As relações amorosas são quase sempre temas centrais de intermináveis discussões. São protagonistas nas histórias dos livros, filmes, novelas… Enfim, por conta disso é justo dizer que ele passeia pelo imaginário das pessoas. É comum ver questionamentos sobre o amor ideal, a alma gêmea ou “cara metade” ou ainda, um final feliz… Por outro lado, muito pouco ou quase nada falamos sobre o amor que adoece. Ou seja, o amor que nos faz adoecer ou adoecer ao outro, ou ainda, o amor que parece estar doente, caminhando para o fim.
Existe amor perfeito?
Façamos uma reflexão sobre o que nos move na direção de procurar o “amor perfeito“. Em outras palavras, essa busca incansável de um amor pleno que te dá a sensação de que seremos felizes e eternos tanto quanto ele durar. Por conseguinte, precisamos nos certificar de que ele nunca irá se acabar! Projetamos no amor algo que possa ilusoriamente nos dar a felicidade que almejamos e a segurança que buscamos.
Assim, com esse olhar dependente, criamos espaço para um amor que é capaz de nos adoecer. Pois ele parece ter a importância do oxigênio que necessitamos para viver. Podendo causar intenso sofrimento se o que buscamos não for correspondido ou se acabar.
Carl R. Rogers, em “Um Jeito de Ser”, (1983, pag. 27) nos presenteia com sábias percepções quando fala que aprendeu que, num relacionamento, as expectativas podem facilmente se transformar em exigências. É bem mais fácil gostar de uma pessoa pelo que se pensa que ela é, ou se desejaria que fosse, ou se acha que deveria ser. Ainda, segundo ele, gostar da pessoa pelo o que ela é, sem a contínua necessidade de adaptá-la às nossas exigências, é uma maneira mais difícil, porém mais enriquecedora de vivenciar uma relação amorosa satisfatória.
O amor que adoece, também aprisiona
Esse amor aprisiona tanto quem ama, quanto quem é amado. Logo, adoece e faz adoecer. O ‘ser-no-mundo’ torna-se amargurado, em constante medo de ser abandonado e jogado à própria sorte, se sentindo incapaz de dar conta de uma possível dor provocada pela separação. Que, caso venha a acontecer, pode ser plenamente suportável em um processo de luto bem elaborado.
O terror do abandono parece estar por trás de muitas discussões e acusações sobre o que se esperava da outra pessoa. Por outro lado, há uma outra pessoa que, por algum motivo, “procurou” a união com alguém que a idealizava tanto. Alguém que a queria tão intensamente a ponto de sentir-se incompleta por estar longe. Enquanto, na realidade, o que se constrói são relações longe de se alcançar a complementaridade. Perde-se o foco na cumplicidade e na união que um relacionamento pode propiciar. Destruindo a força propulsora capaz de nos ajudar a sair dos momentos de crise tão comuns em qualquer relação.
O caminho para uma relação mais saudável
Não é possível encontrar alguém que esteja no mundo apenas esperando para atender nossas expectativas. Portanto, viveremos melhor se dermos conta de que as pessoas não irão satisfazer nossas vontades. Ou seja, cada um dá o que tem! Compartilhar bons momentos e procurar encontrar o que seja capaz de criar bem estar mútuo. Esse sim seria um bom objetivo no caminho de uma relação saudável.
Para elaborar um mundo comum, um casal precisará fazer contínuas negociações. Sempre que possível levando em conta os interesses comuns acima dos individuais. Para isso os parceiros precisarão se reorganizar internamente, criando uma identidade de casal, onde possam se estabilizar emocionalmente e readaptar as regras anteriormente estabelecidas sobre sexo, dinheiro, segredos, etc.
A integração dos sistemas afetivos – como apego, cuidado, romantismo, sexualidade e amizade – podem favorecer a ideia do relacionamento amoroso como a complementaridade necessária para a criação de um vínculo mais duradouro. Assim, o amor que adoece parece trazer consigo a prática de responsabilizar o outro pela sua felicidade. Bem como por suas escolhas e derrotas. Isso favorece a dinâmica de que não nos compete escrever nossa própria história, pois o outro se encarregará disso. Quando partimos do ponto de que somos responsáveis por nós mesmos, de que o outro faz somente o que deixamos que ele faça, saímos da posição de vítimas do destino.
Parece um bom caminho poder amadurecer a ideia de que é mais fácil o convívio entre duas unidades do que duas metades, pois quando procuramos e pensamos numa “cara metade”. Logo imaginamos que encontraremos no outro o que nos falta, o que não dispomos. Já se pensarmos no outro como sendo uma unidade, respeitando sua individualidade, cai um pouco essa idealização. Pois um sujeito inteiro tem seus desejos, erros, medos e falhas, e eu também não o irei completar.
Quem se ama não adoece
Sintetizando, dois parceiros jamais poderão satisfazer inteiramente um ao outro. É um desafio permanente a construção de uma harmonia suficiente diante de alguém que precisa de outras coisas além de mim. É preciso reconhecer que não sou suficiente ao outro!
O amor que adoece parece ser permeado de cobranças do que não se pode dar; de juras infundadas e promessas que jamais poderão ser cumpridas; de uma necessidade severa (e até perversa) de manter o outro como um ser aprisionado pela sua dependência e vontade. O outro, que se deixa adoecer, fica limitado aos caprichos e devaneios de um amor que seja eterno enquanto estejamos vivos!
Então, ouso dizer que para alcançarmos a forma saudável de relacionar-se, necessitamos do amor próprio, tanto quanto do amor ao outro. Havendo com isso um equilíbrio interior na forma de amar e demonstrar o afeto. Pois, só assim poderemos vivenciar com plenitude o sentimento nobre do amor, vindo como consequência a boa manutenção da nossa estrutura psíquica, com respeito também ao bem estar do outro.
Penso que o desamor à nossa figura, ao nosso modo de ser e agir no mundo, nos traz a sensação de necessitar do outro para nossa própria afirmação. Numa tentativa gritante e talvez inútil de concluir a busca pela felicidade. Muitas vezes não nos julgamos merecedores da felicidade, então não conseguimos vivenciá-la sem o sentimento de culpa. O que impossibilita a vivência plena do momento feliz.
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