Em seu texto de 1914, “Contribuição à história do movimento psicanalítico”, Freud apresenta uma narrativa sobre a formação inicial da psicanálise a partir de sua própria posição como fundador e participante desse movimento [1]. Para fins didáticos, podemos organizar essa história em três momentos. Em primeiro lugar, temos o chamado “tempo de solidão”, que se estende até 1902. Em seguida, destacam-se a formação e a expansão do movimento psicanalítico, especialmente entre 1902 e 1909. Por fim, temos o período de institucionalização, conflitos e dissidências, que se intensificou até 1914.
Neste texto e nos próximos, vamos nos aprofundar gradualmente em cada um desses momentos. Neste primeiro texto, portanto, começaremos pelo chamado “tempo de solidão”.
índice
Período de isolamento: da pré-história da Psicanálise a 1902
Freud utiliza a expressão “tempo de solidão” para descrever o período em que trabalhou praticamente sozinho, sem uma comunidade psicanalítica organizada ao seu redor. Isso não significa que tenha trabalhado sem interlocutores. Sua elaboração ocorreu em diálogo e tensão com pessoas como Breuer, Charcot, Chrobak, Wilhelm Fliess, entre outros [2]. Ainda assim, a Psicanálise não surgiu como um campo sólido e estável. Desde seus primeiros anos, esteve envolvida em controvérsias, resistências e debates, como demonstra a epígrafe escolhida para seu texto de 1914. A frase “Fluctuat nec mergitur” (algo como “é sacudida pelas ondas, mas não afunda”) aparece como imagem das turbulências enfrentadas pelo movimento. Nesse sentido, desde o nascimento, já se discutia a possibilidade de seu desaparecimento.
Nesse contexto, a primeira parte do texto corresponde ao período que Freud apresenta como a “pré-história” da Psicanálise. Nessa fase, se formou em Medicina, interessou-se pela hipnose e estudou em Paris com Jean-Martin Charcot, no Hospital da Salpêtrière. Posteriormente, retorna à Viena e começa a trabalhar com Josef Breuer, com quem desenvolveu “Estudos sobre a histeria” e o método catártico (Leia também: O caso Anna O.).
Inicialmente, Freud utilizou a hipnose e a sugestão em seu trabalho clínico. Gradualmente, porém, diante das resistências e dos limites dessas técnicas, as abandonou e consolidou a associação livre como procedimento central do método psicanalítico. Assim, esse processo contribuiu para a formulação dos fundamentos da psicanálise. [1]
Esse período se estende, na narrativa freudiana, até 1902, dois anos após a publicação de “A interpretação dos sonhos“, em 1900. Naquele momento, Freud já havia formulado elementos importantes de sua teoria e atendia pacientes orientado por uma nova compreensão dos sintomas, dos sonhos e dos processos inconscientes.
A expansão inicial do movimento psicanalítico
A partir de 1902, alguns médicos e outros interessados começaram a se reunir com Freud para estudar e discutir a nova teoria. Como resultado, esses encontros deram origem ao primeiro círculo organizado de colaboradores da psicanálise.
Nos anos seguintes, o movimento se ampliou. A partir de 1907, a aproximação com a Escola de Zurique, representada por Eugen Bleuler e Carl Gustav Jung, favoreceu a circulação das ideias psicanalíticas em outros espaços médicos e acadêmicos. No ano seguinte, ocorreu o primeiro congresso psicanalítico, em Salzburgo. Já em 1909, Freud viajou aos Estados Unidos com Jung e Sándor Ferenczi, a convite de Stanley Hall, para apresentar conferências na Clark University [1]. Essa expansão aumentou a visibilidade da Psicanálise, mas também tornou mais complexas as disputas sobre seus conceitos, sua prática clínica e os limites do que poderia ser chamado de Psicanálise.
O inconsciente psicanalítico
No final do século XIX, a histeria era frequentemente confundida com simulação e tratada com desconfiança. Homens e, especialmente, mulheres que apresentavam sintomas físicos sem uma explicação médica evidente podiam ser considerados mentirosos ou acusados de produzir os sintomas voluntariamente.
Charcot, entretanto, defendia que a histeria era um fenômeno real. Sua explicação era predominantemente neurológica, e a hipnose fazia parte de seu trabalho clínico. Freud partiu desse contexto, mas deslocou progressivamente a explicação da histeria para a causalidade psíquica, enfatizando conflitos, defesa e processos inconscientes.[1] [2]
A contribuição de Freud não foi simplesmente inventar a ideia de inconsciente. Isso porque processos inconscientes já eram discutidos antes dele em diferentes campos da filosofia, medicina e psicologia. Sua contribuição foi formular uma concepção específica do inconsciente psicanalítico, articulada à repressão, ao desejo, aos sonhos, aos sintomas, à resistência e à transferência.
Nesse sentido, o sofrimento histérico não deveria ser reduzido à simulação. Para Freud, o sintoma apresentava uma verdade psíquica que não era imediatamente acessível à consciência. No entanto, essa verdade estava em outro lugar: no inconsciente. Essa compreensão foi decisiva para a construção da Psicanálise.
Os fundamentos da Psicanálise segundo Freud
Em “Contribuição à história do movimento psicanalítico”, Freud afirma que, até 1902, elementos importantes da Psicanálise já estavam estabelecidos e articulados. E apresenta a Psicanálise como uma criação fundamentada em sua prática clínica e em determinados princípios teóricos. Entre esses fundamentos, destaca a repressão, a resistência e a transferência. A interpretação dos sonhos e a sexualidade infantil também ocupam lugar decisivo no desenvolvimento da teoria psicanalítica.[1]
Freud defende que uma abordagem que se afaste profundamente desses fundamentos não deveria utilizar o nome “Psicanálise”. Assim como sugere que aqueles que adotam práticas distintas deveriam nomeá-las de outra maneira. Essa afirmação deve ser compreendida como uma posição histórica do próprio Freud, formulada em meio às disputas e dissidências do movimento. E tal posição reflete uma preocupação em preservar a integridade e a coerência da Psicanálise diante de possíveis dissidências e interpretações divergentes. Entretanto, depois dele, diferentes escolas psicanalíticas desenvolveram conceitos, métodos e ênfases próprios.
A história da psicanálise continua
A história do movimento psicanalítico não terminou com Freud. A Psicanálise se expandiu por diferentes países e passou por diversas transformações teóricas e institucionais. Autores como Melanie Klein, Anna Freud, Jacques Lacan, Donald Winnicott e muitos outros contribuíram para a formação de diferentes escolas e vertentes. Nos próximos textos, continuaremos a acompanhar a expansão da psicanálise, suas ramificações e os debates que marcaram sua história.
No próximo texto...
… continuaremos a falar mais sobre a história da expansão da Psicanálise e suas ramificações até os dias atuais. Aqui está o link para o próximo texto.
Referências bibliográficas
- FREUD, S. (1996). Contribuição à história do movimento psicanalítico. In: Obras completas, vol11: Totem e tabu, Contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos (1912/1914) / Sigmund Freud; tradução Paulo César de Souza – 1ª Ed – São Paula: Companhia das letras, 2012.
- Rosa, C. T.; Weinmann, A. O. “Notas para uma contribuição à historiografia psicanalítica”. Psicologia USP, 2022, v. 33, e190005.
- Encyclopaedia Britannica. “Jean-Martin Charcot”. Consulta histórica sobre a atuação de Charcot na neurologia e nos estudos da histeria.
Outros artigos indicados para você
Comentários


