Quantas vezes você já ouviu alguém dizer “essa mulher é histérica”? A história desse conceito acompanha mudanças profundas nos modos de compreender o corpo, o sofrimento e o sujeito. Ao longo do tempo, sintomas como paralisias, desmaios, sufocamentos, convulsões, dores e alterações da sensibilidade receberam explicações bem distintas: em alguns períodos, foram relacionados ao útero; em outros, atribuídos a forças sobrenaturais ou à simulação; e, mais tarde, associados a uma lesão orgânica ou a alterações do sistema nervoso ou psíquico.

Por trás dessas explicações, mobilizam-se diferentes concepções sobre a anatomia, a sexualidade, a moral, a religião, a linguagem e a vida psíquica. Por isso, a história da histeria não fala apenas de uma doença, mas também da sociedade e dos critérios pelos quais certas manifestações do corpo foram compreendidas em cada época. Assim, acompanhar essa história significa acompanhar a transformação de uma pergunta: como compreender um sofrimento que aparece no corpo, mas não se explica somente por uma lesão orgânica?

Índice

o que significa “histeria”?

A palavra “histeria” deriva do grego hystéra, termo relacionado ao útero. Essa origem ajuda a explicar por que, durante muito tempo, a histeria foi considerada uma condição exclusivamente feminina. No entanto, a etimologia não define o conceito atual, tampouco deve ser tomada como explicação científica do fenômeno.

Para isso, é importante diferenciar três sentidos que muitas vezes aparecem misturados. Primeiro, “histeria” foi uma categoria médica utilizada para reunir manifestações variadas. Depois, Freud deslocou a causa da histeria, elaborando uma questão central para a formação da psicanálise: o inconsciente. Por fim, Lacan retomou a histeria como estrutura clínica e formulou o conceito de discurso da histérica. Esses três sentidos estão relacionados entre si, mas não são equivalentes.

“… na mulher, o que se chama de matriz ou útero seria como um ser vivo, possuído do desejo de fazer crianças. Quando, durante muito tempo, e apesar da estação favorável a matriz permanece estéril, ela se irrita perigosamente; ela se agita em todos os sentidos pelo corpo, obstrui as passagens do ar, impede a inspiração, mete o corpo, assim, nas piores angústias e lhe ocasiona outras doenças de todas as espécies”. Platão, em O Timeu

A histeria na história

Antes de se tornar categoria médica autônoma, a histeria já era tema filosófico na Antiguidade. Há, inclusive, registros egípcios de queixas e sintomas atribuídos ao útero: o Papiro ginecológico de Kahun, datado de aproximadamente 1900–1800 a.C., é reconhecido como o mais antigo tratado ginecológico preservado. Essas concepções refletiam tanto o conhecimento médico da época quanto as ideias sociais sobre o corpo feminino. [1]

Mais tarde, em “Timeu”, Platão (360 a.C.) descreve o útero como um “animal” dentro do corpo feminino que se revolta quando não engravida, migrando pelo corpo e causando sintomas. Essa é a matriz filosófica da teoria do “útero errante”, que a medicina hipocrática viria a sistematizar: Hipócrates (século V a.C.) foi o primeiro a usar o termo histeria. Nessa mesma linha, Aristóteles, em obras biológicas como “De generatione animalium”, reforça essa fisiologia ao tratar o feminino como um desvio ou uma insuficiência em relação ao modelo masculino — ideia que, retomada por Tomás de Aquino na Idade Média (“Summa Theologica”), fundaria séculos de leitura da mulher como “ser defeituoso”. [1]

Na Roma Antiga, os médicos Cornélio, Soranos e Galeno observaram que a histeria se manifestava especialmente entre mulheres que passavam por abstinência sexual. Para Galeno, a falta de sexo levava a uma retenção do “esperma feminino”, substância que, acumulada, envenenaria o corpo e afetaria os humores. O tratamento, portanto, era claro: a atividade sexual regular. Essa ideia se fixaria por muitos séculos, ora se escondendo, ora retornando com força. [1]

A histeria na idade média

Na Idade Média, havia uma divisão nessa compreensão. Pela visão da chamada “ciência”, mantinha-se o pensamento hipocrático. Por outro lado, a visão religiosa deixava de lado conceitos médicos, e a histérica passava a ser vista simplesmente como uma mulher dominada pelo demônio — o exorcismo ou, no caso das condenadas por bruxaria, a sentença de morte eram a solução. De modo geral, a visão predominante da época considerava a mulher um ser física e teologicamente inferior. [1]

As formas de tratamento ao longo da história acompanharam essa mesma oscilação: variavam entre ervas, prescrição ou proibição de relações sexuais, oração, exorcismo, confinamento, violência, punição, ou ainda morte. Somente mais tarde surgiriam as terapias clínicas propriamente ditas.

