Sortudas são as crianças que, no Dia das Crianças, puderam expressar seu amor por sua mãe; privilegiadas, aquelas que puderam expressar esse amor em dobro. Parece matemática básica. No entanto, assim como a própria matemática, a homoparentalidade ainda causa resistência em muita gente. Por isso, vale a pena colocar esse termo — ainda desconhecido por alguns — em perspectiva.

A homoparentalidade define uma nova configuração familiar: aquela formada por dois pais ou duas mães que compartilham uma relação afetiva e criam seus filhos. É um tema complexo, não por sua própria natureza, mas pela urgência de desconstruir preconceitos antigos. Muitas pessoas ainda enxergam o status quo como um modelo intocável, em vez de superá-lo.

Quem faz ou já fez psicoterapia sabe bem o que é isso. Em algum momento, para superar grandes angústias, precisamos enfrentar crenças que moldam nossa visão de mundo há anos. Esse exercício diário nos desafia a ser pessoas melhores e a transformar o mundo em um lugar melhor para todos.

Superação ou preservação do status quo?

Partindo dessa ideia, vale fazer uma breve retomada histórica para observar momentos em que a sociedade superou o status quo e alcançou avanços significativos, especialmente no conceito de família. Para encontrar um bom exemplo, nem precisamos ir longe: no fim da década de 1970, apesar da forte resistência social, o divórcio foi regulamentado no Brasil.

Os reflexos desse marco só ganharam destaque na década de 1990, quando 47% das famílias passaram a se organizar com apenas um dos pais. Diante disso, é fundamental ir além do que o número puro nos mostra. Quando vemos que quase metade dos casais se separou naquela década, muitos se assustam com a suposta facilidade de romper um casamento. Mas quem se pergunta sobre a dificuldade — e muitas vezes o perigo — de continuar junto?

Quantas vezes mulheres submetidas a violências físicas ou psicológicas encontraram justamente no divórcio a única saída para escapar da anulação e do sofrimento profundo? Ao superar o tabu de que o matrimônio precisava ser irrevogável, pessoas sem perspectiva de futuro puderam reformular seus projetos de vida e voltar a buscar a própria felicidade.

Homoparentalidade: A possibilidade de um avanço irreversível

Embora o atual cenário político não seja dos mais favoráveis, o avanço da nossa sociedade na discussão sobre família é irreversível. Esse movimento permite que os vínculos familiares se baseiem mais no afeto do que na genética — o que não significa desqualificar os laços de sangue. Assim como ocorreu com o divórcio, precisamos olhar para essa evolução com criticidade e enxergar além dos conceitos enraizados em nossas origens.

Ao caminhar nessa direção, vamos muito além da adoção por casais homoafetivos. Repensamos também os modelos tradicionais, nos quais o laço sanguíneo sempre se sobrepôs ao afetivo. De forma bem prática, dar esse passo é fundamental, inclusive, para a longevidade das próprias relações.

Se ainda estiver difícil colocar o tema em perspectiva, faça este exercício: pense em uma criança nascida em um ambiente de violência e negligência, e depois abandonada por pais sem condições de criá-la. Lembre-se de que existem milhares de crianças e adolescentes nessa situação à espera de adoção — embora os casais priorizem quase sempre os mais novos e brancos. Agora, reflita sobre o futuro que aguarda aquelas que chegarão à maioridade sem nunca terem sido adotadas.

Frente a tudo isso, resta a pergunta: é possível não admirar mães e pais que empreendem uma gigante batalha para garantir a essas crianças, e mesmo a outras que não sejam adotivas, um lar onde elas possam desfrutar do mesmo amor e afeto que você desejaria aos seus próprios filhos? Pois, felizmente, mais duas mães criativas foram capazes de fazer isso e, assim, garantir às suas crianças uma educação de qualidade, um lar seguro e, sobretudo, amor.

Por fim, temos um fato diante de nós: a sociedade está evoluindo, a despeito de toda tensão produzida por quem se opõe à homoparentalidade, sustentados por princípios que rara vez se fundam no desejo de uma sociedade mais justa e fraterna. Assim, poucos dias após o Dia das Mães e próximo ao Dia Internacional da Família, comemorado no dia 15 de maio, saúdo a tod@s cujos laços familiares pautam-se mais pelo afeto do que por qualquer outro elemento. Afinal, é isso que os manterá unidos e felizes.

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Autor(a)

Pablo Ferreira Bastos Ribeiro

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Comentários

  1. Kalyne 12/05/2015 at 22:50 - Reply

    Um tema muito pertinente nos dias de hoje, onde já há leis contra preconceito mais ainda há muito e de modo mascarado! Bonito é quem se dá uma chance, dá oportunidade ao outro, quem faz escolhas criativas como esta de ter a família que se quer ter, construir a felicidade delineada por si, longe de tradicionalismo, próximo da sensibilidade e da afetividade sonhada. Parabéns mais uma vez grande amigo, por mais um texto lindo, continuo seguindo seus passos!