“A ansiedade é um desejo daquilo que tememos, um temor daquilo que desejamos, uma antipatia-simpática. É um poder estranho que agarra o indivíduo sem que ele possa desvencilhar-se dele, nem queira desvencilhar-se, pois tem medo disso. Mas esse medo é também um desejo“. Sören Kierkegaard
Ansiedade: Quando a preocupação se transforma em alarme constante
Kierkegaard descreveu a ansiedade, no século XIX, como uma experiência ambígua, uma mistura de medo e desejo. Curiosamente, a psicologia atual chegou a uma ideia parecida sobre sua função: a ansiedade nasce da tentativa da mente de se preparar para algo que ainda não aconteceu.
Vivemos conectados ao relógio, às notificações do celular e a exigências constantes, nos acostumamos a esse ritmo. Com isso, muitas vezes, ignoramos os nossos próprios limites. Contudo, esse hábito tem um custo.
O que é ansiedade, afinal?
Sentir-se preocupado ou nervoso diante de algo é ansiedade. Mas a psicologia distingue esse sentimento de um estado próximo: o medo. O medo é a resposta emocional a uma ameaça real e presente. Já a ansiedade é a antecipação de uma ameaça futura, muitas vezes incerta. Essa diferença importa: ela explica por que a ansiedade, ao contrário do medo, pode se manter mesmo sem um perigo concreto à vista.
Em sua essência, a ansiedade tem uma função adaptativa: prepara o corpo e a mente para desafios, motivando ações que evitam riscos ou reduzem suas consequências. Um nível moderado de ansiedade até ajuda o desempenho — é o que mostra a chamada Lei de Yerkes-Dodson, descrita ainda no início do século XX: até certo ponto, mais ativação significa mais atenção e energia. Passado esse ponto, porém, a curva se inverte, e o excesso de ansiedade atrapalha em vez de ajudar.
Quando a ansiedade vira um transtorno
A ansiedade deixa de cumprir sua função quando se torna intensa, frequente ou constante, e quando aparece sem uma ameaça real. Nesse ponto, ela pode prejudicar a vida cotidiana e caracterizar um transtorno de ansiedade. Alguns sinais ajudam a reconhecer esse quadro:
- a pessoa se sente ansiosa quase o tempo todo, mesmo quando os problemas ao redor não justificam a preocupação;
- a ansiedade é intensa a ponto de interferir no trabalho, nos estudos ou nas relações;
- fica difícil entender de onde vem a ansiedade ou encontrar formas de lidar com ela.
Além da preocupação em si, é comum surgirem sintomas físicos: falta de ar, tontura, sudorese e coração acelerado. Vale lembrar que alguns problemas de saúde também podem causar ansiedade, como doenças cardíacas, doenças pulmonares e hipertireoidismo, assim como certas substâncias, entre elas cafeína, anfetaminas, cocaína e corticosteroides. Por isso, uma avaliação profissional é sempre o primeiro passo antes de qualquer conclusão.
Os principais transtornos de ansiedade
O DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição revisada, da Associação Americana de Psiquiatria) reúne critérios clínicos para identificar os transtornos de ansiedade mais comuns:
Buscar ajuda é um gesto de cuidado
Reconhecer-se nesses sintomas não substitui uma avaliação profissional. O diagnóstico não deve ser um rótulo — deve ser o início de um cuidado que olha para você como pessoa, não apenas como um conjunto de critérios.
Se você sente que a ansiedade tem prejudicado sua qualidade de vida, procurar um profissional qualificado é o próximo passo. Pedir ajuda é um gesto de coragem — e o primeiro passo para recuperar espaço na própria vida.
Créditos e referências
- Texto atualizado em Jun/2026.
- American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). Washington, DC.
- Barlow, D. H. (2002). Anxiety and Its Disorders: The Nature and Treatment of Anxiety and Panic (2nd ed.). New York: Guilford Press.
- Yerkes, R. M., & Dodson, J. D. (1908). The relation of strength of stimulus to rapidity of habit-formation. Journal of Comparative Neurology and Psychology, 18(5), 459–482.
Outros artigos indicados para você
Comentários