Entre a Idade Clássica e o século XIX, a histeria permaneceu presente como uma doença misteriosa, o que abria espaço para especulações inusitadas. Foi apenas na segunda metade do século XIX que essas ideias começaram a ser gradualmente substituídas por novas construções: o neuropsiquiatra francês Pierre Janet afirmou que a causa da histeria estava na “idée fixe“, ou seja, no subconsciente. Quanto ao erotismo, Janet observou que “os histéricos, em geral, não são mais eróticos do que uma pessoa normal”. [1]

Da histeria como enigma médico à escuta psicanalítica

A histeria já era um enigma para a medicina havia séculos, associada erroneamente a uma patologia do corpo feminino. No final do século XIX, Jean-Martin Charcot estudava a histeria no Hospital Salpêtrière por meio da hipnose, compreendendo-a como um fenômeno neurológico observável, ainda que sem uma teoria sobre sua causa. Foi a partir do contato com Charcot — e, principalmente, do trabalho clínico ao lado de Josef Breuer — que Freud deu à histeria um estatuto radicalmente novo: ela deixava de ser entendida como um distúrbio do corpo e passava a ser lida como um sintoma com sentido, produzido por um conflito psíquico inconsciente [3].

Charcot e Freud contribuíram para modificar a concepção de que a histeria seria uma doença exclusivamente feminina. Ao estudar casos de histeria masculina, Charcot demonstrou que homens também podiam apresentar sintomas histéricos, questionando a associação tradicional entre histeria e mulheres. Freud, por sua vez, ao observar o caso de um homem com hemianestesia histérica [2], reforçou essa perspectiva e mostrou que tais manifestações não dependiam necessariamente de uma lesão orgânica, mas podiam estar relacionadas a processos psíquicos

Freud avançou a teoria da histeria ao propor que seus sintomas se organizam em torno de conflitos ligados à sexualidade infantil recalcada. Para ele, o sintoma histérico é uma conversão: um conflito psíquico que encontra expressão através do corpo — paralisias, tosses, dores sem causa orgânica — e funciona como uma solução de compromisso entre o desejo recalcado e a defesa contra ele (Ler o caso Dora) [3] [4].

Esse mesmo caso revela ainda algo que se tornaria central à clínica da histeria: a pergunta do sujeito histérico sobre o próprio desejo e sobre o desejo do Outro — “o que sou eu para o desejo do outro?” —, questão que Freud já notava, mas que seria Lacan quem formalizaria, décadas depois.

Lacan: a histeria como estrutura clínica

Lacan desloca a histeria do campo do “distúrbio” para o campo da estrutura clínica: ao lado da neurose obsessiva, ela passa a ser uma das duas formas fundamentais de organização do sujeito neurótico diante da castração e do desejo do Outro [5]. Não se trata mais, portanto, de um conjunto de sintomas a serem descritos, mas de uma posição subjetiva: o sujeito histérico se sustenta fazendo uma pergunta permanente sobre o desejo do Outro, questionando o saber estabelecido — inclusive o saber do próprio analista. Anos depois, Lacan formaliza essa posição como o discurso da histérica, um dos quatro discursos que propõe para pensar os laços sociais e a clínica. [6]

A histeria hoje: de categoria médica a posição subjetiva

Foi apenas em 1980 que a histeria deixou de existir como categoria diagnóstica nos manuais médicos, com a publicação do DSM-III. Desde então, ela está redistribuída sob outros nomes, como transtornos de conversão ou dissociativos. Para a psicanálise, no entanto, ela permanece central — não como doença, mas como uma das estruturas clínicas fundamentais, presente em muitos sujeitos que buscam análise, independentemente de qualquer sintoma conversivo visível [7] [8]. Há, aqui, uma diferença importante entre a nosografia psiquiátrica e a clínica estrutural psicanalítica: no campo freudo-lacaniano, a histeria fala menos de “o que a pessoa tem” e mais de “como o sujeito se posiciona diante do desejo e do saber”.

Referências Bibliográficas

[1] TASCA, C; RAPETTI, M; CARTA, MG; FADDA, B. Mulheres e histeria na história da saúde mental. Prática Clínica e Epidemiologia in Mental Health, v. 8, 2012. Disponível na PubMed Central.[2] FREUD, S. Observação de um caso grave de hemianestesia num homem histérico (1886). In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.[3] FREUD, S.; BREUER, J. Estudos sobre a histeria. (1893-1895)[4] FREUD, S. Fragmento da análise de um caso de histeria (1905)
[5] LACAN, J. Intervenção sobre a transferência (1951). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
[6] LACAN, J. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. (1969-1970)
[7] JORGE MAC. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan, vol. 1. Rio de Janeiro: Zahar, 2000
[8] ISRAËL, L. Boas-vindas à histeria. Rio de Janeiro: Campus, 1995.

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Autor(a)

Julia Maria Alves

Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

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