Imagine viver em um mundo onde seu valor é medido pelo que você consome. Parece exagero? Na prática, é o cenário em que vivemos. Aprendemos, desde cedo, que basta comprar o “produto certo”: um celular novo, a roupa da estação, aquela viagem dos sonhos; para nos sentirmos felizes, completos ou aceitos.
O consumo parece resolver, de imediato, o mal-estar que sentimos. Por isso, é comum tratarmos o consumismo como uma solução rápida: compramos para aliviar a angústia. Só que o efeito costuma ser o oposto do esperado. Quanto mais buscamos alívio em compras e experiências, mais fundo fica o sentimento de falta.
Desejo e consumo: Um vazio que se retroalimenta
O consumo parece oferecer respostas imediatas para o mal-estar que nos atravessa. O problema é que essa promessa nunca se cumpre de verdade. Cada compra até alivia por (um cada vez menor) tempo. Contudo, logo depois, o vazio volta e pede mais. Isso não é acaso. O consumo deixou de ser apenas uma prática econômica: tornou-se um modo de laço social, um eixo organizador das relações e das identidades na contemporaneidade. Em outras palavras, ele se tornou uma forma de nos relacionarmos uns com os outros e de construirmos quem somos (Bauman, 2008).
Esse ciclo é paradoxal: o vazio empurra para o consumo, e o consumo aprofunda o vazio. Um estudo brasileiro relacionou o consumismo contemporâneo a quadros de compulsão, angústia e depressão (Batista & Barros, 2016). No cenário internacional, revisões recentes na área da psiquiatria associam o comportamento de compra compulsiva a comorbidades como ansiedade, depressão e outros transtornos do humor (Black, 2022). Na mesma direção, uma meta-análise publicada no Journal of Personality and Social Psychology — reunindo mais de 250 estudos — encontrou uma relação consistente entre valores materialistas e menor bem-estar psicológico (Dittmar et al., 2014).
Zygmunt Bauman (2008) descreve bem esse mecanismo. A cultura consumista cria uma nova forma de inclusão e exclusão social, na qual o acesso aos bens de consumo passa a definir o valor da pessoa. Quem não consegue acompanhar esse ritmo é empurrado para a margem, tornando-se, aos olhos do mercado, “descartável”. A lógica do consumo impõe, assim, uma pressão constante: é preciso manter um certo padrão, mesmo que isso custe endividamento, exaustão e o esvaziamento de outras dimensões da vida.
Somos seres desejantes
Antes de aprofundar na lógica do consumo, vale entender um ponto central: somos seres desejantes.
Desde o início da vida, algo nos falta, e é essa falta que nos move. Para a psicanálise, o desejo não é simples vontade ou carência. Ele é o que nos constitui como sujeitos. Não desejamos o objeto em si, mas algo do campo do Outro: algo que está sempre além, no registro da linguagem e da cultura.
Como escreve a psicanalista Ana Suy (2019)3, o desejo nunca se realiza por completo… e ainda bem! É justamente nessa incompletude que mora a potência da vida: o que nos faz criar, amar, buscar, perguntar. O desejo é o motor da existência. Ele sustenta a pergunta fundamental: “o que o Outro quer de mim?”. É nesse intervalo, entre a falta e a impossibilidade de completude, que a subjetividade se constrói.
Se o desejo nunca se realiza plenamente, e seguimos eternamente desejantes, o sujeito contemporâneo vira o alvo perfeito de um discurso: o discurso capitalista, que promete preencher a falta com um objeto.
A lógica do consumo e o Discurso Capitalista
Você já percebeu como, logo depois de conseguir algo muito desejado, surge uma vontade nova? Essa insatisfação constante não é um defeito pessoal, é estrutural. Como dissemos, o desejo se sustenta justamente nessa impossibilidade de completude. Sempre queremos “algo a mais”, e esse “mais” nunca se resume a um objeto real.
O discurso capitalista, como formulou Jacques Lacan, se apropria da estrutura do desejo para sustentar seu funcionamento. Ele transforma o desejo (que é singular e sem objeto fixo) em demanda de consumo. O sujeito é convocado a comprar incessantemente, como se o próximo objeto pudesse finalmente preencher aquilo que, por estrutura, é da ordem da falta.
Só que o desejo nunca se satisfaz por completo. Por isso, cada aquisição reinicia o ciclo: mais consumo, mais frustração, mais promessa. É assim que o capitalismo lucra com a insatisfação constitutiva do sujeito. Em vez de abrir espaço para que cada pessoa elabore seu desejo singular, ele oferece um gozo padronizado e imediato, um tipo de satisfação forçada que, longe de aliviar, reforça o mal-estar.
O discurso capitalista, portanto, não só explora o desejo humano: ele o captura e o transforma em engrenagem de produção. O resultado é um sujeito mantido em movimento, consumindo para existir, desejando para manter o sistema funcionando.
Quando o consumo vira sintoma
Reconhecer esse mecanismo já é um primeiro passo. Mas, quando o vazio, a vontade de comprar sem parar ou a sensação de nunca ser suficiente tomam muito espaço na vida, vale buscar apoio especializado.
A psicanálise abre um caminho diferente: em vez de calar o desejo com mais um objeto, ela convida a escutar o que esse desejo tem a dizer sobre você. Se você se identificou com este texto, conversar com um psicólogo pode ser um bom começo para entender o que está por trás desse vazio — e construir uma relação mais leve com o desejo e o consumo.
Referências:
- Bauman, Z. (2008). Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de janeiro: Zahar – Disponível https://amzn.to/436AWhw
- BATISTA, S.V. e BARROS, B.P. (2016), Vazio existencial e o consumismo na contemporaneidade, Revista Logos & Existência. 5(1),10-21,2016. Disponível https://periodicos.ufpb.br/index.php/le/article/view/25155/16656
- SUY, A. (2019) As cabanas que o amor faz em nós. Editora Patuá, 2019. Disponível
- ESPINOZA M.V.; BESSET V.L. (2009) Sobre laços, amor e discursos, Psicol. rev. (Belo Horizonte) vol.15 no.2 Belo Horizonte ago. 2009. Disponível https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-11682009000200010
- Black, D. W. (2022). Compulsive shopping: A review and update. Current Opinion in Psychology, 46, 101321. https://doi.org/10.1016/j.copsyc.2022.101321
- Dittmar, H., Bond, R., Hurst, M., & Kasser, T. (2014). The relationship between materialism and personal well-being: A meta-analysis. Journal of Personality and Social Psychology, 107(5), 879-924. https://doi.org/10.1037/a0037409
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