Dizer “não”, expressar uma necessidade ou discordar de alguém pode ser difícil. Muitas pessoas temem decepcionar, provocar conflitos, parecer egoístas ou perder o afeto e a aprovação dos outros. Por isso, acabam aceitando pedidos que ultrapassam seus limites e, depois, sentem cansaço, ressentimento ou culpa.

Aprender a se posicionar não significa tornar-se uma pessoa fria ou agressiva. Significa desenvolver formas de expressar pensamentos, sentimentos, necessidades e limites com clareza, respeitando os próprios direitos e os direitos das outras pessoas. Na Psicologia, esse repertório costuma ser relacionado à assertividade e às habilidades sociais.[1] [2]

Índice:

Assertividade, passividade e agressividade

A comunicação passiva acontece quando a pessoa omite o que pensa ou precisa para evitar desconforto, mesmo quando gostaria de se expressar. A agressividade ocorre quando alguém tenta defender seus interesses desrespeitando, intimidando ou anulando a outra pessoa. A assertividade busca um terceiro caminho: clareza e respeito ao mesmo tempo. Uma pessoa também pode alternar entre silenciar durante muito tempo e reagir de modo explosivo quando chega ao limite.

Esses estilos não definem a personalidade inteira de alguém. São padrões de comportamento que podem variar entre situações. A assertividade, por exemplo, não é um traço fixo. Uma pessoa pode conseguir falar com clareza no trabalho e ter muita dificuldade para dizer não à família, ao parceiro ou aos amigos. O desempenho também muda de acordo com a situação, a relação, a cultura, a posição de poder e o nível de segurança envolvido.[2]

Por isso, aprender a se posicionar é um processo contextual, não uma fórmula igual para todos. Seguem algumas ideias para trabalhar essa nova habilidade:

1. Observe o que você sente e precisa

Antes de responder, tente identificar o que está acontecendo internamente. Você quer aceitar o pedido ou está com medo da reação da outra pessoa? Está disponível ou sente que não pode recusar? O pedido é compatível com seus valores, seu tempo, sua saúde e seus compromissos?

Nem todo desconforto significa que alguém ultrapassou um limite. Às vezes, uma responsabilidade importante é trabalhosa, mas coerente com uma escolha sua. Em outras situações, o desconforto indica que você está se comprometendo além do que consegue sustentar. A pergunta não é apenas “posso fazer?”, mas também “quero fazer?”, “preciso fazer?” e “qual será o custo para mim?”.

2. Diferencie limite de tentativa de controlar o outro

Um limite descreve o que você fará para cuidar de si. Ele não é uma ordem para controlar todos os comportamentos da outra pessoa. Por exemplo, “você nunca mais pode falar comigo desse jeito” tenta determinar o comportamento do outro. Já “se a conversa continuar com ofensas, vou encerrá-la e retomaremos quando houver respeito” comunica uma decisão sobre a sua participação.

Limites funcionam melhor quando são claros, possíveis de cumprir e acompanhados de uma ação coerente. Não é necessário explicar todos os detalhes da sua vida para justificar uma decisão. Ao mesmo tempo, relações importantes podem exigir negociação, escuta e revisão de acordos.

3. Diga “não” de maneira clara

Um “não” assertivo costuma ser breve e direto. Explicações muito longas podem transmitir insegurança e abrir espaço para uma negociação que você não deseja. Você pode agradecer o convite, reconhecer a importância do pedido e informar sua decisão:

“Obrigada por lembrar de mim, mas não vou conseguir participar desta vez.”
“Entendo que você precisa de ajuda, mas não posso assumir essa tarefa agora.”
“Não quero falar sobre esse assunto neste momento. Podemos conversar amanhã?”
“Posso fazer uma parte, mas não consigo entregar tudo nesse prazo.”

Você não precisa transformar toda recusa em uma justificativa detalhada. “Não posso” ou “não quero” pode ser suficiente. Em outros casos, oferecer uma alternativa ajuda a preservar a colaboração: “Não consigo hoje, mas posso conversar na sexta-feira”. A alternativa é opcional; não deve ser usada para cancelar o seu próprio limite.

