A História da Psicanálise
No texto anterior, exploramos o primeiro momento da expansão da Psicanálise pelo mundo. Começamos pelas “Reuniões de Quarta-feira”, em 1902, quando Sigmund Freud se reunia com seus primeiros discípulos. Em seguida, acompanhamos a criação da Sociedade Psicanalítica de Viena, em 1908, e a fundação da Associação Psicanalítica Internacional, em 1910. Desse modo, consolidando a psicanálise como um campo institucionalizado.
Também vimos como o avanço do nazismo e a eclosão da Segunda Guerra Mundial impactaram profundamente esse movimento. A emigração de Freud e de muitos outros psicanalistas contribuiu para levar a psicanálise a diferentes partes do mundo. Como consequência, a Psicanálise ganhou presença mais marcante nos Estados Unidos e na Inglaterra.
Além disso, acompanhamos o crescimento da psicanálise nos Estados Unidos e o surgimento de desenvolvimentos como a Psicologia do Ego e diferentes vertentes da psicossomática. Também discutimos o aparecimento de novas abordagens a partir de rupturas com o pensamento freudiano, como a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. Por fim, passamos pela psicanálise francesa e pelo rompimento institucional de Lacan com a Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Lacan, no entanto, não rompeu com o pensamento freudiano. Ao contrário, propôs um “retorno a Freud”.
Diante de toda essa trajetória, surge uma pergunta inevitável: Como está a psicanálise hoje? É isso que vamos explorar a seguir.
As transformações propostas por lacan
Ao olharmos para a psicanálise na atualidade, percebemos transformações importantes, especialmente no modo como os analistas são formados. Nos primeiros anos do movimento, algumas instituições ligadas à Associação Psicanalítica Internacional estabeleceram regras mais padronizadas para a formação, incluindo exigências relativas à análise didática, à supervisão, ao estudo teórico e à frequência das sessões.
A partir dos questionamentos de Lacan, especialmente na década de 1960, esse modelo passou a ser interrogado. A proposta lacaniana não consistia simplesmente em tornar a formação mais flexível ou menos hierárquica. Ela questionava a possibilidade de reduzir a formação do analista a um percurso burocrático e padronizado. Ainda assim, permanecem fundamentais os elementos do chamado tripé da formação: análise pessoal, supervisão clínica e estudo teórico, articulados ao trabalho de transmissão e à elaboração sobre a experiência analítica.
O setting analítico e a prática contemporânea
Outra mudança importante ocorreu no setting analítico. Ao propor um “retorno a Freud”, Lacan também questionou a padronização rígida de alguns aspectos da prática. Em vez de considerar a duração da sessão como um intervalo fixo e independente do trabalho clínico, levou em conta a função do tempo na fala e na interpretação. Por isso, não devemos entender a chamada sessão de tempo variável como uma simples adaptação administrativa ou como uma redução arbitrária do atendimento. Ao contrário, ela se relaciona à direção do tratamento e ao modo como o corte pode produzir efeitos na fala do sujeito.
Nesse contexto, continua central a regra fundamental formulada por Freud: a associação livre. Por meio dessa regra, o analista convida o paciente a dizer o que lhe vier à mente, sem selecionar previamente o que parece importante ou adequado. Na orientação lacaniana, essa fala não é escutada como uma narrativa transparente sobre a pessoa. Ainda assim, ela pode apresentar lapsos, repetições, equívocos e outras formações do inconsciente.
Como toda prática viva, a psicanálise acompanha as transformações de seu tempo. No entanto, isso não significa simplesmente adaptar-se ao ritmo da vida contemporânea. Se, em seus primórdios, os analistas realizavam sessões várias vezes por semana, hoje existem diferentes formas de organização do tratamento. A direção de cada caso deve orientar a frequência e o manejo do tempo, e não apenas a conveniência ou a pressa.
Assim, mudanças na prática não significam necessariamente perda de rigor. Elas podem expressar diferentes maneiras de sustentar os fundamentos da psicanálise diante das condições sociais e culturais de cada época. Além disso, a psicanálise mantém sua relevância. Ela segue presente no meio acadêmico, em instituições e na prática clínica, sustentando uma produção teórica consistente e acompanhando os desafios do mundo contemporâneo, inclusive as novas formas de sofrimento psíquico.
Os sintomas da modernidade
De modo geral, a prática psicanalítica acompanha as transformações nas formas predominantes de sofrimento humano. No início do século XX, Freud lidava sobretudo com neuroses relacionadas ao excesso de determinações impostas ao sujeito. Nesse contexto, o trabalho analítico buscava dar sentido a esse excesso, explorando as relações mais verticais entre o indivíduo e as instâncias de lei e autoridade.
Conclusão
A psicanálise segue relevante no cenário contemporâneo, acompanhando as transformações do sofrimento humano e se ajustando às mudanças culturais e sociais. Mesmo revisando suas práticas ao longo do tempo, ela preserva seus fundamentos. O que se transforma, na verdade, são as formas como o sofrimento se apresenta, e, consequentemente, as maneiras pelas quais o analista se implica em seu manejo.
Seguiremos, nos próximos textos, aprofundando essa trajetória e explorando as diferentes transformações da psicanálise ao longo do tempo. Até breve!
Referências bibliográficas
- DUNKER, C. I. L. – Aspectos Históricos da Psicanálise Pós-Freudiana In: História da Psicologia – Rumos e Percursos. Rio de Janeiro: Nau, 2006, v.1, p. 387-412. – Você pode achar o livro na Amazon.
- FREUD, S. (1996). Contribuição à história do movimento psicanalítico. In: Obras completas, vol11: Totem e tabu, Contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos (1912/1914) / Sigmund Freud; tradução Paulo César de Souza – 1ª Ed – São Paula: Companhia das letras, 2012.
- JONES, E. (1953-1957). A vida e obra de Sigmund Freud (3 vols.). tradução de Júlio Castafion Guimarães. – Rio de Janeiro: Imago Ed. – Você pode achar o livro na Amazon.
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