Como os padrões de beleza afetam a imagem corporal?

Quem nunca ouviu uma “piadinha” sobre ganhar ou perder alguns quilos? Ou recebeu um comentário sobre o cabelo, o corpo ou a aparência? Frases como “por que você não alisa o cabelo?” e “você ia ficar mais bonita mais magrinha?” podem parecer casuais para quem fala. Entretanto, elas podem produzir constrangimento, insegurança e pressão para que alguém se encaixe em um modelo de aparência.

Os padrões de beleza não influenciam todas as pessoas da mesma forma. Ainda assim, quando uma sociedade apresenta determinado tipo de corpo como superior, desejável ou mais digno de reconhecimento, muitas pessoas passam a comparar a própria aparência com esse modelo.

O que são padrões de beleza?

Um padrão funciona como uma referência ou norma. No caso da beleza, o termo designa um conjunto de características que uma sociedade, em determinado período, valoriza como atraentes ou desejáveis. Esses ideais mudam conforme a época, a cultura, o gênero, a raça, a classe social, a idade e as transformações do mercado.

Por isso, não existe um padrão de beleza único, natural e permanente. A aparência considerada ideal em uma época pode perder força em outra. Além disso, diferentes grupos sociais valorizam características distintas.

Mesmo assim, a existência de variações históricas não elimina os efeitos da pressão estética. Quando publicidade, entretenimento, moda e redes sociais repetem imagens semelhantes, essas imagens podem parecer mais normais, acessíveis e desejáveis do que realmente são.

São os chamados “ideais Barbie”, associados a corpos que não envelhecem, feitos de plástico e apresentados com proporções impossíveis. Esses modelos são, além de inatingíveis, violentos, pois pregam a uniformidade em um mundo de corpos diversos, ignorando que cada corpo tem suas próprias formas — todas igualmente especiais.

Desde sempre existiram padrões de beleza na sociedade

For privacy reasons YouTube needs your permission to be loaded. For more details, please see our POLÍTICAS DE PRIVACIDADE.

Como os ideais de aparência são construídos?

A família, os amigos, a escola, a publicidade, a televisão e as redes sociais participam da construção da imagem corporal. Desde cedo, crianças e adolescentes recebem mensagens sobre quais corpos merecem elogios, quais características devem ser corrigidas e quais aparências parecem representar sucesso.

Além disso, as plataformas digitais favorecem comparações frequentes. Em um estudo com adolescentes brasileiras, a influência da mídia e o uso frequente de redes sociais associaram-se à insatisfação com a imagem corporal.[3] Outra pesquisa encontrou associação entre a frequência de comparação da própria aparência com a aparência de pessoas seguidas nas redes sociais e a insatisfação corporal.[2]

Esses resultados não significam que toda pessoa que utiliza redes sociais desenvolverá sofrimento relacionado ao corpo. A relação depende, entre outros fatores, do tipo de conteúdo consumido, da frequência das comparações, da internalização dos ideais e do apoio disponível nas relações.[1] [2]

Quando a busca pelo padrão começa a causar sofrimento?

A preocupação com a aparência pode ocupar um espaço excessivo na vida de alguém. Por exemplo, a pessoa pode evitar fotografias, encontros, roupas ou atividades por medo de ser julgada. Também pode alterar a alimentação ou os exercícios de maneira rígida, mesmo quando essas mudanças provocam sofrimento.

No entanto, cuidar da saúde ou desejar mudar algum aspecto da aparência não constitui, por si só, um problema psicológico. O sinal de alerta aparece quando a preocupação se torna persistente, causa sofrimento intenso, ansiedade, restringe a vida cotidiana ou interfere nas relações, no trabalho, nos estudos e no autocuidado.

Além disso, não devemos avaliar o sofrimento apenas pela aparência do corpo. Pessoas com diferentes pesos, formas, idades, raças, deficiências e características físicas podem sofrer com a pressão estética. Portanto, o corpo visível não revela sozinho a relação que alguém mantém com a própria imagem.

Para ilustrar essa realidade, convidamos você a ler o relato de Patrícia Pinheiro [3], que compartilha sua relação com o próprio corpo de forma inspiradora.

