Como pensar a presença paterna nos dias atuais? Você sabia que somente por volta de sete mil anos atrás a humanidade descobriu a relação entre o ato sexual e a procriação? Isso significa que os homens já tiveram sete mil anos para evoluir. Eles precisavam se responsabilizar não apenas pelo seu papel biológico, mas também pelo seu lugar na paternidade.

Pensando na contemporaneidade e em todos os seus avanços culturais, ainda vemos incontáveis casos de pais distantes. Eles se distanciam do desenvolvimento de seus filhos e tornam-se meros provedores. Quando muito, pois essa é uma responsabilização determinada pela justiça e leis do nosso país. É justo recordar que não há manual de instruções para ser pai, e nem mãe. Mas, se há algo que se possa fazer para qualificar a relação com os filhos, por que não?

Foi exatamente o que se perguntou o Pai Criativo, nosso personagem fictício.

Um pai presente

Ele trabalhava em dois lugares diferentes, um que garantia o seu salário fixo e outro que lhe permitia uma renda extra. Suas maiores dificuldades estavam em equilibrar as expectativas. De um lado ganhar mais e, assim, garantir mais conforto à família, tal como ele acreditava que o restante do mundo esperava dele. E do outro, estar mais presente em casa, conforme queria sua família.

Por aproximadamente 10 anos optou por não sucumbir àquilo que demandava sua familia. E assim permaneceu até notar que a palavra "mais" tende ao infinito. E, à medida que tentava se aproximar desse ideal, afastava-se do que deveria ser a razão de todo o seu empenho. Melhorar a qualidade de vida de sua família. Percebeu que são muitos fatores que participam na tal qualidade de vida, inclusive, sua presença e afeto.

Foi quando o Pai Criativo decidiu trocar suas horas no trabalho extra por algumas horas a mais quebrando a cabeça para ajudar seu filho a fazer o dever de matemática. Ou por outras jantando com a família reunida e mais algumas em idas à pracinha do bairro para as crianças andarem de bicicleta.

É fato que também se ocupou dessas horas para separar as brigas entre os filhos, participar da divisão das tarefas domésticas da família, ir às reuniões de condomínio e mandar o filho desligar o videogame para dormir. Mas, o seu tempo ganhou uma nova dimensão, assim como o de todos os demais. Isso é, de fato, a presença paterna necessária!

Tempo não vale dinheiro e sim qualidade de vida

É importante lembrar que, segundo Freud, para a maioria dos seres humanos, a necessidade de se apoiar em uma autoridade de qualquer espécie é tamanha, que quando essa autoridade é ameaçada, seu mundo desmorona. O Pai Criativo teve a sensibilidade necessária para perceber que nada ameaçava mais a sua autoridade do que a sua ausência e fez o que precisava, dentro do seu raio de alcance, para sanar esse problema.

A escolha do Pai Criativo por abdicar da lógica financeira para vivenciar os momentos familiares e o desenvolvimento de seus filhos, comprova que tempo não vale dinheiro e sim qualidade de vida. Ao abrir mão de comprar mais coisas para seus filhos, ele não renunciou de lhes dar uma vida melhor. Pelo contrário, melhorou a sua própria forma de viver e, consequentemente, a da família toda.

Embora o Pai Criativo, nesse caso, pertença a uma família tradicional, nuclear, é imprescindível dizer que a presença da figura paterna independe da configuração familiar. Ela também pode se fazer valer em famílias nas quais o pai mora longe, ou em que houve separação dos cônjuges, em casos de crianças cujo pai (ou os pais) já faleceu (ou faleceram) e mesmo em uma família constituída por duas mães (ou dois pais). Para tanto, basta amar, reconhecer a importância de sua presença e encarar o desafio de criar estratégias para se manter presente e atuante no desenvolvimento de suas crianças.

Disso tudo, nos importa mesmo é que o Pai Criativo reviu o seu conceito de presença paterna, para poder acompanhar todas as transformações que acontecem no dia-a-dia de sua família e participar delas. Assim, em tempo de ver os seus filhos crescerem, ele se reinventou junto de sua família, pois, parafraseando Clarice Lispector, “somente não muda o que não é vivo”.

Já leu o primeiro texto dessa coluna? Quem é o pai criativo

Este também pode fazer sentido para você: Separação – Como não afetar os filhos?

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Comentários

  1. Geraldo Sodré Júnior 26/03/2015 at 11:00 - Reply

    Parabéns Pablo, ótimos textos que nos levam a refletir. Vejo o consumismo como uma fuga de relacionamento, antes do relacionamento com o outro, fugimos do nosso próprio convívio. Mais do que Sartre dizia, o inferno somos nó mesmos quando nos encontramos à sós com nossos pensamentos, sentimentos, emoções e não sabemos o que fazer com eles. Se é difícil a própria convivência, mais difícil será o relacionamento com o outro. Desta forma buscamos fugir deste contato íntimo com nós mesmos para travar um relacionamento superficial com os outros e com as coisas (familiares, animais de estimação, festas, itens tecnológicos, horas extras no trabalho, livros, etc.). Quando será que vamos fugir de nós mesmos e nos encarar de frente ao grande espelho do autoconhecimento?
    Muito sucesso e felicidade para você nesta jornada.
    Abraços saudosos.
    Geraldo Sodré Júnior

  2. Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 26/03/2015 at 14:12 - Reply

    Caro Geraldo,

    Muito obrigado pela importante reflexão, à qual nos convida, e por toda a positividade que você transmite. Espero que volte sempre! Grande abraço!

  3. Kalyne 26/03/2015 at 23:24 - Reply

    Mais um lindo e emocionante texto meu grande amigo!
    Saber viver em equilíbrio é o grande desafio não só do pai mas da mãe nos dias de hoje, onde o excesso de informações e exigências nos empelem a atropelar as relações e a presença na rotina diária da família. Temos que estar vigilantes diante do nossas ações diárias, refletindo se estamos dando a devida atenção a todos os inúmeros papéis que ocupamos. Precisamos refletir ainda se estamos reservando um tempo para o nosso ócio criativo e para cultivarmos o que achamos mais importante! O pai criativo realmente realmente aceita fazer renúncias que o impulsionam para ser um pai em construção e por isso um pai sempre melhor! Um abraço carinhoso e saudoso! Estou sempre te acompanhando!

    • Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 27/03/2015 at 10:31 - Reply

      Querida Kalyne, fico muito feliz com sua presença, sempre tão atenta e generosa! Obrigado por suas ponderações, e conto que continue mesmo acompanhando!

      Beijos! :)

  4. Virginia 27/03/2015 at 23:43 - Reply

    Adorei o texto!
    Um convite ao retorno para o que de fato é essencial. Presença, afeto, tempo investido…
    Isso não tem preço! E resulta em pessoas bastante saudáveis!
    Parabéns!

    • Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 29/03/2015 at 13:24 - Reply

      Olá Virgínia!!! Muito obrigado!! E obrigado por contribuir com o seu comentário!!

      Beijos :)

  5. luiz alberto 29/03/2015 at 09:39 - Reply

    Texto excelente e muito elucidativo que se encaixa perfeitamente na situação que vivo … obrigado por esse ”alerta” … fica com Deus.

    • Pablo Ferreira Bastos Ribeiro 29/03/2015 at 13:26 - Reply

      Caro Luiz Alberto,

      Obrigado por participar!! Espero que continue dialogando com a gente! Caso queira, também, nos enviar sugestões de temas, serão sempre bem vindas.

      Abraço