O que podemos pensar sobre essa sequencia de desastres socioambientais que assolam Minas Gerais nos últimos anos (Mariana em 2015, agora Brumadinho em 2019)?
“O projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
E um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração”
Assim cantou Tom Jobim há alguns anos. Hoje, seus versos podem evocar imagens dolorosamente familiares. Basta pensar na água e na lama do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Podemos lembrar também as enchentes do Vale do Itajaí (SC) e, mais recentemente, os desastres que atingiram Brumadinho e Nova Lima, em Minas Gerais.
Esses acontecimentos não são isolados. Muitas vezes, a sociedade os chama de “desastres naturais”. No entanto, fatores sociais, econômicos, ambientais e políticos também contribuem para sua ocorrência e para a dimensão dos impactos.
Por isso, precisamos refletir sobre o modo como vivemos, ocupamos os territórios e nos relacionamos com o meio ambiente. Além disso, devemos perguntar: contribuímos para criar ou agravar esses riscos? O que podemos fazer para transformar essa realidade? E qual é o nosso papel, como cidadãos e profissionais — especialmente como psicólogos — diante de situações tão complexas?
Para contribuir com essa reflexão, convidamos Raquel Ferreira Pacheco, psicóloga e integrante do Grupo de Trabalho em Emergências e Desastres do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG). Neste texto, ela discute os desastres socioambientais, suas repercussões para a sociedade e as contribuições da Psicologia diante dessas realidades.
Os desastres naturais, a sociedade e a Psicologia
Por Raquel Ferreira Pacheco
Nos últimos anos é possível notar um aumento considerável da ocorrência de emergências e desastres em nosso país. Desse modo, é preciso conhecer melhor esses fenômenos, como eles ocorrem, quais fatores os desencadeiam e, essencialmente, os fatores de risco e as vulnerabilidades de nossa sociedade.
Por mais que muito se fale em desenvolvimento sustentável desde o século XX, pouco se faz para que seja efetivamente realizado. Como aponta Heredia (2003, p. 113), segundo a ONU, na década de 90, “4.777 desastres naturais custaram mais de 880.000 vidas, afetando os lares, a saúde e o sustento de quase dois milhões de pessoas e causando cerca de US$ 685 bilhões em perdas econômicas no mundo inteiro” e esses números têm aumentado aceleradamente. As legislações em vigor e os projetos em votação, como o PL 2.946/15 corroboram com a ação desenfreada das mineradoras no estado de Minas Gerais e as fiscalizações não são suficientes.
Segundo reportagem publicada no jornal Estado de Minas, de 28 de setembro de 2013:
[…] o número de pessoas no Brasil em áreas de risco de inundações pode chegar a 42,5 milhões em 2030, 9,2 milhões a mais do que em 2010 (33,3 milhões), segundo estimativas da companhia de seguros Swiss-Re. A maior concentração deverá ser no Sudeste, com 17 milhões de pessoas em zonas com maior potencial de alagamento; 12,2 milhões no Nordeste; 6,9 milhões no Norte; 4,6 milhões no Sul e 1,8 milhão no Centro-Oeste. (CASTRO, 2013, p. 12)
Ocorrem os desastres “naturais”, como a mídia insiste em nomear, mas sabemos que, para que ocorram, precisam da incidência de uma série de fatores não naturais. A definição adotada a partir da 2ª Conferência Nacional de Proteção e Defesa Civil – CNPDC (2014) estabelece que um desastre é:
“Resultado de eventos adversos, naturais ou provocados pelo homem, sobre um ecossistema vulnerável, causando danos humanos, materiais e ambientais, com consequentes prejuízos econômicos e sociais.”
E, partindo-se dessa definição, precisamos entender o conceito de vulnerabilidade, que é um fator que aponta o risco de um desastre. Este fator vulnerabilidade é entendido pela Estratégia Internacional para a Redução de Desastres (UNISDR) como uma condição estabelecida por uma série de processos e fatores físicos, sociais, econômicos, ambientais e também culturais, os quais tornam a comunidade mais suscetível e exposta aos impactos das ameaças naturais, ou seja, existe atualmente em nosso país e em todo o mundo uma concepção social do desastre.
O rompimento das barragens das mineradoras nos distritos de Mariana, especialmente Bento Rodrigues, deve ser investigado e analisado sob uma ótica sistêmica, que pensa em todos os fatores que colaboraram para a ocorrência dessa tragédia.
E onde está a Psicologia?
O profissional da psicologia deve se apropriar de seu papel social e atuar junto aos profissionais das diversas áreas de conhecimento que trabalham em situações de emergências e desastres, como profissionais da saúde, da engenharia, da assistência social e outros.
Ademais, é necessário que se promova de fato políticas de prevenção aos desastres e mitigação dos seus efeitos danosos, bem como se trabalhe efetivamente para a construção de comunidades resilientes para que se evite as perdas humanas, ambientais, econômicas e sociais.
Referência
- Fundação Oswaldo Cruz. Fiocruz. Ministério da Saúde. Brasil. Processo de luto no contexto da Covid-19. Brasília: Fiocruz, 2020. Disponível <aqui>
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