A História da expansão da Psicanálise

No texto anterior, exploramos o primeiro tempo da expansão da Psicanálise pelo mundo. Começamos pelas “Reuniões de Quarta-feira”, em 1902, quando Sigmund Freud se reunia com seus primeiros discípulos. Em seguida, acompanhamos a criação da Sociedade Psicanalítica de Viena, em 1908, e a fundação da Associação Psicanalítica Internacional, em 1910, consolidando a psicanálise como um campo institucionalizado.

Também vimos como o avanço do Nazismo e a eclosão da Segunda Guerra Mundial impactaram profundamente esse movimento. A emigração de Freud, em 1938, e de muitos outros psicanalistas levou a teoria para diferentes partes do mundo e, de forma mais marcante, para os Estados Unidos e a Inglaterra, onde se consolidou a Sociedade Psicanalítica Britânica, fundada em 1919.

Acompanhamos ainda o crescimento da psicanálise nos Estados Unidos, que deu origem a desenvolvimentos como a Psicologia do Ego e a Psicossomática. Também discutimos o surgimento de novas abordagens a partir de rupturas com o pensamento freudiano, como a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. E, por fim, passamos pelo surgimento da escola francesa e pelo rompimento de Jacques Lacan, que propôs um “retorno a Freud”. Mas, diante de toda essa trajetória, surge uma pergunta inevitável: como está a psicanálise hoje? É isso que vamos explorar a seguir.

Como está a psicanálise hoje?

Ao olharmos para a psicanálise na atualidade, percebemos transformações importantes — especialmente no modo como os analistas são formados. Nos seus primeiros anos, as escolas de psicanálise, em particular aquelas ligadas à Associação Psicanalítica Internacional, seguiam um modelo bastante rígido. Havia regras bem definidas sobre o tempo de formação, a duração do percurso e até a frequência das sessões, estabelecendo um caminho mais estruturado e padronizado para quem desejava se tornar psicanalista.

A partir dos questionamentos de Lacan, especialmente a partir da década de 1960, esse cenário começou a se transformar. A formação em psicanálise tornou-se, aos poucos, mais flexível e menos hierárquica. Ainda assim, um ponto permanece essencial, o chamado tripé da formação. A saber: estudo teórico, supervisão clínica e análise pessoal.

Outra mudança importante ocorreu no próprio setting analítico. Ao propor um “retorno a Freud”, Lacan também desloca o modo de compreender as regras estabelecidas pela IPA. Em vez de normas fixas (como número de sessões ou duração rígida), ele introduz a ideia de condições clínicas, ajustadas a cada caso. Nesse contexto, ganha centralidade a regra fundamental formulada por Sigmund Freud: a associação livre.

Como toda prática viva, a psicanálise também acompanha as transformações do seu tempo. Se, em seus primórdios, era comum que as sessões acontecessem até cinco vezes por semana, hoje essa frequência raramente se sustenta no ritmo da vida contemporânea. Isso não significa perda de rigor, mas sim uma adaptação às mudanças sociais e culturais, que exigem novas formas de escuta e de manejo clínico.

Ainda assim, a psicanálise mantém sua relevância. Ela segue presente no meio acadêmico, nas instituições e na prática clínica, sustentando uma produção teórica consistente e acompanhando, de perto, os desafios do mundo contemporâneo — inclusive no que diz respeito às novas formas de sofrimento psíquico.

Os sintomas da modernidade

De modo geral, a prática psicanalítica acompanha as transformações nas formas predominantes de sofrimento humano. No início do século XX, Freud lidava sobretudo com neuroses relacionadas ao excesso de determinações impostas ao sujeito. Nesse contexto, o trabalho analítico buscava dar sentido a esse excesso, explorando as relações mais verticais entre o indivíduo e as instâncias de lei e autoridade.

A partir das décadas de 1960 e 1970, esse cenário começou a se modificar. O sofrimento psíquico passou a se relacionar mais com a falta de referências claras, uma certa indeterminação quanto a regras, papéis e limites. Surge então a angústia de um “sujeito livre”, que precisa lidar com as incertezas de uma liberdade sem parâmetros bem definidos, ao mesmo tempo em que se vê atravessado pelas exigências de uma sociedade orientada para o gozo. É nesse contexto que ganham força debates sobre papéis de gênero e novas formas de organização social. Mais recentemente ainda, observa-se também o surgimento de defesas frente a essa indeterminação, que pode ser vivida como angustiante e difícil de sustentar, por exemplo, discursos ultra conservadores.

A psicanálise, hoje, se ocupa justamente de acompanhar esses sujeitos em suas experiências, oferecendo um espaço de escuta e elaboração que possibilite lidar com as incertezas do mundo contemporâneo e com os efeitos que elas produzem na vida psíquica.

Conclusão

A psicanálise segue relevante no cenário contemporâneo, acompanhando as transformações do sofrimento humano e se ajustando às mudanças culturais e sociais. Mesmo revisando suas práticas ao longo do tempo, ela preserva seus fundamentos. O que se transforma, na verdade, são as formas como o sofrimento se apresenta, e, consequentemente, as maneiras pelas quais o analista se implica em seu manejo.

Seguiremos, nos próximos textos, aprofundando essa trajetória e explorando as diferentes transformações da psicanálise ao longo do tempo. Até breve!

Referências bibliográficas

  • DUNKER, C. I. L. – Aspectos Históricos da Psicanálise Pós-Freudiana In: História da Psicologia – Rumos e Percursos. Rio de Janeiro: Nau, 2006, v.1, p. 387-412. – Você pode achar o livro na Amazon.
  • FREUD, S. (1996). Contribuição à história do movimento psicanalítico. In: Obras completas, vol11: Totem e tabu, Contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos (1912/1914) / Sigmund Freud; tradução Paulo César de Souza – 1ª Ed – São Paula: Companhia das letras, 2012.
  • JONES, E. (1953-1957). A vida e obra de Sigmund Freud (3 vols.).  tradução de Júlio Castafion Guimarães. – Rio de Janeiro: Imago Ed. – Você pode achar o livro na Amazon.

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Autor(a)

Julia Maria Alves

Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

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Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

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