Sempre fui magra

Patrícia Sebastiany Pinheiro [5]

Anos após entrar na adolescência, comecei a ganhar um pouco de corpo. Mais ou menos, até os 15 anos, me sentia bonita, não tinha maiores problemas com meu peso. Por volta dos 16 ou 17 anos, enquanto ainda estava no ensino médio, em decorrência de algumas doenças físicas e, posteriormente, traumas emocionais, comecei a emagrecer bastante. Mas eu não percebia a diferença, me alimentava consideravelmente bem e levava uma vida normal. Foi quando os outros começaram a apontar e a criticar minha magreza.

E assim, dia após dia, eu, que mais magrinha ou mais cheinha sempre havia vivido bem dentro do meu próprio corpo, passei a ouvir calada os diversos comentários negativos dispensados ao meu corpo magro, comecei a internalizá-los e a acreditar neles.

O seguinte pensamento passou a martelar 24h por dia na minha cabeça: "Para ser bonita e aceita, preciso engordar". Assim, passei a fazer milhares de tratamentos, a comer coisas que não tinha vontade mesmo quando estava sem fome, e a frequentar academias (coisa que detesto fazer).

Cada quilo que eventualmente eu perdia, acabava comigo.

A cada: "Nossa, como você tá magrinha", lá ia eu novamente tentar descobrir como juntar os pedaços e levantar da cama no outro dia sem ter medo de colocar uma calça que, aos meus olhos, iria sobrar mais ainda na cintura.

Passei a desenvolver uma espécie de síndrome do pânico, um medo patológico de emagrecer. Medo de ficar doente e emagrecer. Medo de comer uma coisa estragada e emagrecer.

Colocando assim, parece bobo, mas a preocupação com o corpo, a associação que fiz entre o corpo ideal e a felicidade, me tirou grande parte da tranquilidade de viver, da espontaneidade, da segurança; me fazendo preocupada, pessimista, detalhista, extremamente ansiosa e facilmente deprimida.

Fiz e ainda faço muita terapia para conseguir lidar com esse padrão de pensamento que, mesmo que de forma um pouco menos acentuada, ainda insiste em me puxar para baixo. Mas hoje, consigo entender que apesar de eu ter permitido que todo esse medo tomasse uma proporção gigantesca na minha vida, eu não o construí sozinha.

Eu não me sentia feia, até que começaram a dizer que eu seria muito mais bonita se ganhasse uns quilinhos. Não me sentia menos gente, até alguém dizer que "eu era legal, mas muito magrinha".

Eu me sentia inteira antes de me dizerem que eu estava a ponto de sumir.

O que mais dói é saber que eu sou mais uma dentre as milhares de mulheres que experienciam situações como essa; que, na tentativa de engordar ou emagrecer, adoecem para atingir um padrão de beleza que nos é empurrado todo dia. E é por isso que meu estômago revira a cada capa de revista que eu vejo carregada de dietas para emagrecer. É por isso que não faço questão de ter a amizade de uma pessoa que chama uma mulher de "caveira" ou de "baleia".

É por todos esses comentários maldosos a que eu e muitas mulheres ainda somos submetidas que precisamos do feminismo, pois, diferentemente de vitimização, como muitos o definem, ele é, sim, o abrigo de vozes que lutam contra todas essas imposições que já tiraram o meu brilho do olhar; é a certeza de que o belo e o correto sempre serão nada mais do que aquilo que NÓS MESMAS desejarmos ser."

Referências bibliográficas

[1] Rodgers, R. F.; Slater, A.; Gordon, C. S.; McLean, S. A.; Jarman, H. K.; Paxton, S. J. A biopsychosocial model of social media use and body image concerns, disordered eating, and muscle-building behaviors among adolescent girls and boys. Journal of Youth and Adolescence, 2020, 49, 399–409.

[2] Jiotsa, B. et al. Social media use and body image disorders: association between frequency of comparing one’s own physical appearance to that of people being followed on social media and body dissatisfaction and drive for thinness. International Journal of Environmental Research and Public Health, 2021, 18(6), 2880.

[3] Amaral, A. C. S. et al. Uso de redes sociais, influência da mídia e insatisfação com a imagem corporal de adolescentes brasileiras. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 2017, 66(3).