OBS.: Use a primeira pessoa! Frases na primeira pessoa ajudam a comunicar a sua experiência sem afirmar que você sabe exatamente o que o outro pensa ou sente. Compare:

“Você só pensa em si e sempre me explora.”

com:

“Eu não consigo continuar assumindo essa tarefa sozinho. Precisamos dividir as responsabilidades.”

Essa forma de comunicação não elimina conflitos. Ela reduz acusações desnecessárias e aumenta a chance de a mensagem ficar compreensível. Expressar-se com respeito também não garante que a outra pessoa concordará ou mudará de comportamento.

4. Pratique em situações pequenas e realistas

Se você está acostumado a ceder, é esperado que uma resposta mais firme cause desconforto no início. Em vez de começar pela situação mais difícil da sua vida, escolha um contexto de menor risco: recusar um convite sem vontade, pedir mais prazo ou expressar uma preferência em uma conversa cotidiana.

Treine a frase antes, escreva algumas opções ou ensaie com alguém de confiança. Depois, observe o que aconteceu: você foi compreendido? Falou mais do que precisava? Pediu algo possível? O objetivo não é nunca sentir ansiedade, culpa ou medo. É aprender a agir de modo coerente com seus valores mesmo quando essas emoções aparecem.

5. Prepare-se para reações diferentes

A reação do outro não está totalmente sob seu controle. Algumas pessoas respeitarão sua decisão; outras podem demonstrar surpresa, insistência ou frustração. A frustração do outro não prova que você fez algo errado, mas também não significa que toda reação negativa deva ser ignorada. Relações são feitas de consequências, negociação e responsabilidade compartilhada.

Se a insistência se transforma em ameaça, humilhação, controle financeiro, perseguição ou violência, a questão deixa de ser apenas uma dificuldade de comunicação. Procure apoio de pessoas confiáveis e de serviços especializados. Em contextos abusivos, dizer “não” pode aumentar o risco; segurança e rede de proteção vêm antes de uma regra de assertividade.

6. Mantenha o respeito por si e pelos outros

Cuidar das próprias necessidades é importante, mas não significa que todo desejo pessoal deve prevalecer. Uma comunicação socialmente competente considera o objetivo da conversa, a relação, o momento, as consequências e os direitos envolvidos.[2]

Você pode se posicionar e, ainda assim, rever uma decisão. Pode pedir desculpas por uma forma desrespeitosa de falar sem desistir do limite que precisava estabelecer. Pode reconhecer que não consegue ajudar sem transformar isso em uma avaliação sobre o valor ou o caráter da outra pessoa.

Aprender a dizer não também envolve tolerar a possibilidade de não agradar a todos. O objetivo não é obter aprovação universal. É construir respostas mais honestas, responsáveis e coerentes com o que você pode oferecer.

Referências bibliográficas

[1]: “Bosquetti MA, Souza SR. Assertividade e Análise do Comportamento: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. 2020;22(1 ).”
[2]: “Bolsoni-Silva AT, et al. Treinamento de habilidades sociais em alunos de graduação: uma revisão sistemática. Psicologia Escolar e Educacional. 2022;26:e236195.”
[3]: “Hagberg T, Manhem P, Oscarsson M, et al. Efficacy of transdiagnostic cognitive-behavioral therapy for assertiveness: a randomized controlled trial. Internet Interventions. 2023;32:100629.”
[4]: “ElBarazi AS, Mohamed F, Mabrok M, et al. Efficiency of assertiveness training on the stress, anxiety, and depression levels of college students: randomized controlled trial. Journal of Education and Health Promotion. 2024;13:203.”

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Equipe DiálogoPsi

Somos uma equipe de psicólogos em Belo Horizonte dedicada a promover saúde mental e bem-estar. Oferecemos um espaço seguro de escuta através da Psicoterapia, além de suporte especializado em Orientação Profissional e Avaliação Neuropsicológica.

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