“Dizer sim quando quero dizer não é dar mais valor aos outros do que a mim. É não colocar meus limites, e isso é não me respeitar… É o mesmo que dizer que o que eu sinto não vale nada, que os ouros podem passar por cima de mim à vontade. E eles passam, sem dó nem piedade. Hoje estou aprendendo a dizer não. Quando não quero alguma coisa, simplesmente digo não. Sem raiva nem emoção. Um não é só uma negativa. É nosso limite. Um direito que temos de decidir o que desejamos ou não fazer. A isso se dá o nome de dignidade. Quando nos colocamos com sinceridade, dizendo o que sentimos, somos respeitados“. Zíbia Gasparetto
Comprar algo que não queremos, aceitar uma tarefa extra, emprestar dinheiro que faz falta: Somos convocados o tempo todo a nos posicionar! E, para muita gente, dizer “não” é uma das coisas mais difíceis de se fazer.
Você provavelmente já disse “sim” para algo que não queria fazer. Talvez para não desagradar alguém, talvez por medo de uma reação ruim, talvez porque dizer “não” pareceu, naquele momento, impossível. Isso é mais comum do que parece e pode revelar algo importante sobre como cada um de nós se relaciona com os próprios limites e com o desejo do outro.
O “não” como fundação do sujeito
Antes de ser uma questão de comportamento, o “não” tem um lugar central na constituição psíquica. Pois, é a experiência do limite (de que não se pode ter tudo, e de existir uma falta) que abre espaço para o desejo. Um sujeito que nunca encontra um “não” ao longo da vida permanece capturado na demanda do outro. Ou seja, tem mais dificuldade para saber onde ela termina e onde começa o que os outros esperam dela.
Por isso, dizer “não” não é apenas uma habilidade de comunicação a ser treinada. É um gesto que separa: separa o meu desejo do desejo que o outro deposita em mim.
Por que, então, é tão difícil dizer não?
Medo da perda do laço. Recusar um pedido costuma trazer a fantasia de que, ao negar, colocamos em risco o amor ou a aceitação do outro. Esse medo raramente é sobre a situação concreta; é sobre uma pergunta mais antiga e mais silenciosa “serei amado mesmo assim?”, do que a recusa parece reativar.
Culpa e a exigência do supereu. Dizer “não” costuma vir acompanhado de culpa, como se recusar fosse, em si, uma falta. Aqui vale lembrar que o supereu, para a psicanálise, não é apenas a voz da consciência moral: é uma instância que cobra, que nunca se satisfaz e que pode transformar um limite legítimo em motivo de autopunição.
A imagem de quem “nunca decepciona”. Para outros, dizer sempre “sim” sustenta uma imagem — a de ser sempre generoso, disponível, “gente boa”. Sustentar essa imagem tem um preço: o sujeito vai se ausentando de suas próprias vontades para caber no retrato que construiu de si para o outro.
O gozo escondido em dizer sempre sim
Um ponto que ajuda a esclarecer é que ceder sempre nem sempre é sofrimento puro, muitas vezes há, nisso, uma satisfação paradoxal. Colocar-se em segundo plano pode funcionar como uma forma de vínculo conhecida e repetida, mesmo quando causa desgaste. Reconhecer esse ganho oculto é parte do trabalho: não se trata de “ter mais força de vontade” para dizer não, mas de entender o que sustenta, para cada um, a dificuldade de recusar.
Abrir espaço para o próprio desejo
Recusar, quando é preciso, não é um ato de frieza ou egoísmo. É o gesto que permite que um desejo próprio apareça, distinto do que os outros esperam. Uma pessoa que aprende a dizer “não” onde antes só sabia dizer “sim”, não está ficando mais dura, mas está deixando de se apagar.
Isso não significa que ceder seja sempre um problema. Ajudar, apoiar, abrir mão de algo por quem se ama são gestos saudáveis quando escolhidos. A questão não é nunca ceder, mas notar quando ceder deixou de ser escolha e virou a única posição possível.
Quando a dificuldade de dizer não se repete e traz sofrimento (cansaço, ressentimento, sensação de nunca ser considerado), vale a pena investigar de onde vem essa dificuldade. A psicoterapia oferece justamente esse espaço: um lugar para escutar o que, na história de cada um, tornou tão custoso dizer “não”.
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Comentários


Nooossaaaaa tudo a ver comigo! Adorei :-)
Fico feliz que gostou, Nathália. Sinta-se sempre muito bem vinda por aqui! Um abraço