A História da expansão da Psicanálise
No texto anterior falamos sobre a expansão da Psicanálise pelo mundo. Iniciamos pelas “Reuniões de quarta-feira” (1902) e os encontros de Freud com alguns discípulos, que se tornaram os primeiros a disseminar o pensamento psicanalítico pela Europa. Também discutimos a formação da Sociedade Psicanalítica de Viena (1908) e a institucionalização da IPA – Associação Psicanalítica Internacional (1910).
Vimos como o surgimento do Nazismo e a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939) influenciaram na emigração de Freud (1938) e outros psicanalistas, levando a teoria psicanalítica para diferentes países, como Austrália, Argentina, Brasil e, especialmente, Estados Unidos e Inglaterra, onde consolidaram a Sociedade Psicanalítica Britânica (1919).
Atravessamos o crescimento da Psicanálise nos Estados Unidos, que deu origem à Psicologia do Ego e à Psicossomática. Também abordamos como diversas linhas teóricas emergiram a partir de dissidências com o pensamento psicanalítico, como a Psicologia Analítica de Jung. Por fim, mencionamos o nascimento tardio da escola francesa e o rompimento de Lacan, que propôs um retorno a Freud. Mas, como está a Psicanálise hoje? Esta é a proposta deste texto.
Como está a psicanálise hoje?
Quando analisamos a Psicanálise atualmente, podemos notar mudanças significativas, especialmente no que diz respeito à formação. No início, as escolas de Psicanálise, sobretudo as vinculadas à IPA, seguiam um processo de formação muito rígido, com regras bem definidas sobre tempo de estudo, duração e frequência das sessões, entre outros aspectos.
Com os questionamentos de Lacan na década de 1960, esse cenário passou por transformações. Hoje, a formação em Psicanálise é mais flexível e menos verticalizada. No entanto, o tripé fundamental permanece: estudo teórico, supervisão e análise pessoal. Outra mudança importante ocorreu no setting analítico, Lacan, ao propor seu retorno a Freud, realocou as regras fixas da IPA – sobre número de sessões, duração, etc. – para condições. Assim, tem exclusividade de regra a única regra de ouro freudiana: a associação livre.
É claro que a psicanálise também se adapta ao seu tempo. Se inicialmente, as sessões de análise eram realizadas cinco vezes por semana, essa frequência já não é mais viável no mundo contemporâneo, portanto a Psicanálise se adapta às mudanças sociais e culturais, ajustando sua prática às demandas atuais.
A Psicanálise continua a desempenhar um papel relevante no meio acadêmico, nas instituições e na sociedade, assim como sustenta uma forte produção teórica e clínica, acompanhando os desafios do mundo contemporâneo e seus novos sintomas.
Os sintomas da modernidade
De maneira geral, a prática psicanalítica acompanha as mudanças nas formas predominantes de sofrimento humano. No início do século XX, Freud tratava de neuroses vinculadas ao excesso de determinações e regras impostas ao sujeito. O tratamento, então, buscava simbolizar esse excesso e trabalhar as relações verticais entre o sujeito e as instâncias de lei e autoridade.
Após as décadas de 1960 e 1970, o cenário mudou. O sofrimento passou a estar relacionado à indeterminação, à ausência de regras claras e papéis sociais definidos. Surgiu a angústia do “sujeito livre”, que enfrenta as incertezas e os desafios de uma liberdade sem parâmetros e o empuxo ao gozo da nossa sociedade capitalista. Questões como os papéis de gênero e os novos modelos de sociedade emergiram nesse contexto.
Mais recentemente, observamos uma defesa contra essas experiências de indeterminação, que podem ser angustiantes e desafiadoras. A Psicanálise, hoje, se dedica a trabalhar com os sujeitos que enfrentam essas dificuldades, ajudando-os a lidar com as incertezas do contemporâneo e suas implicações.
Conclusão
A Psicanálise mantém sua relevância no cenário global, acompanhando as transformações do sofrimento humano e adaptando-se às mudanças culturais e sociais. Ainda que revise constantemente suas práticas, ela não abandona seus conceitos fundamentais. O que muda é a forma como o sofrimento humano se manifesta e como o analista trabalha com ele.
Seguiremos explorando a história e as transformações da Psicanálise nos próximos textos. Até breve!
Referências bibliográficas
- DUNKER, C. I. L. – Aspectos Históricos da Psicanálise Pós-Freudiana In: História da Psicologia – Rumos e Percursos. Rio de Janeiro: Nau, 2006, v.1, p. 387-412. – Você pode achar o livro na Amazon.
- FREUD, S. (1996). Contribuição à história do movimento psicanalítico. In: Obras completas, vol11: Totem e tabu, Contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos (1912/1914) / Sigmund Freud; tradução Paulo César de Souza – 1ª Ed – São Paula: Companhia das letras, 2012.
- JONES, E. (1953-1957). A vida e obra de Sigmund Freud (3 vols.). tradução de Júlio Castafion Guimarães. – Rio de Janeiro: Imago Ed. – Você pode achar o livro na Amazon.
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