no final de 1899, com a data editorial de 1900. Nesse período, o novo campo começou a despertar interesse e reuniu um pequeno grupo de estudiosos. Posteriormente, em 1902, Freud passou a organizar os encontros conhecidos como ‘Reuniões de Quarta-feira‘, que, em 1908, deram origem à Sociedade Psicanalítica de Viena.

Ao longo desse processo, o grupo cresceu e, em 1908, já contava com 14 membros regulares e vários convidados estrangeiros, como Carl Gustav Jung, Karl Abraham e Ernest Jones. Desse modo, esses encontros marcaram a passagem de reuniões informais para uma organização mais estruturada. Além disso, seus pioneiros tiveram um papel essencial na criação da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), fundada em 1910, contribuindo para ampliar significativamente o alcance da psicanálise.

Paralelamente, Freud manteve contato com profissionais de outros países, o que também contribuiu para a difusão de suas ideias. Na Alemanha, por exemplo, Karl Abraham teve papel central nesse processo, tanto por suas contribuições teóricas quanto pela criação da Policlínica de Berlim, em 1920. Essa instituição foi pioneira na formação de psicanalistas e no atendimento psicanalítico. Por ali passaram nomes que se tornariam fundamentais para a psicanálise, entre eles:

  • Melanie Klein,
  • Karen Horney,
  • Helene Deutsch,
  • James Strachey,
  • Franz Alexander,
  • Michael Balint,
  • Otto Fenichel
  • Rudolph Loewenstein

Na Hungria, destacou-se Sándor Ferenczi, cuja obra teve grande impacto no desenvolvimento da psicanálise. Na Suíça, por sua vez, Paul Eugen Bleuler e Carl Jung também contribuíram para a expansão do campo. Jung, em especial, seguiu um caminho próprio após seu rompimento com Freud e, posteriormente, desenvolveu uma nova abordagem, conhecida como Psicologia Analítica.

Assim, cada um desses autores contribuiu de modo próprio para a história e para a difusão da psicanálise. São justamente essas diferenças teóricas que ajudam a explicar por que, ainda hoje, encontramos analistas orientados por perspectivas diferentes entre si. No entanto, essa expansão não seguiu um caminho linear. Ao contrário, foi marcada por aproximações, divergências e rupturas. Nesse contexto, um dos momentos mais decisivos e dolorosos da história da psicanálise estava prestes a acontecer.

A emigração dos psicanalistas e o surgimento de novas escolas

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a psicanálise passou por um período de intensos desafios. Nesse contexto, Freud, por ser judeu, foi perseguido pelo regime nazista, assim como muitos outros psicanalistas. Além disso, alguns deles, como Bruno Bettelheim, chegaram a ser enviados para campos de concentração. Como consequência, esse contexto de violência e perseguição provocou uma grande migração de profissionais. Paradoxalmente, esses deslocamentos forçados também contribuíram para a disseminação da teoria em países como a Austrália, a Argentina e o Brasil.

Na Inglaterra, por sua vez, esse movimento favoreceu a consolidação e a ampliação de diferentes tradições e grupos da Psicanálise Britânica. Nesse cenário, destacaram-se nomes como Michael Balint, Wilfred Bion, Donald Winnicott e James Strachey, um dos principais responsáveis pela tradução e edição das obras de Freud para o inglês. Além desses autores, Anna Freud e Melanie Klein também tiveram grande relevância, embora seguissem caminhos teóricos distintos.

Enquanto Anna Freud voltou sua atenção para a articulação entre pedagogia e psicanálise, aprofundando o estudo dos mecanismos de defesa. Melanie Klein, por outro lado, dedicou-se à investigação das relações de objeto. Desse modo, suas contribuições influenciaram profundamente as gerações seguintes de psicanalistas.

Nos Estados Unidos, as ideias de Anna Freud e de outros autores ganharam novos desdobramentos. A partir dessas contribuições, desenvolveu-se o que, posteriormente, se configurou como Psicologia do Ego. Entre seus principais representantes e interlocutores estão Heinz Hartmann, Margaret Mahler e Otto Kernberg. Em linhas gerais, essa abordagem trouxe um novo foco ao enfatizar o papel do ego na organização e no funcionamento da vida psíquica.

Lacan e o retorno à Freud

Mesmo após a morte de Sigmund Freud, em 1939, a Psicanálise seguiu se expandindo e ganhando novas formas ao redor do mundo. Na França, esse movimento foi impulsionado por Marie Bonaparte, analisanda e amiga próxima de Freud, que teve papel importante na tradução e difusão de suas obras no país. Outra figura de destaque foi Françoise Dolto, reconhecida por seu trabalho com crianças, especialmente em contextos de vulnerabilidade.

Nesse cenário, Jacques Lacan (1901–1981) se consolidou como um dos principais nomes da psicanálise francesa. Inicialmente vinculado à Sociedade Francesa de Psicanálise, fundada em 1953, Lacan propôs uma releitura da obra freudiana e defendeu um “retorno a Freud”. Esse retorno não significava repetir Freud literalmente, mas reler seus fundamentos e recuperar a especificidade da experiência psicanalítica, especialmente a função da fala, da linguagem e do inconsciente. Em 1964, após seu rompimento com a Associação Psicanalítica Internacional (IPA), Lacan fundou a Escola Freudiana de Paris, que se tornou uma referência internacional no campo psicanalítico.

A orientação lacaniana encontrou ampla recepção no Brasil. Diversas instituições trabalham a partir do ensino de Lacan, enquanto outras seguem orientações psicanalíticas distintas, como as tradições britânica e norte-americana. Esse cenário contribui para a pluralidade e para o debate no campo da psicanálise contemporânea.

parte 2 desse texto

No próximo texto...

… continuaremos a falar mais sobre a história da expansão da Psicanálise e suas ramificações até os dias atuais.  Aqui está o link para o próximo texto.

Referências bibliográficas

  • DUNKER, C. I. L. – Aspectos Históricos da Psicanálise Pós-Freudiana In: História da Psicologia – Rumos e Percursos. Rio de Janeiro: Nau, 2006, v.1, p. 387-412. – Você pode achar o livro na Amazon.
  • FREUD, S. (1996). Contribuição à história do movimento psicanalítico. In: Obras completas, vol11: Totem e tabu, Contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos (1912/1914) / Sigmund Freud; tradução Paulo César de Souza – 1ª Ed – São Paula: Companhia das letras, 2012.
  • JONES, E. (1953-1957). A vida e obra de Sigmund Freud (3 vols.).  tradução de Júlio Castafion Guimarães. – Rio de Janeiro: Imago Ed. – Você pode achar o livro na Amazon.

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Autor(a)

Julia Maria Alves

Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

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