Toda criança sente medo, preocupação ou insegurança em alguns momentos. O receio de ficar longe dos responsáveis, o desconforto diante de pessoas novas e o medo de situações desconhecidas podem aparecer em diferentes fases do desenvolvimento. Esses sentimentos não significam, por si só, que exista um transtorno de ansiedade.

A preocupação merece uma investigação mais cuidadosa quando se torna intensa, dura mais do que seria esperado para a idade, aparece em diferentes situações ou impede a criança de participar da escola, brincar, dormir, conviver e realizar atividades importantes. Transtornos de ansiedade estão entre os problemas de saúde mental mais frequentes na infância e na adolescência e podem causar prejuízos na vida familiar, escolar e social quando não recebem atenção adequada.[1] [2]

A ansiedade infantil nem sempre aparece como “medo”. Crianças menores podem não conseguir explicar o que estão sentindo. Em vez de dizer “estou preocupado”, elas podem reclamar de dor de barriga, recusar uma atividade, ficar irritadas, chorar ou buscar repetidamente a confirmação de que tudo dará certo. Por isso, mais importante do que procurar um sinal isolado é observar mudanças, frequência, intensidade, contexto e impacto na rotina.

Índice:

1. Sintomas físicos recorrentes

A ansiedade envolve corpo, pensamentos, emoções e comportamentos. Quando a criança se sente ameaçada ou muito preocupada, pode apresentar aceleração do coração, tensão muscular, suor, tremor, dor de cabeça, enjoo, dor abdominal, vontade de vomitar ou dificuldade para dormir. Esses sintomas são reais, mesmo quando a causa não é imediatamente visível.

É importante não concluir que uma dor é “apenas emocional”. Primeiro, a criança deve receber avaliação pediátrica quando houver sintomas físicos persistentes, intensos ou novos. Depois, se não houver explicação médica suficiente ou se os sintomas aparecerem principalmente em situações específicas, uma avaliação psicológica pode ajudar a compreender a relação entre corpo, emoções e contexto.

Observe, por exemplo, se a dor surge antes da escola, de uma prova, de uma separação, de uma apresentação ou de um encontro social. A relação com essas situações pode ser uma pista, mas não confirma ansiedade sozinha. Estudos sobre recusa escolar mostram que sintomas físicos inespecíficos, como dor abdominal, dor de cabeça, náusea e vômito, aparecem com frequência e exigem avaliação cuidadosa.[3]

2. Recusa ou sofrimento intenso para ir à escola

A criança pode começar a pedir para não ir à escola, apresentar sintomas físicos nos dias de aula, chorar na hora de sair de casa, ter crises no caminho ou faltar com frequência. Algumas parecem melhorar quando permanecem em casa e voltam a apresentar sofrimento quando a próxima ida à escola se aproxima.

Esse padrão pode estar relacionado à ansiedade de separação, à ansiedade social, ao medo de avaliações, a dificuldades de aprendizagem, conflitos, bullying, mudanças familiares, problemas de sono ou outras condições. Também pode indicar uma dificuldade de adaptação sem constituir um transtorno de ansiedade. Por isso, não é adequado tratar toda recusa escolar como “manha”, nem presumir que a causa seja ansiedade sem conversar com a criança, a família e a escola.

A investigação deve perguntar: o que acontece antes da recusa? Há medo de se separar dos responsáveis? A criança teme ser ridicularizada? Está sofrendo bullying? Tem dificuldade em alguma disciplina? Sente-se segura na escola? A escola percebeu alguma mudança no comportamento ou nas relações? Essas informações ajudam a construir uma resposta mais adequada.

3. Irritabilidade, explosões ou resistência fora do padrão habitual

Em algumas crianças, a ansiedade aparece como irritação, agressividade, choro, resistência para dormir ou explosões diante de mudanças. Isso pode ocorrer porque a criança ainda não consegue nomear a preocupação ou não sabe como pedir ajuda. A irritabilidade, porém, é um sinal inespecífico: também pode estar relacionada a privação de sono, dor, dificuldades de aprendizagem, alterações de humor, conflitos, experiências adversas ou outras condições do desenvolvimento.