[4] Blog Caminhos.eu

[5] Autora: Patrícia Sebastiany Pinheiro tem 21 anos. É gaúcha de Santa Maria, onde estudou Psicologia na UFSM por três anos. Atualmente mora em Florianópolis. É escritora, feminista, apaixonada por moda e assumidamente viciada em filmes e séries. Escreve em seu blog pessoal e mantém uma página no Facebook.

Visite nossas redes:

Autor(a)

Julia Maria Alves

Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

Inscreva-se na Newsletter

Psicoterapia?

Está buscando atendimento psicológico? Entre em contato com a nossa equipe pelo Whatsapp:

Vou te indicar um texto:

Autor(a)

Julia Maria Alves

Psicóloga (UFMG, 2009), especialista em Psicologia Clínica (CRP04/30-828), com especialização em Clínica Psi. na Atualidade (PUC-MG, 2021) e Neuropsicologia (PUC-MG, 2026). Atua com Avaliação Neuropsicológica, Psicoterapia, Orientação Profissional e de Carreira.

Outros artigos indicados para você

Comentários

  1. Vicente 17/03/2015 at 15:02 - Reply

    Adorei o site, vocês estão de parabéns. Tetxo muito bom! :-)

    • Júlia Mª Pereira Alves 19/03/2015 at 10:46 - Reply

      Obrigada Vicente! Seja muito bem vindo!!

  2. Ana Paula Oliveira Rocha 19/03/2015 at 10:04 - Reply

    Muito bom o relato
    passo por isso também, mas do lado contrario. Tenho muita dificuldade em emagrecer, começo a parar de comer tudo que gosto e quando percebo já estou tão triste e frustrada que acabo me esbaldando num dia de chocolate. Minha médica disse que se eu comer uma barrinha de vez em quando não tem problema, melhor do que um dia de chocolate, mas quem disse que eu consigo? A culpa de ver as pessoas magrinhas do meu lado é pior!

    • Júlia Mª Pereira Alves 19/03/2015 at 10:46 - Reply

      Engordar e emagrecer com saúde é importante! Mas sempre esquecemos que saúde física se completa com saúde psíquica! Não é verdade?
      Obrigada por participar, Ana Paula, seja bem vinda!
      Um abraço

  3. Maria Conceição Souza 19/03/2015 at 10:14 - Reply

    Que lindo texto! Parabéns Júlia! Está tudo lindo por aqui! adorando as colunas, adorando as imagens, seu trabalho é genial!

    • Júlia Mª Pereira Alves 19/03/2015 at 10:44 - Reply

      Obrigada Maria, Fico super feliz por saber!
      Seja super bem vinda!!!

  4. Karina Friaça 24/03/2015 at 00:41 - Reply

    Coincidentemente pensei nisso hoje, esse terrorismo alimentar que estamos vivendo. Passei por situação parecida como a da Patricia na adolescência por ser “legal e bonita mas muito magra” e hoje vejo essa busca excessiva pela magreza ou essa moda fit de todos serem musculosos e não comer um pedacinho de chocolate porque não é legal para os padrões atuais. Pessoas fazendo restrições alimentares sem precisar, só porque está na moda. Até quando ficaremos escravizados pela aparência externa?

    • Júlia Mª Pereira Alves 29/03/2015 at 23:25 - Reply

      Ótima reflexão e questionamento, Karina! A mudança de paradigmas começa dentro de nós mesmos!
      Um grande abraço!! Obrigada por participar!

  5. Brida Castro Pezzin 29/03/2015 at 14:55 - Reply

    Parabéns! Adorei o texto!
    Posso compartilhar na minha fanpage: https://www.facebook.com/nutricionistabridacastro ? Acho super importante as pessoas saberem diferenciar saúde de padrão de beleza imposto pela mídia. Muitas pessoas precisam ver esta realidade que tem feito muitas pessoas de vítima e pré-conceitos. Porque ninguém precisa de ser mais magrinha ou mais gordinha para ser bonita, precisamos de ser saudáveis e de nos amar. ;)

    • Júlia Mª Pereira Alves 29/03/2015 at 23:23 - Reply

      Claro, Brida! Sinta-se à vontade para compartilhar!
      Fico muito satisfeita!
      Um abraço, Júlia Alves