O mais importante é observar a mudança em relação ao padrão daquela criança. Pergunte: quando a irritação aparece? O que costuma acontecer antes? Ela ocorre em situações de novidade, separação, desempenho ou exposição social? A criança consegue se acalmar com apoio? Há prejuízo nas relações, na escola ou em casa?

Acolher não significa permitir qualquer comportamento. O adulto pode reconhecer a emoção e manter limites claros: “Eu percebi que você ficou muito preocupado. Não vou deixar que machuque alguém. Vamos descobrir o que aconteceu e pensar no próximo passo”. Essa combinação de compreensão e limite costuma ser mais útil do que ridicularizar o medo ou punir a criança por estar angustiada.

4. Evitação de atividades, lugares ou situações

A evitação é um dos sinais mais importantes para observar. A criança pode deixar de frequentar o futebol de que gostava, evitar festas, não querer entrar em lojas, recusar apresentações, deixar de brincar com colegas ou desistir de atividades por medo de errar, passar mal, ser avaliada ou enfrentar uma situação desconhecida.

No curto prazo, evitar traz alívio. A criança deixa de sentir a ansiedade naquele momento. Porém, quando a evitação se repete, ela pode aprender que a situação é perigosa e que não conseguiria enfrentá-la. Esse ciclo pode fortalecer o medo e ampliar as restrições da vida cotidiana.[2] [4]

Isso não significa forçar a criança abruptamente a fazer algo que a assusta. A exposição a situações temidas, quando indicada, deve ser gradual, planejada e compatível com a idade e com o quadro clínico. Na terapia cognitivo-comportamental, a criança e os responsáveis aprendem a reconhecer o ciclo da ansiedade e a construir aproximações progressivas, com apoio profissional quando necessário.[4] [5]

Também é importante respeitar preferências legítimas. Nem toda desistência significa ansiedade. A criança pode simplesmente não gostar mais de uma atividade. O sinal de alerta surge quando o medo limita repetidamente a participação, causa sofrimento intenso ou impede experiências importantes para o desenvolvimento.

5. Preocupações persistentes, necessidade de confirmação ou comportamentos rígidos

Algumas crianças fazem muitas perguntas sobre segurança, saúde, desempenho, separação ou acontecimentos futuros. Podem pedir confirmação várias vezes, imaginar cenários catastróficos ou ter dificuldade para tolerar incertezas. Outras demonstram grande rigidez diante de mudanças, precisam repetir determinadas ações ou ficam muito angustiadas quando uma rotina é alterada.

Rotinas podem ajudar a criança a se organizar e se sentir segura. Elas não são, por si só, um problema. A atenção deve aumentar quando a regra precisa ser cumprida de maneira exata, quando a criança sofre intensamente se algo sai diferente, quando passa muito tempo repetindo ações ou quando toda a família precisa reorganizar a vida para evitar sua angústia.

Comportamentos repetitivos e rituais também podem aparecer no transtorno obsessivo-compulsivo, que não é simplesmente “ansiedade infantil” nem deve ser diagnosticado por uma lista na internet. Compulsões podem envolver conferir, organizar, lavar, contar ou repetir ações para aliviar uma preocupação. A diferenciação exige avaliação clínica, porque rotinas do desenvolvimento, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo e outras condições podem se parecer em alguns aspectos.[6]

O que os responsáveis podem fazer?

Comece pela escuta. Escolha um momento tranquilo e diga que você percebeu uma mudança, sem interrogatório ou julgamento: “Tenho notado que ir à escola está difícil. Quero entender o que está acontecendo e pensar com você em como ajudar”. Crianças e adolescentes podem precisar de tempo para falar. Desenhos, brincadeiras e perguntas abertas podem facilitar a comunicação, especialmente com crianças menores.

Registre por alguns dias situações, horários, sintomas, pensamentos relatados, estratégias usadas e o que acontece depois. Converse com a escola e com o pediatra quando houver sintomas físicos, faltas, queda no rendimento ou mudança importante no comportamento. Evite prometer que nada ruim acontecerá, porque isso pode aumentar a necessidade de pedir confirmação. Em vez disso, ajude a criança a desenvolver recursos para lidar com a incerteza e com emoções difíceis.

Também evite ridicularizar, ameaçar, superproteger ou obrigar a criança a enfrentar tudo de uma vez. A família pode oferecer segurança e apoio sem organizar a vida inteira para que nenhum desconforto aconteça. A melhor resposta depende da idade, do tipo de medo, da intensidade dos sintomas e do contexto familiar e escolar.

Quando procurar avaliação psicológica?

Procure ajuda quando a ansiedade persiste, aumenta ou interfere na escola, no sono, nas amizades, nas brincadeiras, na autonomia ou na convivência familiar. Também é recomendável buscar avaliação quando a criança evita muitas situações, apresenta crises frequentes, sofre com sintomas físicos recorrentes ou demonstra pensamentos e comportamentos rígidos que ocupam muito tempo.

Uma avaliação não serve apenas para confirmar ou descartar um diagnóstico. Ela também ajuda a entender o que está mantendo o sofrimento, quais recursos a criança já possui, como a família e a escola podem participar e qual cuidado é mais indicado. Dependendo da gravidade, da idade, das preferências da família e da avaliação clínica, o tratamento pode envolver outros profissionais ou medicação prescrita e acompanhada por médico.[1] [4] [5]

Perceber sinais de ansiedade não significa rotular a criança. Significa abrir espaço para compreender o que ela está vivendo e oferecer ajuda antes que o medo limite sua vida.

Referências bibliográficas

[1]: )30280-X/fulltext “Walter HJ, Bukstein OG, Abright AR, et al. Clinical Practice Guideline for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Anxiety Disorders. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. 2020;59(10):1107–1124.”
[2]: “Rapee RM, Creswell C, Kendall PC, Pine DS, Waters AM. Anxiety disorders in children and adolescents: A summary and overview of the literature. Behaviour Research and Therapy. 2023;168:104376.”
[3]: “Li A, Guessoum SB, Ibrahim N, et al. A systematic review of somatic symptoms in school refusal. Biopsychosocial Medicine. 2021;15:21.”
[4]: “Stiede JT, Trent ES, Viana AG, et al. Cognitive Behavioral Therapy for Children and Adolescents with Anxiety Disorders. Child and Adolescent Psychiatric Clinics of North America. 2023;32(3 ):543–558.”
[5]: “James AC, James G, Cowdrey FA, Soler A, Choke A. Cognitive behavioural therapy for anxiety disorders in children and adolescents. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2015;CD013162.”
[6]: “Geller DA, March J. Practice Parameter for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Obsessive-Compulsive Disorder. Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry. 2012;51(1 ):98–113.”

Visite nossas redes:

Autor(a)

Equipe DiálogoPsi

Somos uma equipe de psicólogos em Belo Horizonte dedicada a promover saúde mental e bem-estar. Oferecemos um espaço seguro de escuta através da Psicoterapia, além de suporte especializado em Orientação Profissional e Avaliação Neuropsicológica.

RT - Júlia Maria Alves CRP04/30.828

Inscreva-se na Newsletter

Psicoterapia?

Está buscando atendimento psicológico? Entre em contato com a nossa equipe pelo Whatsapp:

Vou te indicar um texto:

Autor(a)

Equipe DiálogoPsi

Somos uma equipe de psicólogos em Belo Horizonte dedicada a promover saúde mental e bem-estar. Oferecemos um espaço seguro de escuta através da Psicoterapia, além de suporte especializado em Orientação Profissional e Avaliação Neuropsicológica.

RT - Júlia Maria Alves CRP04/30.828

Outros artigos indicados para você

Comentários